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Dois pra lá, dois pra cá

João Steiner

Ao olharmos as estrelas numa noite escura, temos a impressão de que elas são simples pontos isolados no céu. Mas pelo menos metade desses faróis celestes representa dois astros ligados entre si pela atração gravitacional. Da Terra, só se vê um foco luminoso, mesmo sob o exame de grandes telescópios.

Astrônomos árabes no século XI foram os primeiros a notar essa duplicidade. Eles viram que certa estrela no hemisfério norte sumia periodicamente. Ficaram tão perturbados que a batizaram de Algol, palavra árabe que significa demônio. Mais tarde se comprovou que ali havia dois astros, com um deles volta e meia passando na frente do outro, que, assim, parecia ter se apagado.

Para a Astronomia, é uma sorte. Só se pode avaliar a massa de uma estrela quando ela gira em torno de outra. É que a massa gera a gravidade, que mantém o par unido. Tal como a força que um casal de bailarinos faz quando rodopia, quanto maior a atração gravitacional, mais rápido o giro. Assim, estudando o movimento da dupla de estrelas, deduz-se a massa de cada parceiro.

Um traço curioso dos astros emparelhados é que eles não devem ter planetas. Se um mundo se formar perto deles, será atraído ao mesmo tempo pelos dois astros, sendo jogado de um lado para outro. Nesse vaivém, mais cedo ou mais tarde o planeta será ejetado para longe, perdendo-se no espaço. n

João Steiner é Astrônomo e astrofísico da Universidade de São Paulo (USP)

Estrelas que brilham aos pares

Metade dos focos de luz que se vêem no céu são dois astros ligados entre si, tão próximos que parecem um só.

O ponto luminoso acima é um par de estrelas que, por estar muito perto uma da outra, parece um único astro. A dupla, chamada de Mira, fica na Constelação da Baleia, a 400 anos-luz da Terra (1 ano-luz mede 9,5 trilhões de quilômetros)

Em agosto passado, o telescópio espacial Hubble fez esta imagem de Mira. Pela primeira vez, as duas estrelas aparecem bem separadas uma da outra. A distância entre elas, de 10,5 bilhões de quilômetros, é 4 000 vezes menor do que a que existe entre o Sol e Alfa Centauro, o astro mais próximo dele

Dança Estelar

Num sistema binário típico, giram dois astros em torno de um centro comum, como dois dançarinos. A dupla de Mira leva 400 anos para completar uma volta.

Espiral ardente

A estrela acima é 70 000 vezes menor que a da direita. Apesar disso, ela possui, concentrada em um volume igual ao da Terra, a mesma massa que a de sua parceira. Por ser muito rarefeita, a maior perde matéria gasosa, que cai sobre a menor, formando uma espiral à sua volta. Quentíssimo, o aro gasoso tem um brilho excepcional.

Volume colossal

O astro maior deste sistema é tão grande que, se o Sol estivesse no centro dele, quatro de seus planetas ficariam dentro da estrela: Mercúrio, Vênus, Terra e Marte.

Evolução paralela

Há uns 100 milhões de anos, os dois astros tinham o tamanho do Sol. Agora estão na fase final da existência, na qual as estrelas crescem e depois encolhem radicalmente. Uma delas já virou anã. A outra terá o mesmo fim.