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Edward Snowden está criando uma capa de celular à prova de espionagem

O mesmo cara que denunciou os EUA por um esquema global de vigilância está montando uma "armadura" de privacidade para o seu smartphone

Você tem um espião em casa. Ele dorme ao seu lado todos os dias. É com ele que você manda mensagens, GIFs (e até nudes). Todo mundo sabe que um smartphone funciona como um rastreador – até por isso ele é tão bom em nos fornecer direções e mapas. O problema é que, na prática, é impossível saber se os aparelhos estão enviando informações sobre você sem a sua autorização.

Quem está trabalhando para mudar isso não é ninguém menos que Edward Snowden, o cara que denunciou a NSA por… espionagem eletrônica. Ele e o hacker Andrew “bunnie” Huang estão construindo uma capinha de celular que garante a sua privacidade – e ainda te dá horas extras de bateria.

Desde que saiu dos EUA por causa das suas acusações contra a agência americana de segurança, a preocupação de Snowden com privacidade beira a paranoia – em uma coletiva de imprensa, pediu que jornalistas colocassem seus celulares em uma geladeira. Ele mesmo não tem um smartphone para evitar ter sua localização na Rússia descoberta.

Carregar um frigobar com você não é nem um pouco prático, então o americano resolveu desenvolver uma solução mais tecnológica, que pudesse proteger o usuário sem prejudicar seu uso normal do celular.

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A capinha anti-espionagem é bem discreta – ela tem a aparência de uma bateria externa e, por enquanto, o plano é que funcione como uma também. Mas sua função principal é acompanhar os sinais de rádio emitidos pelas antenas de smartphones. Se sinais erráticos, que não tem ligação com a atividade do aparelho, começam a ser enviados, a ferramente avisa imediatamente o usuário.

O dispositivo foi pensado especialmente para jornalistas que trabalham em áreas perigosas. Uma das inspirações para a invenção foi o caso da repórter americana Marie Colvin. Ela morreu na Síria em 2012 e sua família processou o governo sírio por interceptar sinais do seu celular para rastrear sua posição.

Colocar o celular em modo avião não é suficiente para garantir que o tráfico de dados pare – hackers já demonstraram que conseguem invadir um aparelho mesmo com essa função ligada. Além disso, um celular hackeado pode parecer desligado e continuar ativo. “Confiar em um telefone que pode ter sido hackeado só por estar em modo avião é como confiar que um cara bêbado que diz que consegue dirigir”, afirmam Snowden e Huang, no documento que detalha o funcionamento do dispositivo

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É aí que entra a ação da capinha. Para os fãs de detalhes técnicos, ela funciona como um mini-osciloscópio, instrumento que analisa variações eletromagnéticas. Ela consegue dar o alarme quando um telefone está transmitindo informações, mesmo que os gráficos do celular indiquem que ele está inativo.

Saber se você está sendo rastreado já é um grande avanço, mas Snowden e Huang querem acrescentar um botão de desligamento total, que desconecte automaticamente todas as fontes de energia do aparelho em caso de espionagem.

A capa se conecta ao celular através do buraco do cartão SIM – e o chip em si passa a ficar dentro da capinha. O foco dos inventores é monitorar os sinais de Wi-Fi, 3G e GPS. O microfone e a câmera, por enquanto, continuariam vulneráveis a hackers – mas a solução para isso pode ser colar pedaços de fita adesiva sobre eles, como faz Mark Zuckerberg.

Os jornalistas não são os únicos que Snowden e Huang querem proteger. Para eles, quanto mais pessoas estiverem dispostas a detectar espionagem de celulares, melhor. A ideia é que fique cada vez mais arriscado para governos vigiarem secretamente as pessoas – porque o perigo de serem pegos no flagra passa a ser bem maior.

Os inventores divulgaram um artigo detalhado da técnica para construir a capinha. A ideia é que o projeto seja open source e qualquer pessoa com experiência técnica – e que sabia soldar metais – consiga montar a estrutura em dois dias. O próximo passo da dupla é construir protótipos na China, baseados no iPhone 6, para que eles possam ser repassados a repórteres em risco – ou a qualquer um que esteja disposto a pagar um pouco mais para garantir que sua privacidade está segura.