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júpiter não é mais o mesmo

A sonda lançcada pela nave Galileu fez descobertas que mexem com o que os astrônomos sabem do planeta.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h38 - Publicado em 31 mar 1996, 22h00

Augusto Damineli Neto

Tudo durou apenas 58 minutos, até a sonda ser totalmente destroçada pelo atrito e pela pressão crescente da atmosfera de Júpiter. Nesse curto período, a nave filhote da Galileu ativou os seis instrumentos que levava a bordo e com eles mediu a composição química, a pressão, a temperatura e a densidade das camadas de nuvens. Todos os dados foram imedia-tamente transmitidos para a nave-mãe, que os reenviou à Terra. Isso aconteceu no dia 7 de dezembro do ano passado. Poucos meses depois, uma primeira análise dos dados coletados já dá uma idéia dos novos mistérios que os cientistas do JPL (abreviatura de Laboratório de Propulsão a Jato, em inglês), da Nasa, vão precisar resolver. Veja aqui as surpresas que Júpiter reserva. Entre elas, está a ausência de vapor d’água e um céu muito menos carregado do que o previsto (veja abaixo). Os astrônomos salientam: os dados da sonda são ainda preliminares. Para montar todo o quebra-cabeça, será preciso mais tempo, talvez alguns anos.

Boa visibilidade, a primeira surpresa

Frustrando as expectativas, a sonda cruzou um céu claro, livre das pesadas nuvens que se acreditava encobrir totalmente o planeta. Ela cruzou uma camada de névoa fina e nuvens bem tênues. Há duas possibilidades: a primeira é que a sonda tenha mergulhado num local atípico (veja o infográfico acima). As medidas então não seriam válidas para o planeta inteiro, mas só para o ponto de descida da sonda. A segunda possibilidade é que as condições da atmosfera de Júpiter sejam diferentes do que mostravam as evidências até agora.

Augusto Damineli Neto é doutor em Astrofísica pelo Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo

O que a sonda observou durante a queda

As descobertas que estão mudando a cara de Júpiter e podem esclarecer como os planetas se formaram.

Zona de alta turbulência

As camadas inferiores de nuvens são sacudidas por violentas correntes de ventos que sobem e descem da superfície do planeta. As rajadas horizontais também são muito mais fortes do que o estimado. Durante toda a queda, a sonda foi sacudida por vendavais de 540 quilômetros por hora. O normal seria a velocidade do vento diminuir com a profundidade, como acontece na Terra.

Magnetismo mortal

A sonda cruzou e revelou um novo cinturão magnético, 45 000 quilômetros acima da superfície de Júpiter. Dez vezes mais radioativo do que o cinturão de Van Allen, que envolve a Terra, ele é tão violento que se uma nave tripulada passasse por ali, os passageiros morreriam em minutos. Os cinturões são feitos de prótons e elétrons emitidos pelo Sol que se enroscam no campo magnético do planeta. As faixas em que eles se acumulam formam os chamados cinturões. O mais estranho é que, além de prótons e elétrons, o novo cinturão está carregado de átomos de hélio ionizados, de altíssima energia, cuja origem é desconhecida.

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Cadê a água daqui?

A aridez de Júpiter contradisse as previsões dos especialistas. Várias evidências demonstravam que a atmosfera do planeta seria composta por três camadas de nuvens. A mais alta, esbranquiçada, seria feita de amônia. A segunda, avermelhada, de hidrosulfeto de amônia. A terceira, marrom, de água. O choque do cometa Shoemaker-Levy com Júpiter, em julho de 1994, ajudou a reforçar essa idéia: o modo como as ondas do impacto se propagaram pelos gases sugeriam a presença de água. Mas, das três camadas de nuvens previstas, a sonda só identificou uma, a de hidrosulfeto de amônia. Isso força os astrônomos a repensarem toda a química da atmosfera jupiteriana.

De onde vem esse calor?

A sonda confirmou que as camadas inferiores de nuvens têm uma temperatura e uma pressão bem próxima à esperada pelos cientistas: ao fim do mergulho, a sonda enfrentou um calor de 152 graus Celsius e uma pressão 23 vezes maior que a da Terra. A surpresa veio no começo da viagem: as camadas superiores da atmosfera são muito mais quentes e densas do que o previsto. O mistério é que a luz solar não é suficiente para elevar dessa maneira a temperatura. Isso significa que deve existir alguma outra fonte de calor.

Poucos raios e trovões

Nenhum relâmpago foi detectado nas vizinhanças do local de descida da sonda. Mas, em ondas de rádio, foram captados raios a 10 000 quilômetros, até 100 vezes mais fortes que os terrestres. Segundo as observações, a freqüência de descargas em Júpiter é dez vezes menor que na Terra, mas deveria ser maior. A escassez provavelmente se deve à falta de água. As tempestades elétricas têm importante papel na formação de compostos orgânicos. Em nosso planeta, há indicações de que elas foram as responsáveis pelo aparecimento das moléculas orgânicas, tijolos da vida.

Chuvas de hélio

A abundância de hélio foi medida com extrema precisão e – surpresa – é apenas metade da existente no Sol. Muito menos que o previsto. Acontece que Júpiter deveria ter mantido toda a matéria-prima usada em sua formação, há bilhões de anos. Sua enorme gravidade é suficiente para impedir a fuga de qualquer elemento químico para o espaço. Até dos mais leves, como o hidrogênio e o hélio. (A fraca gravidade da Terra manteve apenas os elementos mais pesados que esses dois.) De acordo com os dados da sonda, o hidrogênio continua lá, e representa 90% da atmosfera. Mas uma boa parte do hélio sumiu. É possível que tenha se precipitado para o interior do planeta. A sonda registrou também a pequena quantidade de carbono e enxôfre.

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