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Kevin Warwick , o ciborgue número 1

O cientista inglês Kevin Warwick ligou seu cérebro a um computador. Agora, ele quer fazer telepatia eletrônica.

Fábio Schivartche

Ele nasceu humano – mas isso foi só um acidente do destino. No dia 22 de março de 2002, o professor universitário Kevin Warwick assumiu, enfim, a identidade com a qual sonhava desde criança: ao ligar seu sistema nervoso a um computador, transformou-se no primeiro ciborgue do mundo. Especialista em Cibernética da Universidade de Reading, na Inglaterra, ele implantou um chip no braço, pelo qual pôde receber e transmitir sinais elétricos com simples gestos dos dedos e da palma da mão. A experiência, que durou pouco mais de três meses, ainda repercute nos meios acadêmicos. Muitos esperam, ansiosos, pelos desdobramentos desse teste, que, segundo Warwick, deve levar a uma revolução no tratamento a paralíticos com lesões na espinha dorsal, fazendo com que muitos recuperem parte dos movimentos. A idéia é que, no futuro, esses sinais elétricos sejam fortes e precisos o suficiente para movimentar músculos até então paralisados.

Outros dizem que o cientista britânico é uma farsa, que seu único dom é como marqueteiro e suas experiências, fúteis e sem valor científico. O ciborgue desconsidera as críticas e, deixando a modéstia de lado, diz que está trabalhando para “mudar o mundo”. “Nós temos o poder de mudar nossa condição humana para melhor.” Em entrevista exclusiva à Super, Warwick diz que, no futuro, “os homens do século XX vão estar em zoológicos”.

Super – Como é se sentir um ciborgue?

Kevin Warwick – Fantástico! Foi maravilhoso ver a ficção científica se transformar em ciência. Mas também me senti um pouco estranho, mudar sua condição humana mexe com a cabeça.

Super – Como funciona essa prótese?

Warwick – Fui submetido a uma cirurgia de duas horas na enfermaria do hospital de Radcliffe, em Oxford (Inglaterra). Os médicos implantaram um chip, no caso um quadradinho de silicone de 3 mm, no meu braço esquerdo e 100 eletrodos, finos como um fio de cabelo, no meu nervo médio. Fios de conexão foram costurados dentro da pele pelo antebraço e ligados a um rádio transmissor/receptor de sinais elétricos. Na ponta do chip havia uma mola de cobre que produzia corrente elétrica, que era transmitida (ou recebida) por uma prancha de circuitos na outra ponta. Quando eu movia um dedo, por exemplo, um sinal eletrônico ativava os músculos dos tendões e os eletrodos interceptavam o sinal a caminho, passando a informação para o computador, que fazia a leitura.

Super – Quais resultados efetivos essa experiência trouxe?

Warwick – Em um dos testes, aplicamos um leve toque na minha pele para verificar quais receptores foram excitados e pudemos fazer uma leitura dos nervos e dos músculos envolvidos no processo. Em outros, acionando certos músculos propositadamente, vimos que é possível separar a leitura da atividade motora (dos músculos) da sensitiva (dos nervos). Convertemos os sinais análogos para digitais e gravamos no computador, tornando possível reverter a ordem e mandá-los de volta ao implante, de maneira semelhante à de um telefone, que recebe e envia ondas sonoras. Isso nos permitirá, no futuro, repetir movimentos induzidos artificialmente em pacientes portadores de deficiências.

Super – O senhor diz que essa experiência pode ajudar pessoas com lesões semelhantes à que sofreu o ator Cristopher Reeve (que interpretou o SuperHomem nos cinemas e ficou paralítico ao cair de um cavalo, em 1995).

Warwick – É a evolução natural desse experimento, a próxima fase, com implantes feitos no cérebro, em vez de no braço. Teríamos de gerar os mesmos sinais elétricos, mas comandados pelo cérebro, já que a mão dele não se move como a minha. A idéia é aproveitar o fato de muitos lesionados na espinha dorsal ainda terem parte do tecido nervoso funcionando, apesar de estar desconectado da função cerebral. A prótese cerebral funcionaria como uma ponte, ligando os sinais elétricos a reflexos musculares, que hoje ocorrem involuntariamente, de forma a controlar certos movimentos.

Super – O que falta para testar a prótese no cérebro?

Warwick – Em teoria, poderíamos iniciar os testes agora. Mas precisamos antes afinar a leitura com os computadores, o que deve levar tempo. Mas a editora que publica meus livros é a mesma responsável pela obra de Reeve (que atingiu a lista dos mais vendidos com a autobiografia Still Me) e estamos verificando a possibilidade de tê-lo como voluntário.

Super – Qual o risco da operação a que você se submeteu?

Warwick – Havia a possibilidade, ainda que remota, de o vidro que continha o chip se quebrar, o que poderia ser fatal, de ocorrer uma infecção e de eu perder as funções do nervo do braço. Mas nada disso aconteceu.

Super – O desenvolvimento dessa tecnologia vai criar super-humanos, como o senhor mesmo diz. Qual será o limite ético para o uso desses implantes?

Warwick – Em última instância, estaríamos criando gente com uma capacidade intelectual e física além do que consideramos normal nos dias de hoje. É a mesma questão ética dos clones. Cada país está fazendo suas próprias pesquisas e não há nenhum corpo internacional que controle os projetos em desenvolvimento. Mas é algo que vai afetar todo o mundo. Em breve, será preciso criar um mecanismo de controle para que sejam, em primeiro lugar, estabelecidos e, depois, respeitados os limites éticos para o uso desses implantes e de outros diferenciais tecnológicos que vamos ter.

Super – Em junho deste ano, você se conectou a um sistema ultra-sônico para navegar como um morcego por uma sala completamente escura, sem esbarrar nos objetos. Como esse projeto pode ajudar deficientes visuais?

Warwick – Adquiri o sexto sentido que os morcegos têm, usando um boné de beisebol conectado ao meu sistema nervoso. Por meio das informações recebidas por um computador, pude sentir os impulsos elétricos e, assim, desviar dos objetos à minha frente mesmo sem vê-los.

Super – Séculos antes da construção do primeiro avião, autodenominados “cientistas” vestiam-se com penas de pássaros e saltavam do alto de torres para provar que o homem podia voar. Alguns críticos comparam esses humilhantes e trágicos saltos com o trabalho que o senhor vem fazendo, alegando que os resultados obtidos em suas experiências são pífios e não levam a nenhum progresso médico ou científico. Como o senhor lida com essas críticas?

Warwick – Ignoro as críticas. É inveja de quem não faz nada, de quem quer aparecer na TV, em revistas, como eu. Só dou atenção a críticos que apresentam evidências científicas que ajudem no meu trabalho, o que foi raro até hoje. Essas pessoas não estão preparadas para a nova condição humana, em que os homens do século XX vão estar em zoológicos para serem estudados.

Super – Sua mulher Irena declarou que pretende fazer um implante semelhante ao seu. O que ela disse quando o senhor chegou em casa depois da cirurgia, já como ciborgue?

Warwick – Ela me ajudou muito, porque nos primeiros dias eu não podia nem mexer o braço. Ela só não gostou muito do fato de eu não poder tomar banho na primeira semana… (risos) porque os eletrodos não podiam ficar úmidos. Mas, falando sério… nossa idéia é fazer implantes no cérebro para que, num futuro breve, digamos de dez a 15 anos, possamos trocar mensagens de movimentos e sensações sem precisar nos comunicar verbalmente. Seria uma espécie de telepatia, que nada mais é do que a troca de impulsos elétricos contendo informações que serão decifradas com a ajuda de um computador. Eu, que morro de medo de altura, viajarei até Nova York e ficarei no alto de um prédio transmitindo a Irena sinais pela internet, em tempo real. A idéia do experimento é saber se ela vai ter as mesmas sensações que eu – como o medo, nesse caso. Simples, não?

Super – Então, isso significa que os telefones serão aposentados por essa espécie de telepatia?

Warwick – A linguagem é somente uma ferramenta, um conjunto de códigos que usamos para poder transmitir nossos pensamentos aos outros. No futuro, não vamos mais precisar desses códigos, pois vamos transmitir símbolos, conceitos e idéias sem ter que falar.

Super – E o que vai acontecer com a raça humana nesse futuro em que homens e máquinas vão coexistir cada vez mais próximos?

Warwick – Meu projeto busca justamente uma coexistência equilibrada entre o homem biológico e as máquinas superinteligentes. Mas, se as máquinas se tornarem mais importantes que vocês, humanos, nós, ciborgues, estaremos um degrau acima. E, como os humanos sempre acreditaram estar acima de qualquer outra forma de vida, é provável que os ciborgues olhem para os homens como uma espécie que ainda precisa evoluir. M