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Música silenciosa

Para o sossego dos vizinhos de músicos, chega uma nova geração de instrumentos eletrônicos que não fazem barulho.

Gabriela Aguerre

No palco, um bom violinista pode levar a platéia às lágrimas. O som doce sai do pequeno instrumento, entra pelos ouvidos e atinge o coração. No quarto de sua casa, no entanto, o mesmo instrumentista faz o vizinho chorar também – só que por motivos bem diferentes. Até parar de desafinar, os áridos ensaios ferem os mais embrutecidos ouvidos. Para acertar as notas, o músico passa horas e horas repetindo a mesma passagem. Enquanto isso, separado apenas por uma parede, o vizinho pena.

Pioneira em sons eletrônicos, a Yamaha promete acabar com essa aflição. A empresa desenvolveu uma série de instrumentos absolutamente silenciosos, que inclui até bateria. O som, no entanto, é acústico e vai direto para os ouvidos do músico, via fone de ouvido. “Quem toca um instrumento desses ouve o som real do violino, mas sem fazer barulho”, maravilha-se a violinista Martha Mooke, de Nova York. Nasce assim uma nova orquestra, a orquestra do silêncio. E a política da boa vizinhança.

O segredo do som acústico

Quando se fala em instrumentos eletrônicos, lembramos daqueles teclados que a própria Yamaha popularizou nos anos 70 para pianos elétricos e sintetizadores. O som dessa nova geração, no entanto, não tem nada de artificial. A música não parece de verdade, ela é de verdade. Isso acontece porque o instrumento é praticamente igual a um convencional. Num violino, o som começa a nascer quando se esfrega o arco nas cordas. Elas vibram e o som dessa oscilação vai para o bojo, que amplifica as notas. Sem essa ressonância, o som não sairia. O que a Yamaha fez foi eliminar o bojo e transferir a música direto para o ouvido de quem está tocando, via fone. Nos outros instrumentos da série, acontece mais ou menos a mesma coisa (veja infográficos).

É claro que não dá para ter a pretensão de substituir um Stradivarius, mas há músicos experientes que estão gostando da novidade.

“Com meu celo silencioso eu toco mais improvisação e música contemporânea, mas tudo é possível”, disse à SUPER o celista suíço Jonas Tauber, que diz adorar tanto seu celo italiano de 1758 quanto o modelo silencioso de cor vermelha. Já para o trombonista americano Phil Arnold, que já tocou com estrelas como Dizzy Gillespie, o encanto é o mesmo. “Para quem toca metais, é um milagre”, comenta.

O som que se escuta no fone é o mesmo que se ouviria se o violoncelo ou o piano fossem tocados naturalmente. Até a ruidosa bateria, que inferniza pais de adolescentes, tem sua versão sossegada. Todos vão ficar felizes. Depois de bem ensaiadinho, o músico pode chamar o vizinho do lado para ouvir – e esperar os aplausos. Ele vai adorar ter sido poupado dos ensaios.

gabriela.aguerre@abril.com.br

Algo mais

O arco do violino silencioso é igual ao do convencional. Ele é formado por crina de cavalo.

Antes de roçá-lo nas cordas, o violinista passa breu, uma espécie de resina. Assim, os fios do arco ficam unidos e conseguem produzir o som ao serem esfregados nas cordas.

Discreto, mas poderoso

Quem está de fora ouve apenas o barulho do arco nas cordas. Mas o violinista, com o fone, escuta perfeitamente.

Caixa de controle

Aqui dá para plugar fones de ouvido, caixas acústicas ou gravadores.

Efeitos especiais

Comandos reproduzem a sensação de estar tocando com a acústica de um quarto, um teatro pequeno ou um grande.

Tudo igual

As cordas e a ponte que as seguram são convencionais.

Linha falsa

Uma peça de plástico vazada imita o contorno do violino.

Bateria de algodão

Em vez de tampas vibrando, ouve-se um suave bater de baquetas sobre placas de borracha.

Cérebro musical

Desta caixa, que controla o volume e o timbre, sai o fone de ouvido.

Células sensíveis

Por baixo da tampa de borracha, há sensores que percebem cada toque.

Trompa na surdina

Colocado nos metais, o acessório amplifica o som apenas dentro dos ouvidos.

Melodia pífia

Do lado de fora, o que se escuta parece uma cornetinha.

Abafa, mas amplia

A surdina não deixa o som sair.

Cadê o som?

Como um microfone ao contrário, o cone manda o som para um fio.

Cara de gafanhoto

Mesmo sem a caixa acústica, o violoncelo não perdeu elegância e ganhou o dom do silêncio.

Firmeza total

Um celista segura o instrumento com a parte interna das coxas. Estes suportes servem para isso.

Reduzido ao mínimo

Os suportes laterais podem ser recolhidos, como um tripé, para o instrumento ser guardado.

Quase igual

Esta peça imita a parte de cima da caixa do celo. Serve para firmar uma das mãos.

Cada vez mais fino

Criado há mais de três séculos, o violoncelo nunca tinha passado por uma dieta tão drástica

Quase humano

De pé, o violoncelo bate no ombro de um adulto.

Meio mutilado

A primeira versão silenciosa do celo, de 1998, não tem caixa acústica.

Mudança radical

Agora, o emagrecimento foi total, mas o som se mantém.

Teclas caladas

Graças a sensores de raios infravermelhos, o piano acústico se transforma em um instrumento fantasma.

Toque interrompido

O martelo não chega a tocar na corda, mas o som é gerado mesmo assim.

Dublê de pianista

Um sensor percebe como o autor tocou aquela nota.

Dedos invisíveis

O sistema de sensores permite que o piano toque sozinho.