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Nasce o robô sapiens

É o robô que vai estar presente na vida de todos os dias no começo do século XXI: ele vê, ouve, sente e, mais do que isso, toma decisões por conta própria. Vai substituir o homem nos serviços que afetam a saúde ou oferecem risco de vida. E só não fará o que a mente humana for incapaz de imaginar

Lúcia Helena de Oliveira e Vicente Adorno

O tecladista concentra-se na partitura à frente. Os dedos ágeis percorrem as teclas do órgão eletrônico, enquanto os pés marcam o acompanhamento do pedal. É um virtuose. Em seus concertos, ouvem-se desde as mais complexas composições clássicas até os sucessos dos Beatles. Embora as partituras sejam idênticas às lidas por qualquer pianista, os olhos do tecladista são, na verdade, uma câmara de televisão que emite a imagem da partitura ao seu cérebro – que é um computador. Esse robô japonês de aspecto humanóide chamado Wasubot lê a nota musical, reconhece seu símbolo e sabe exatamente como deverá agir, ou seja, decide-se por uma tecla e u movimento especifico dos dedos.

Wasubot faz parte da mais recente geração de robôs – máquinas revolucionarias capazes de ver, ouviu, sentir pelo tato e, principalmente tomar decisões a partir do que puderem ver, ouvir e sentir, graças aos sensores de que são dotados equivalentes aos nossos órgãos dos sentidos.


Os novos robôs sabem como enfrentar imprevistos.

A primeira geração de robôs, surgida em 1962, foi a dos chamados autômatos: robôs eletromecânicos , que só conseguiam fazer movimento simples, como sobrar o braço. A segunda geração, nascida cerca de dez anos depois, foi a dos robôs equipados com comandos eletrônicos, da qual existem 300 mil espécimes no mundo inteiro (e cerca de de 200 no Brasil), que representam a maioria dos robôs industriais atualmente em uso. Eles possuem movimentos bem mais flexíveis e podem ser programados para uma série de tarefas, como pintar automóveis, soldar, parafusar peças.

Mas esses robôs, embora muito aperfeiçoados em comparação com os que os precederam, são incapazes de fazer seja lá o que for por conta própria; apenas cumprem as ordens contidas em sua programação. Por irem muito além, os novos robôs de terceira geração são chamados inteligentes. Afinal, eles sabem lidar com os obstáculos do ambiente em que se encontram, percebem mudanças de situação, avaliam objetos estranhos e escolhem modos de agir diante de imprevistos. Capazes de tanta coisa, não é à toa que seu aparecimento representa um salto na robótica. Pois, no futuro, essas máquinas só não farão aquilo que a mente humana for incapaz de imaginar.

Já na próxima década, haverá robôs inteligentes desempenhando as mais diversas atividades. Existirão robôs enfermeiros, babás e até engenheiros. Robôs construirão casas, abrirão estradas. E, no começo do século XXI, eles deverão substituir o homem em todo tipo de trabalho que contenha risco de vida ou possa fazer mal à saúde. Por exemplo, desativarão bombas, farão experiências com substâncias tóxicas, pulverizarão inseticidas nas plantações. Naturalmente, à medida que os robôs forem sendo aperfeiçoados, novos empregos irão surgindo para eles.

O que há de fascinante nisso tudo, além da perspectiva de uma vida mais fácil, é como esses robôs, conseguem lidar com situações novas- um tema largamente explorado no recente filme norte-americano Short Circuit, estrelado pelo robô Number Five. Isso é possível graças à inteligência artificial: o cérebro computador do robô é alimentado por programas que buscam reproduzir mecanismos do raciocínio humano, tornando-o capaz de comparar aquilo que desconhece com experiências passadas, formar conceitos diferentes e planejar ações futuras. Com essa inteligência, os novos robôs podem atuar até na medicina. Eles já são usados em hospitais norte-americanos auxiliando neurocirurgiões. Seus braços mecânicos localizam tumores cerebrais com precisão de meio milésimo de polegada e serram a caixa craniana na altura exata, diminuindo os riscos na cirurgia.

Os sensores, que transmitem informações sobre o ambiente ao computador do robô, são equipamentos eletrônicos muito pequenos. O Massachussettes Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, está desenvolvendo uma pele artificial para mãos de rovos, com 64 sensores por centímetro quadrado capazes de medir desde a temperaturas até a densidade de objetos. O MIT, junto com a Universidade de Utah, construiu a mais avançada mão de robô, com dezesseis graus de liberdade. Isto significa que ela pode mover-se duas vezes mais que um robô comum. A mão humana não vai muito longe – possui vinte graus de liberdade. A mão do robô do MIT é considerada tão excepcional, que o dr. David Siegel, responsável pelo projeto, afirma: “Trata-se da primeira mão igual à do homem”.

A flexibilidade se relaciona à precisão de movimentos. Por isso a agência espacial norte-americana NASA tem pesquisado ligas metálicas flexíveis para as articulações dos robôs. Afinal, eles povoarão as estações espaciais a serem instaladas nas próximas décadas e devem ter movimentos precisos para manipular os materiais que serão pesquisados fora da atmosfera, além de controlar os comandos das estações e até de consertar equipamentos. Os robôs que irão para o espaço serão, com certeza, similares ao ROSA (Remoted Operated Service Arm, em inglês, ou Braço Funcional com Controle Remoto), que a NASA construiu para o uso em operações com materiais nucleares, em que há risco de explosão ou radiação elevada. O ROSA foi experimentalmente instalado em estações de pesquisas nucleares dos Estados Unidos. Graças a ele, os técnicos trabalham a uma distancia segura, enxergando o ambiente por meio das câmaras de vídeo espalhadas pelo corpo do robô.

Na França, eles colhem maçãs; nos EUA, laranjas

A tecnologia caminha no sentido de libertar o robô do controle humano – e essa é outra característica revolucionaria das máquinas de última geração. Nos Estados Unidos e na Europa, robôs colhem frutas no pé sem precisar que alguém indique qual está madura e qual não. Na região de Montpellier, na França, o robô Magali, do Cemagref (Centre National Du Machinisme Agricole), colhe maçãs. Nos Estados Unidos, um robô pela Universidade da Flórida colhe laranjas. Ele consegue colher quinze frutas por minuto – menos que o homem capaz de apanhar vinte no mesmo tempo. Em compensação, o robô trabalha faça chuva ou faça sol, de dia ou sob luz artificial. Por isso vale o preço de 100 mil dólares (ou 5 milhões de cruzados, ao câmbio de julho).

Os robôs que colhem frutas são munidos de visão estereoscópica, ou seja, podem desdobrar a imagem captada pelo vídeo: conforme o número de imagens sobrepostas, calculam a distância dos troncos e galhos. Para reconhecer quais frutas estão maduras, valem-se de filtros de luz instalados nas câmaras de vídeo que produzem contrastes na imagem em preto e branco. Uma lente vermelha, por exemplo, transforma as laranjas maduras em esferas de um branco reluzente e torna cinzentas as frutas verdes. Os filtros do Magali são ainda mais sofisticados, para compensar o efeito das cascas brilhantes das maçãs que dificulta a ação das lentes.

Ensinar um robô a reconhecer aquilo que vê é um dos desafios mais complicados da robótica. Mais fácil é ensiná-lo a segurar um objeto delicado, como um ovo, sem danificá-lo. “Hoje, a construção de sensores táteis até que é simples”, informa o dr. Susumu Tachi, diretor de Robótica do Laboratório de Engenharia Mecânica (LEM(, do Ministério da Indústria e Comércio do Japão, ouvido por SUPERINTERESSANTE em Tóquio. “Também já dominamos a tecnologia dos sensores que determina a força a ser aplicada nos movimentos”, orgulha-se Tachi.

Isso permite ao robô não apenas segurar o ovo mais ainda quebrá-lo a hora certa, sobre a frigideira. O dr. Tachi e sua equipe trabalham atualmente em projetos que consideram mais complexos. É o caso do chamado cão-robô, destinado a ser guia de cegos. Seu computador recebe um mapa, com todos os detalhes do ambiente que percorrerá. Então, programa-se um ponto de partida e diversos trajetos a serem cobertos – à escola, à farmácia etc.


Os neuro-robôs farão tudo o que seu dono mandar

Escolhido um caminho, o cão-robô encontrará a direção no mapa e se põe em marcha, agindo por etapas em obediência a ordens como “andar dez metros à frente, virar à esquerda, mais cinco metros…”. Como as ruas nunca estão vazias e cada transeunte pode ser um obstáculo em potencial, o cão-robô emite ondas de ultrassom, que, ao serem refletidas, informam a distância que ele se encontra de pessoas e animais. E, como ele conhece a largura das calçadas, consegue desviar-se dos obstáculos assim que os percebe. Se houver uma barreira intransponível, como obras na rua, o cão-robô escolhera um caminho alternativo.

O fascínio que os robôs inteligentes exercem sobre as pessoas em toda parte pode ser medido pelo sucesso de público de Jorel, o robô humanóide que se faz às vezes de recepcionista da Mostra do Museu de Ciência de Boston que está percorrendo os Estados Unidos. Jorel, que por sinal nem sequer é um robô de terceira geração, encanta os visitantes da mostra com suas falas pré-gravadas, do tipo: “Vocês humanos são maravilhosos”. Daqui a alguns anos, Jorel poderá ser de verdade o que hoje apenas aparenta: um robô capaz de pensar. De fato, os cientistas já falam em neurocomputadores com sistemas que reproduzem o funcionamento dos neurônios (células do cérebro). É o primeiro passo para neuro-robô, que, em vez de se limitar a uma função para a qual foi treinado, poderá aprender sozinho a fazer qualquer coisa. Serão máquinas dotadas de criatividade e intuição, antecipa Robert Hecht-Nielsen, presidente da NHC, fabricante norte-americano de neurocomputadores. “Daqui a dez anos, produziremos robôs que farão tudo o que seu dono mandar.”