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Paquistão: o instável aliado da China

Hoje, o mais firme aliado do Paquistão é a China. Quanto ao Ocidente, a situação já está há anos na fase “é complicado”.

Por Fábio Marton - Atualizado em 3 jan 2020, 16h23 - Publicado em 5 ago 2019, 18h52

A primeira coisa a se dizer sobre as Forças Armadas do Paquistão é que sua história tem mais vitórias contra representantes eleitos do que contra sua arquirrival, a Índia. Foram quatro Guerras Indo-Pasquistanesas, em 1947, 1965, 1971 e 1999, mais um conflito beirando à guerra neste instante. No máximo, empataram. Na de 1971, os paquistaneses perderam um enorme território, Bangladesh, então chamado Paquistão Oriental.

Golpes, em compensação, foram sete, três dos quais rendendo ditaduras militares, entre 1958-1971, 1977-1988 e 1999-2008. O Paquistão surgiu na independência da Índia como um Estado para os islâmicos indianos, por meio da acachapante vitória da Liga Islâmica para o parlamento local, decidindo por se separar na Índia. Em sua Constituição de 1956, tornou-se o primeiro país do mundo a se declarar uma república islâmica.

Ainda que a Constituição do Paquistão declare que as leis não podem discordar da lei islâmica, não existe nada como o Supremo Líder do Irã, um clérigo impondo uma visão teocrática. O país acaba passando por ondas de islamização e secularização e foi o primeiro islâmico a ter uma líder mulher, com a ascensão de Benazir Buttho ao cargo de primeira-ministra em 1988 (Benazir governaria mais uma vez e seria assassinada em 2007). O Paquistão também admite mulheres nas Forças Armadas desde 1947 – antes que a maioria dos países ocidentais.

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A maior força militar do mundo islâmico tem, além do Exército, Marinha e Aeronáutica, um destacamento grande de fuzileiros navais. Também há 420 mil paramilitares, em grupos como a Força Antinarcóticos, Guarda Nacional e os rangers, que atuam na fronteira com a Índia.

E, é claro, tem armas nucleares. Em 28 maio de 1998, 15 dias após a Índia fazer um teste com cinco ogivas nucleares, o Paquistão revelou seu potencial de forma dramática, explodindo também cinco. O alcance de seus mísseis é modesto: 2.750 km. Mas não é muito problema quando seu principal inimigo está logo ali na fronteira.

Fora as rusgas com a Índia, o grande problema militar do Paquistão atende por Linha Durand – a fronteira com o Afeganistão. É basicamente uma terra de ninguém, onde nenhum dos dois governos consegue manter o controle contra grupos insurgentes. Em maio passado, o Estado Islâmico declarou ter o controle de um território no Paquistão, no Baluquistão, a província mais pobre e caótica de todas.

Lá também ocorrem incidentes como em 26 de novembro de 2011, quando uma pequena esquadrilha de helicópteros e aviões da Otan atacou um posto do Exército paquistanês, matando 28 pessoas. O ataque foi a pedido de militares afegãos, que sofreram tiros da base, e concluíram que seriam insurgentes que tomaram a posição abandonada. Nem é preciso dizer, isso criou sérias tensões.

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Hoje, o mais firme aliado do Paquistão é a China, formando um bloco contra a Índia. Quanto ao Ocidente, a situação já está há anos na fase “é complicado”.
Na década passada, o país era frequentemente acusado de dar apoio a terroristas islâmicos na Cachemira indiana e no Afeganistão – no período democrático, desde 2008, as acusações diminuíram, mas, em 2018, Trump azedou a relação muito mais ao acusar o país de “não fazer nada” contra terroristas e cancelar o envio de US$ 300 mi em apoio. Também não agrada nada ao eleitor paquistanês a aparente aproximação de Trump com a Índia.

E nisso temos desde fevereiro um imbróglio não resolvido entre duas potências nucleares.

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