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O retrato do Universo jovem

Imagem das galáxias mais antigas já vistas, obtida pelo telescópio Hubble, ajudará a desvendar a evolução do Cosmo.

João Steiner

Um dos maiores feitos do Telescópio Espacial Hubble foi ter observado, em 1995, o chamado campo profundo do céu. Significa que ele obteve uma imagem das galáxias mais distantes que podem ser alcançadas pela tecnologia de instrumentos disponível atualmente. Para realizar esse objetivo, o Hubble fotografou uma mesma área do céu durante dez dias ininterruptos, captando a luz de aproximadamente 2 500 galáxias – todas elas reunidas numa única chapa. Algumas situam-se tão longe que sua luz demorou quase 12 bilhões de anos para chegar à Terra e, quando começou sua viagem, o Universo tinha pouco mais de 1 bilhão de anos de existência.

Com isso, as 2 500 galáxias têm muita história para contar. Elas podem fornecer pistas sobre como o Cosmo evoluiu ao longo de bilhões de anos. Também é possível encontrar sinais das transformações sofridas pelas próprias galáxias. É claro que não dá para fazer uma reconstituição completa a partir apenas de uma imagem. Mas as informações que ela contém certamente vão orientar as nossas idéias sobre o desenvolvimento das galáxias.

Um aspecto interessante dessa pesquisa do Hubble é que ela poderá ser comparada com observações de outros instrumentos, instalados aqui mesmo na superfície da Terra. Quando essa comparação for feita, nos próximos anos, ela deve revelar detalhes interessantes sobre a evolução das galáxias e do Cosmo.

Já é possível verificar que o Universo, no início de sua existência, era muito rico em uma categoria de galáxias caracterizadas por terem a forma de um redemoinho, chamadas espirais. Pela imagem do Hubble vê-se que elas eram mais numerosas no passado do que atualmente. Já as galáxias com forma esférica, batizadas de elípticas, eram menos comuns no passado do que no presente. Desse fato tira-se uma conclusão simples, a de que as galáxias, com o tempo, passaram por uma metamorfose. Aos poucos, algumas espirais devem ter assumido o aspecto arredondado, típico das elípticas. As causas dessa possível transformação não estão ainda muito claras, mas podem estar relacionadas a colisões entre esses grandes objetos celestes.

A primeira imagem de campo profundo foi obtida no céu do hemisfério norte. Mas, em novembro, o telescópio espacial fez um novo retrato do Universo jovem, agora visto do hemisfério sul. Nesse caso, a área selecionada inclui um astro da categoria dos quasares, que se imagina serem núcleos ultrabrilhantes de galáxias nos primeiros estágios de desenvolvimento. Como o quasar já havia sido bem estudado e se sabe que está a 10 bilhões de anos-luz (1 ano-luz mede 9,5 trilhões de quilômetros), sua presença na foto ajudará a fazer uma reconstituição mais precisa da história cósmica.

João Steiner – Professor de Astrofísica do Instituto Astronômico e Geofísico da USP