GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.

Projete imagens solares com instrumentos simples e eficientes

É tão fácil projetar imagens do Sol, que as encontramos com freqüência na natureza – produzidas espontaneamente, como os círculos luminosos na sombra das árvores. São imagens tão genuínas quanto as de uma luneta, e a única diferença é o grau de perfeição. Ou seja, o principal instrumento óptico para se produzir uma imagem é um orifício. A lente só melhora sua definição. Em algumas situações, as imagens espontâneas têm elevada definição, como a que observei na cabana de um pescador. Estávamos conversando, quando notei um círculo a meio caminho entre nossas redes. Para ele, era um simples raio de luz que vazava através de um buraco do teto de brasilite. Para mim, era uma bela imagem do Sol: enorme, devido à distância do teto ao chão, e muito clara, pois contrastava com o ambiente interno, obscurecido pela pouca refletividade das paredes de barro.

Pedi a um de seus meninos uma folha de caderno de desenho e colhi a imagem para realçá-la ainda mais. Com grande surpresa vi uma pintinha cinza escuro dentro do círculo de luz: uma mancha solar! Mexi o papel em vaivém para provar que não se tratava de uma sujeira grudada na folha. Meu amigo, que achava aquilo uma história de pescador da cidade, passou a dizer que a mancha vinha de alguma sujeira engastada no furo do telhado. Mas colhemos as imagens em outros buracos, e todos eles mostravam a mesma mancha, na mesma posição. Até ele teve de concordar que era demais para ser coincidência. A partir da proporção entre o tamanho da mancha e o do disco do Sol, deduzi que a mancha era várias vezes maior do que a Terra.

A meninada se deslumbrou. Imagine, aquela pintinha menor que um mosquito ser maior do que a Terra. Meu amigo não quis me contradizer na frente das crianças, mas não levou a história muito a sério. Apostei uma cerveja que até o pôr-do-Sol eu daria uma prova irrefutável de que tinha razão e, por sorte, o céu estava a meu favor. Na praia, o Sol brilhava maravilhosamente avermelhado como num filme japonês. Primeiro um, depois outro e no final todo mundo acabou por enxergar claramente a mancha solar. Ganhei a aposta, embora meu amigo continuasse a ver na mancha apenas uma “coisinha”.

A casa do pescador tinha funcionado, na verdade, como uma boa câmara escura. Você pode fazer uma câmara escura com um objeto muito simples: uma caixa de papelão. Escolha uma caixa grande e tire a tampa. Faça o furinho com a ponta de uma caneta esferográfica em um dos lados da caixa, e cole o papel branco no lado oposto, na face interna. Deixe o fundo da caixa voltado para o céu para escurecer um pouco seu interior. Erga a caixa para que você possa olhar para dentro dela, estando a parte aberta voltada para o chão. Coloque a caixa numa posição tal que a luz do Sol entre pelo furinho e projete a imagem sobre o papel branco que você colou.

O tamanho exato do furo depende do comprimento da caixa. Para achar qual é o mais adequado, em vez de um, faça vários furos de diferentes tamanhos na caixa e cubra-os com pedaços de fita isolante. Abra um de cada vez e escolha o que der melhor resultado. Uma outra versão deste tipo de câmara consiste em não tirar a tampa e, em vez de colar um papel branco no lado oposto ao do furo, recorte o papelão e cole papel vegetal no buraco. Note que se você deixar todos os furos abertos ao mesmo tempo, verá vários círculos luminosos se interceptando, como o que se vê à sombra das árvores.

Uma versão muito simples dessa técnica permite explorar aspectos interessantes das imagens. Entre numa sala escura, munido de uma vela acesa e uma folha de papel-alumínio com um furinho de agulha no centro. Coloque o papel-alumínio na frente da vela, fazendo sombra na parede. Movimente-o até conseguir ver a imagem da vela. O mais notável é que a imagem estará invertida – e seu brilho diminui quando se afasta o furo da parede: ele cai a um quarto da intensidade original cada vez que se dobra a distância.

Uma outra receita de câmara escura, apesar de conhecida apenas em círculos fechados, não é difícil de confeccionar. Imagine que você está conversando com os “gatos e gatas” de sua turma. Peça a uma das garotas um objeto comum em bolsa de mulher: um espelhinho. Pegue uma folha de papel que pode até estar amarrotada e faça um furo no meio dela, da grossura do dedo mindinho. Cubra o espelhinho com a folha, fique de frente para o Sol e procure uma parede ou muro que fique na sombra. Peça para todo mundo ficar atrás de você para evitar riscos para a visão. Mexa o espelhinho até conseguir projetar o feixe de luz refletida sobre a parede. Pronto, você terá projetada uma bela imagem do Sol! A primeira vez que tentei, não tive sucesso fácil: uma aluna exigiu provas. Então, colamos uma folha de papel branco na parede e eu projetei o Sol sobre ela, segurando o espelho com firmeza, respirando devagar para que a imagem não tremesse. Pedi que fossem analisar de perto, tomando o cuidado de cobrir os olhos com as mãos e de abaixar a cabeça sempre que fossem se voltar para trás.

– Estão vendo que perto das bordas a imagem fica mais escura? Esse é o famoso ·obscurecimento de bordo·.

A aluna que tinha exigido provas se deu por satisfeita e não era para menos: ela sabia até que o obscurecimento de bordo não existe só no Sol, mas em qualquer estrela. Esse efeito se deve ao fato de nossa visão penetrar mais fundo quando olhamos para o centro do Sol, do que quando olhamos para as suas bordas. Também tem a ver com o fato de o brilho de uma estrela diminuir de dentro para fora. Mas, a essa altura, outros alunos alegaram que a prova não convencia, pois a imagem não estava nítida. Pedi que eles entrassem na classe ao lado, que estava vazia, apagassem a luz e deixassem só uma fresta da janela aberta, isso aumentaria o contraste, permitindo uma visão melhor da imagem. Melhorou, mas sem grandes exageros. Sugeri que procurassem alguma mancha solar mas, por azar, estávamos em 1992, quase no mínimo do ciclo de 11 anos de atividade solar. Apesar de ser um expert nesta técnica, ter testado cuidadosamente vários tamanhos de furos no papel, para diversas distâncias na parede, eu não conseguia provar de modo simples que aquilo era uma verdadeira imagem do Sol. Para comprovar a boa qualidade da imagem, cortei o buraco do papel de forma quadrada em vez de redonda. A imagem continuava a circular, causando admiração, mas não convencimento.

Continuei sob o calor do Sol, vasculhando uma prova mais palpável, quando, para a minha salvação, passou uma nuvem na frente do Sol. Sobre o disco luminoso projetado na parede, desfilavam as manchas escuras das nuvens. Os gritos de admiração que vinham de dentro da sala indicavam que a prova tinha sido convincente. Imaginei que, afinal, não tinha perdido o meu tempo descrevendo técnicas de baixo custo para gerar imagens didáticas do Sol. Apesar da dificuldade para convencer os mais céticos, o esforço tinha sido recompensado. Pois tive a certeza naquele momento que, se, em vez das nuvens, tivesse sido a lua a passar em frente ao Sol, mesmo os alunos mais exigentes teriam irrompido em aplauso.