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Tá com pressa? Passa por cima!

Começa a ser testado nos Estados Unidos o Skycar, carro voador que pretende substituir o automóvel como veículo de passeio. E mudar o seu dia-a-dia.

Carlos Dias e Gabriela Aguerre, com Ivani Vassoler, de Washington

Desde 2046, quando a Nigéria conquistou o tetracampeonato mundial de futebol e se construíram no Maracanã mais quatro estacionamentos verticais – os vertiportos –, dia de clássico nacional como Juventus x Bangu tem sido um inferno. Os torcedores de São Paulo saem todos do trabalho 1 hora antes da partida, chegam ao Rio quando o jogo já vai começar e ainda querem estacionar no andar de acesso ao estádio.

O cenário não tem nada de bizarro. É perfeitamente factível, daqui a uns cinqüenta anos, se a invenção do engenheiro americano Paul Moller decolar. Ele deve fazer este mês o primeiro teste do Skycar, o equivalente aéreo de um automóvel de passeio: leva quatro pessoas, pode ser guardado numa garagem, é guiado pelo dono e faz 8 quilômetros com 1 litro de gasolina comum.

As semelhanças com um carro param aí. O protótipo foi feito para decolar e aterrissar na vertical, como um helicóptero, e voar como um jato, subindo a 8 000 metros de altitude e voando a 600 quilômetros por hora. “O Skycar um dia vai levá-lo da sua casa para onde você quiser quando você bem entender”, disse Moller à SUPER. Pegue uma carona e imagine nas próximas páginas como isso vai ser.

Com a cabeça nas nuvens e os pés no chão

Se você acha que carro voador parece história de ficção científica, é compreensível. Afinal, houve uma infinidade de tentativas do tipo neste século, protagonizadas por cientistas com perfil de Professor Pardal. Mas esse não é o caso de Paul Moller. “Ele não é um mecânico de fundo de quintal, mas um dos melhores engenheiros americanos”, declarou à SUPER Dennis Bushnell, cientista-chefe do laboratório de Langley, o principal centro de pesquisas da Nasa.

Ele não é o único entusiasmado com o projeto. “É o melhor que já vi em toda minha vida”, disse à SUPER o engenheiro de sistemas Henry Lahore, executivo da Boeing. Os dois acompanham há anos o trabalho de Moller e concordam: o invento tem uma solução científica plausível para todos os obstáculos técnicos que impediam a sua viabilidade, inclusive segurança. O mais crucial deles era a necessidade de ter um profissional no comando. “A revolução da tecnologia está reduzindo drasticamente os requisitos de pilotagem”, diz Bushnell. “Daqui a algum tempo, o vôo poderá ser totalmente automático.”

A tecnologia para isso já existe. Falta aperfeiçoá-la. A idéia é colocar em órbita um conjunto de satélites que cubra toda a superfície do planeta. Cada Skycar enviará um sinal constante para o espaço. O satélite recebe a informação e a devolve à aeronave, indicando posição, altitude, velocidade e rota adequadas. O computador de bordo apenas obedece. O dono só precisará ligá-lo e dizer para onde quer ir.

A criação de Moller supera outros empecilhos técnicos, como peso, tamanho, e combustível. Com pouco mais de 5 metros de comprimento e 3 de largura, ele é prático porque cabe em qualquer lugar. Um avião Cessna, por exemplo, tem 12 metros de asa a asa. O Skycar pesa 1 tonelada – menos do que um Gol – e tem dois tanques de combustível em que cabem 227 litros de gasolina comum. O protótipo custou 1 milhão de dólares. Moller, porém, acredita que a produção em escala derrubaria o preço para 60 000 dólares.

Os obstáculos no caminho do Skycar

Se você agora mudou de idéia e já está imaginando um desses, da sua cor preferida, reluzindo na sua garagem, contenha-se. O teste que deve ser realizado este mês é o primeiro de uma série infindável de demonstrações exigidas pelo governo americano antes de autorizar o vôo de qualquer novo tipo de aparelho aéreo. “O Skycar parece ser uma interessante idéia, mas o projeto expõe uma série de questões para as quais ainda não há resposta”, disse à SUPER Bill Shumann, porta-voz da Federal Aviation Administration (FAA), o órgão do governo americano responsável por toda a aviação no país. “Todos os testes necessários constituem um longo processo, que levará anos para ser concluído.”

Se o carro voador fosse autorizado a decolar amanhã, seria necessário ter brevê para pilotá-lo. O computador que tornaria o vôo automático ainda está sendo desenvolvido para as Forças Armadas dos Estados Unidos. Vários anos passarão até chegar à aviação civil. Outro requisito básico é o controle de tráfego aéreo por satélites, que pressupõe uma rede de centrais em órbita conectada aos computadores de todos os carros voadores. “A engenharia de trânsito ainda é feita com radares terrestres”, explica Shumann. “Mas o governo americano já está analisando esses novos sistemas.”

Um novo mundo

Projetos como o Skycar de Paul Moller não aparecem todos os dias. Mas muita gente tentou chegar perto. “O caso mais comum é de inventores que tentaram combinar as facilidades do vôo à comodidade de um carro”, conta Paulo Soviero, professor de aerodinâmica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, interior de São Paulo. Os resultados não foram muito animadores. O veículo Arfíbio (mistura das palavras ar e anfíbio), do americano Robert Fulton Jr., em 1945, foi o primeiro desses a aparecer. Tinha cara de aeroplano, só que podia andar na terra também. Em terra, não passava de 90 quilômetros por hora. A 300 metros de altitude, praticamente dobrava a velocidade. Seu principal problema era o trabalhão que dava para recolher as asas e a cauda.

Embora imperfeito, o Arfíbio inspirou o engenheiro americano Molt Taylor a construir no ano seguinte o Aerocar. Era literalmente um carro com asas, só que mais frágil e mais apertado. No ar, tinha um desempenho pior que o de um monomotor. “Sair voando e levar junto suspensão e caixa de câmbio não é algo muito inteligente”, comenta Soviero. Pesava muito. Aprovado pela FAA, vendeu apenas cinco unidades.

Quase cinqüenta anos depois, o Skycar faz comer poeira os demais inventos que apareceram. “Ele é tecnicamente viável”, disse à SUPER Nicola Getschko, professor de Mecânica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. “Mas isso não basta. Será preciso uma infra-estrutura até agora não imaginada.” Segundo ele, se o projeto de Moller der certo, o mundo mudará. Vai mudar tanto que os filhos dos seus filhos vão arregalar os olhos quando você contar que passava horas e horas preso no trânsito. E o pior: no chão.

Solte o cinto, o piloto sumiu

Controlado por computador, o Skycar pousa e decola na vertical.

1. Como um beija-flor

Paul Moller inventou um sistema de decolagem e pouso verticais baseado em defletores, “persianas” instaladas dentro das turbinas. Quando elas se fecham, o ar produzido pelas turbinas é empurrado em direção ao solo para fazer o carro levantar vôo.

2. Transição no ar

Sempre controlados por computador, os defletores vão se abrindo à medida que o veículo sobe. Dessa forma, parte do vento impulsiona o veículo para a frente e outra parte o faz subir. Na altitude desejada, o jato de ar é impulsionado totalmente para trás para aumentar a velocidade.

3. Equilíbrio sem asas

A 200 quilômetros por hora, as pequenas asas traseiras respondem por 28% da sustentação no ar. O restante é gerado pela força dos motores (10%), pelo fluxo de vento que passa sobre as turbinas (46%) e pela fuselagem do aparelho (16%)

4. Direita, volver

Sem as longas asas de um avião comum, o Skycar manobra e faz curvas no ar acelerando mais de um lado. Como num barco a remo, mais força do lado esquerdo faz o aparelho virar à direita.

5. Pouso suave

Para descer, os motores diminuem a velocidade e os defletores se fecham. O ar jogado para baixo forma um colchão de ar para a aterrissagem. No solo, o Skycar deixa a desejar. Com três rodas e sem suspensão, faz apenas trajetos curtos, de até 30 quilômetros, a baixa velocidade.

Pequeno notável

O carro voador tem oito motores como o que você vê ao lado. Cada uma dessas maravilhas, embora pese apenas 34 quilos, tem potência de 90 HP, praticamente a mesma que um Gol 1.6. Mas com cerca de 25% do seu peso.

Os passos do carro voador

A trajetória do criador e da criatura ao longo de 35 anos.

O primeiro automóvel feito no Brasil, o fusca, começou a rodar em 1960. Naquele ano, Paul Moller já estava desenhando o seu veículo voador. Tomou tempo. Professor de Engenharia Mecânica e Aeronáutica da Universidade da Califórnia de 1963 a 1975, ele sempre conciliou a profissão com os delírios criativos. Hoje, aos 62 anos, é um empresário bem-sucedido. Sua empresa, a Moller International, tem contratos com a Força Aérea dos Estados Unidos e a Nasa. Seu principal produto é o Aerobot, um pequeno robô que voa sozinho. Ele é usado para localizar vítimas de acidente em áreas de difícil acesso para equipes de resgate.

É desse negócio que saiu boa parte da dinheirama gasta ao longo de mais de trinta anos para desenvolver o Skycar. “Foram investidos cerca de 100 milhões até hoje”, conta. Segundo ele, uma parte substancial do projeto está sendo financiada por vários parceiros, entre eles a indústria eletrônica sul-coreana Samsung.

1964 – Fundo de quintal

O primeiro protótipo em tamanho real foi construído na garagem de Moller

1966 – O primeiro vôo

O XM-2 voou com um passageiro. A turbina era um anel ao redor da cabine

1974 – Para dois

O XM-4 comportava dois passageiros. Tinha oito motores de 20 HP

1989 – Viabilidade

O M200X fez 150 testes oficiais, comprovando o sistema de decolagem vertical

1999 – Salto tecnológico

Batizado de M400, o Skycar incorpora oito motores leves e pequenos. Segundo Moller, eles poluem dez vezes menos que um automóvel. Se todos falharem ao mesmo tempo, o veículo dispõe de um conjunto de pára-quedas os números da máquina

Comprimento: 5 metros

Largura: 3 metros

Peso: 1 tonelada

Velocidade máxima: 600 km/h

Altitude máxima: 8 000 metros

O futuro, segundo Moller

Como a popularização de veículos voadores transformaria o mundo.

Estacionamento

Moller imagina cidades repletas de vertiportos, estacionamentos verticais, onde o veículo poderia ser abastecido e até consertado. Ele pousaria como helicóptero, desceria pela rampa e pararia numa vaga.

Comodidade

“O mundo do homem tem o tamanho do quanto ele pode viajar num dia”, diz Moller. Se o Skycar se popularizar, será normal trabalhar na capital e morar na praia, a 300 quilômetros do escritório. Tempo de viagem: meia hora.

Estradas no céu

Será possível ter filas de Skycars a 300 quilômetros por hora, no céu. Isso sem riscos de acidentes, mesmo à noite ou com neblina, graças ao controle de tráfego aéreo por satélites.

Pronto-socorro

Alguém que tenha um infarto, por exemplo, pode ser socorrido com ambulâncias voadoras. Hoje, um hospital a 100 quilômetros de distância é longe. Com o Skycar, o tempo de viagem é de 10 minutos.

Via satélite

O controle do fluxo de carros voadores deverá ser feito com o auxílio de satélites. O computador do veículo envia um sinal para centrais em órbita, que administram todo o trânsito. O sinal é analisado e devolvido, estipulando velocidade, rota e altitude.

Tempo livre

Trabalhar em São Paulo, ver um jogo de futebol no Rio e depois voltar para casa em Parati pode se tornar rotina. Tempo total de viagem entre os três lugares: 1 hora e 30 minutos.