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Tecnologia, qualidade e educação

Artigo de Vanessa Guimarães Pinto, reitora da Universidade Federal de Minas Gerais, em que analisa o atraso do Brasil no campo do desenvolvimento científico e tecnológico e suas consequências para a população.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h31 - Publicado em 30 nov 1991, 22h00

Vanessa Guimarães Pinto

Já não existem dúvidas de que o Brasil terá, neste final de século, de fazer um esforço redobrado se quiser superar o atraso histórico que nos distancia do mundo desenvolvido e aparece se aproximar de uma espécie de quarto mundo – a ser integrado pelas nações que não conseguirem resolver suas dificuldades para dar à população um mínimo de condições de sobrevivência. Nesse esforço os conceitos de “qualidade” e “produtividade” são elementos decisivos. Não podem mais ser encarados como meramente técnicos, pois, permeando todo o desenvolvimento científico e tecnológico, eles se referem, antes de tudo, a um problema cultural e político.

O dilema industrial de até poucos anos atrás, por exemplo, entre optar por tecnologias de alto investimento em capital ou de alto investimento em trabalho já está superado. As tecnologias contemporâneas têm o seu investimento maior do alto grau de informação agregada ao produto. São tecnologias que privilegiam o conhecimento. Trata-se, mesmo, de um processo global: hoje, é necessário que o operário seja capaz de compreender o que faz e, assim, possa contribuir para o aperfeiçoamento do processo e do produto.

Esta ênfase, por sinal, não existe apenas nesta operação. Do outro lado da linha, o lado do consumidor – coletivamente, caracterizado como “mercado”, mas que preferimos identificar como cidadão -, também há um novo tipo de exigência. A produção, cada dia mais sofisticada, exige um indivíduo mais educado, mais preparado para o consumo da inovação, quer do ponto de vista de sua assimilação, quer do ponto de vista econômico. Fecha-se assim, o círculo, que abriga em seu interior todos esses conhecimentos de qualidade, produtividade, ciência, tecnologia e modernidade.

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O único fio capaz de costurar esse círculo é o da educação. Tanto o operário qualificado para a nova tarefa industrial quanto o especialista de nível superior capaz de inovar e desenvolver tecnologia, quanto o cidadão/consumidor habilitado intelectual e economicamente ao consumo só surgirão no Brasil (ou em qualquer condições) após um longo período de maciços e permanentes investimentos em educação.

Primeiramente, na educação básica, pois só ela será capaz de tornar cidadãos – consumidores, por extensão – a maioria da população analfabeta ou semi-alfabetizada, situação que ainda persiste, entre nós. Concomitantemente, é indispensável o aporte de recursos em volume suficiente e de forma regular e contínua para a pesquisa, única forma de desenvolver tecnologia. Como no Brasil tem sido a universidade pública a instituição responsável pelo desenvolvimento de quase totalidade da pesquisa, nada mais natural que esse investimento se dirija para ela, que já dispõe de estrutura razoável para responder a desafios dessa ordem.

Situação que não pode persistir, se queremos realmente atingir a modernidade com “qualidade” e “produtividade”, é continuarmos a conviver com sistemas públicos de ensino, nos seus vários níveis, permanentemente em crise, por erros de políticas oficiais. Qualidade depende de ciência e tecnologia, que depende de educação, que por sua vez depende de vontade política. Ou, para ficar com o comentário do especialista em tecnologia e consultor da União dos Cientistas e Engenheiros japoneses Kaoru Ishikawa, “a qualidade começa com a educação e termina com a educação”.

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