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Universos que não acabam mais

A explicação para inúmeras características esquisitas do cosmos pode ser simples: existem infinitos como ele por aí

Texto Salvador Nogueira

Quando as regras da mecânica quântica foram descobertas, oferecendo um caminho para entender o amalucado mun­do das partículas, boa parte do trabalho dos físicos experimentais virou montar quebra-cabeça: detectar as partículas elementares em aceleradores cada vez mais poderosos, preenchendo uma tabela com todos os tipos possíveis e suas propriedades.

Essa venerável compilação virou o Modelo-Padrão da Física de Partículas, e nela estão embutidas algumas propriedades que ajudam o nosso Universo a ser como é. Por exemplo: o que seria do Cosmos se a massa do próton fosse um pouquinho diferente, ou se a atração entre prótons e elétrons se tornasse um pouco maior ou menor?

Nos mínimos detalhes

Manipulando essas propriedades em teoria, os físicos descobriram que pequenas mudanças teriam causado grandes catástrofes. As alterações poderiam ter feito com que os átomos nunca fossem estáveis, ou que o Universo vivesse uma vida muito rápida, sem permitir que estrelas de queima mais lenta surgissem e semeassem a vida.

Para a surpresa dos cientistas, nós todos só estamos aqui hoje porque este Universo, em seu nascimento, 13,7 bilhões de anos atrás, parece ter sido sintonizado em suas características básicas para que pudéssemos existir. Demos uma sorte absurdamente grande – muito mais difícil do que ganhar na Mega-Sena 100 vezes seguidas, sempre com um cartão e com os mesmos 6 números. Enfim, bem difícil. Não é uma explicação que os cientistas costumem engolir – sorte não é um jeito bom de esclarecer as coisas.

Então, surgiu uma alternativa. E se na verdade este é apenas um, de múltiplos, praticamente infinitos, Universos? Aí, cada um viria regulado de um jeito, mas não haveria sorte alguma de existir um que fosse bom para nós.

Há muitos cientistas de primeira que defendem esse argumento, sobretudo inspirados pelas teorias derivadas das supercordas. Por que o Universo é tão bom para nós? Essa pergunta só faz sentido nos Universos que são “bons”, porque só neles podem surgir criaturas para fazer a pergunta. E fim. Esse “princípio antrópico” tem adeptos como Leonard Susskind e Stephen Hawking, mas nem todo mundo o compra. O físico americano Lee Smolin, por exemplo, acredita que o princípio antrópico é uma resposta cômoda demais para ser aceita. Para ele, deve haver algum mecanismo de “seleção natural” para Universos “bons”, de forma que eles se tornem mais prováveis do que os “ruins”. Ele sugere que os Universos tenham filhos por meio de seus buracos negros. E que os melhores Universos não são os bons para nós, mas os bons para os buracos negros – quanto maior a prole deles, melhor.

Ah, tudo muito bonito. Mas como testar tudo isso? Taí o principal problema. É muito difícil testar a existência de coisas que estão além do seu próprio Universo. Smolin diz que, ao estudar a origem do nosso em detalhes, talvez encontremos evidências de que tudo começou num buraco negro de outro Universo. O cientista também desafia os físicos a produzirem um Universo teórico que tenha maior propensão a gerar buracos negros que o nosso.

Até agora, a proposta feita por Smolin se mantém de pé. Mas isso não muda o fato de que talvez seja simplesmente impossível determinar a existência de um “Multiverso” – o arranjo dos potencialmente infinitos Universos existentes. Estamos presos ao nosso próprio Cosmos, e isso não deve mudar. Diante dessas dificuldades insuperáveis, tudo que nos resta é usar o intelecto para o que melhor sabemos fazer: especular sobre o que está além. Aí está, ao mesmo tempo, a origem e o destino da ciência.

Tão longe, tão perto

Além de Universos completamente desconectados do nosso, há quem imagine a existência de Universos localizados no mesmo espaço-tempo, mas tão distantes de nós que jamais serão observáveis.