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Vida em outro planeta: À procura da inteligência extraterrestre

Desta vez é para valer: em outubro do ano passado, depois de três décadas de ensaios e pequenas tentativas, os astrônomos começaram a busca sistemática de Ets pelo Universo.

Promessa é divida. Embora meio desmoralizado, o antigo ditado foi cumprido. Ao menos pela NASA, a respeitada agência espacial americana, que depois de quase dez anos de trabalho colocou oficialmente em prática, no dia 12 de outubro de 1992, a busca de vida inteligente fora da Terra. Trata-se de um ambicioso projeto de escuta que pretende, nos próximos dez anos, responder a uma velha e intrigante questão: há alguém lá, nos confins do céu? A data escolhida foi proposital. Afinal, o projeto SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence ou Busca de Inteligência Extraterrestre) começou a funcionar no dia das comemorações dos 500 anos da descoberta da América, a forma escolhida pelos pesquisadores americanos de homenagear o navegador genovês Cristóvão Colombo.

Agora, porém, os novos exploradores do final do século XX, apoiados por tecnologias sofisticadíssimas e computadores de última geração, podem causar um impacto ainda maior que o de Colombo no distante século XV: descobrir novos mundos. Desta vez, no céu. No Observatório de Arecibo, em Porto Rico, a gigantesca antena do maior radiotelescópio do mundo está preparada para tentar provar que a Terra não é o único lugar do Cosmo habitado por vida inteligente. De fato, os astrônomos não têm certeza da existência dos “homenzinhos verdes”, como são chamados os ETs. Nem sequer podem afirmar, caso eles existam, que os sinais de rádio poderão detectá-los. Mas foram à luta, encorajados por descobertas recentes que indicam que muitas estrelas próximas do Sol possuem, provavelmente, sistemas planetários. Não bastasse isso, cresce o reconhecimento científico de que a vida é um fenômeno natural que não pode estar confinado a um único planeta.

“O dado novo é o caráter oficial dessa busca. Filosoficamente é muito importante para a espécie humana procurar seriamente traços de outras civilizações”, diz Michael Davis, um dos diretores do Observatório de Arecibo. “Se vamos encontrá-los, essa é uma outra história”. Para essa difícil tarefa, o projeto SETI conta com equipamentos como o Analisador Espectral Multicanal, acoplado a um supercomputador, ligado por sua vez à antena do radiotelescópio de 305 metros de diâmetro. Ele será capaz de analisar simultaneamente 10 milhões de canais, como se fossem 10 milhões de estações de rádio, todas funcionando ao mesmo tempo. Assim, identificaria de imediato eventuais sinais de extraterrestres que, evidentemente, seriam diferentes dos “ruídos” naturais das ondas de rádio. “Esta pesquisa é muito mais poderosa do que qualquer outra que já fizemos”, afirma Frank Drake, astrônomo da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, nos Estados Unidos, um pioneiro caçador de ETs, nos anos 60. Por isso mesmo, considera-se que essa seja uma nova fase da era das descobertas.

Na verdade, a potente antena do radiotelescópio de Arecibo vai continuar trabalhando do mesmo jeito, captando microondas, como o faz desde a década de 60. A novidade é que os novos equipamentos aumentarão bastante as chances de se detectarem eventuais sinais de extraterrestres. Para que tudo funcionasse à perfeição, antes da inauguração oficial do projeto, cientistas e engenheiros trabalharam duro durante duas semanas, checando o processamento eletrônico do equipamento, verificando os programas dos computadores e testando sua habilidade em identificar sinais cósmicos e distingui-los de interferências locais e mesmo de outros “ruídos” do espaço, como os emitidos por estrelas, por exemplo. Depois de passar pelo analisador de multicanal, os sinais são quebrados em dezenas de milhares de canais de freqüência. Então, outra unidade eletrônica varre esses canais procurando sinais diferentes, aqueles que chegam em impulsos ou ondas contínuas, os chamados sinais coerentes.

Finalmente, um outro sistema examina os sinais isolados procurando diferenciar sinais contínuos de um simples ruído, para, aí, aprofundar a pesquisa. Isso, é claro, exige bilhões de cálculos, feitos pelos computadores a cada meio segundo. Enquanto isso, os astrônomos trocam a noite pelo dia. Preferem trabalhar de madrugada, pois nesse período as interferências se reduzem e o céu está mais silencioso. E esperam, ansiosos, ler numa bela noite, nas quilométricas folhas impressas pelo computador, sinais que indiquem algo suspeito. Quando isso acontecer, eles serão rastreados durante alguns dias para se estabelecer com toda a segurança se aqueles sinais são, de fato, extraterrestres e se vêm do sistema solar. O objetivo ao projeto SETI é apenas ouvir, não manter diálogos, pois, considerando-se as imensas distâncias cósmicas, seriam precisos centenas ou milhares de anos para que as ondas de rádio carregassem as mensagens de volta à Terra. Da mesma forma que há 500 anos Cristóvão Colombo colocou a América na história do mundo, quem sabe, daqui a dez anos ou até mesmo antes, os terráqueos possam comemorar a descoberta de uma nova civilização — desta vez no Cosmo.

Boxes da reportagem

Que número discar?

Os cientistas pensam que a comunicação interestelar funciona melhor na faixa de microondas, com freqüências entre 1000 e 10000 megahertz (MHz), próximas às freqüências comuns de FM e TV. Talvez essa estreita janela aberta para o Cosmo tenha sido usada pelo herói extraterrestre do célebre filme de Steven Spielberg, quando quis “ligar para casa” conforme sua expressão. Abaixo de 1000 MHz, os sinais tendem a ser confundidos com ruídos: emissões que preenchem o espaço, provenientes de várias fontes, sejam estrelas ou nuvens de gás e poeira. Sinais de alta freqüência, por outro lado, são bloqueados pela atmosfera.

Os ETS do Hemisfério Sul

De forma mais modesta que o projeto SETI, os astrônomos do Instituto Argentino de Radioastronomia (IAR) também entraram na corrida em busca dos ETs, e suas duas antenas rastreiam o céu do Hemisfério Sul, desde 1990. Localizado a cerca de 40 quilômetros de Buenos Aires, o IAR, mantido pelo governo argentino, teve a maior parte de seu projeto financiado pela Sociedade Planetária dos Estados Unidos, entidade particular presidida pelo astrônomo e conhecido divulgador científico Carl Sagan. Trata-se do supercomputador META II (Megachannel Extraterrestrial Assay ou Análise Megacanal Extraterrestre), capaz de realizar 75,5 milhões de operações por segundo. Assim, os sinais enviados em direção ao Hemisfério Sul são recebidos e filtrados por duas antenas de radares de 30 metros cada uma e transmitidas ao META. Enquanto o SETI analisa 10 milhões de emissões de rádio ao mesmo tempo, o META fica com 8 milhões. Embora contem com menos radiotelescópios, os astrônomos do Hemisfério Sul levam uma vantagem em relação aos do Hemisfério Norte: é que aqui o número de estrelas é maior. Além disso, abaixo do Equador, há menos interferência de radares e portanto menos prejuízo à captação de sinais.Até agora, o trabalho do IAR privilegia o estudo das estrelas. Não de uma determinada estrela de cada vez, mas de alguns setores do céu, analisando as freqüências de rádio em busca de sinais artificiais. A outra opção para se estudarem estrelas, diz Raul Colomb, diretor do instituto, “seria dedicar mais tempo a observar individualmente as 1000 estrelas mais próximas ao Sol, num processo bem mais lento, mas igualmente eficiente”. Embora com equipamentos menos poderosos, a missão dos argentinos é a mesma dos americanos. Resta esperar para ver quem chega primeiro Se chegar.