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Ficção versus realidade: a história real de 4 tramas de The Crown

Por Maria Cecília Costa - Atualizado em 4 jul 2018, 20h33 - Publicado em 19 jan 2018, 16h14
Arquivo Pessoal/Reprodução

Ao se apropriar de um tema histórico, é muito fácil apostar na espetacularização. Por isso mesmo, é comum ficar desconfiado e perguntar: “será que isso aconteceu mesmo?”. Ao longo da segunda temporada de The Crown essa pergunta parece caber no fim de quase todos os episódios, já que boa parte das histórias retratadas nunca terão uma versão oficial do Palácio de Buckingham.

Uma das mais caras e luxuosas séries dos últimos tempos, The Crown é, desde seu anúncio, um prato cheio para os amantes de história. A série acompanha o reinado da rainha Elizabeth II do Reino Unido, contando os bastidores de problemas pessoais e políticos. No último dia 8 de dezembro, a segunda temporada foi lançada pela Netflix.

A série é reconhecida por seu zelo na pesquisa histórica, mas não deixa de preencher com imaginação algumas lacunas deixadas pelos pronunciamentos reais, principalmente em temas polêmicos. A seguir, o que há de concreto e suposto nos temas abordados na segunda temporada. Spoilers adiante!

1) A modernização da monarquia (S02E05 – “Marionettes”)

John Heffernan como o Lorde Altrincham na série da Netflix Divugação/Netflix

Imagine que eu fale mal da rainha aqui e, no dia seguinte, seja chamada ao Palácio porque ela quer ouvir minhas opiniões. É mais ou menos isso que acontece na série com John Grigg, 2º Barão de Altrincham, que publicou um editorial reclamando do tom antiquado que a monarquia manteve no pós-guerra. Como é mostrado no episódio, sua conversa com a rainha modernizou a monarquia, fazendo com que o regime continuasse popular pelo resto do século 20.

NA VIDA REAL: Após seu editorial no National and English Review, como mostra a série, Grigg foi hostilizado na Inglaterra. No entanto, a contribuição de John Grigg no processo de modernização da monarquia foi reconhecida pelo Palácio de Buckingham anos depois, ainda que seu encontro com a rainha nunca tenha sido confirmado. Na biografia Monarch: The Life and Reign of Elizabeth II, o autor Robert Lacey afirma que o encontro foi com Martin Charteris, secretário de Elizabeth II. Além disso, John Grigg abdicou ao título de barão em 1963, quando tal ato foi legalizado.

2) A ligação da família real com o nazismo (S02E06 – “Vergangenheit”)

Alex Jennings como o Duque de Windsor na série e, na foto da direita, o verdadeiro Duque de Windsor entre sua esposa e Hitler em 1937 Netflix/Wikimedia Commons/Reprodução

O episódio mais chocante da segunda temporada retrata a relação entre o tio de Elizabeth, Edward, o Duque de Windsor, e o nazismo. Odiado pela maioria dos membros do palácio, Edward abdicou ao trono para casar-se com a estadunidense Wallis Simpson. Entre as acusações feitas, está a de que Edward teria trocado informações com o alto comando nazista, o que culminou na invasão e tomada da França por Hitler. Ao suspeitar que o duque tinha ligações nazistas, o palácio o designou como governador das Bahamas e o impediu de retornar ao Reino Unido para trabalhar no governo.

NA VIDA REAL: Em 1937, Edward e Wallis Simpson, a convite de Hitler, viajaram para a Alemanha. A visita, segundo o The New York Times, confirmava que o alto comando nazista via o Duque de Windsor como um “defensor da causa nazista que poderia ser usado no futuro”. A série mostra o dilema sobre correspondências entre Edward e nazistas, que haviam sido mantidos em segredo por Winston Churchill e Eisenhower.

Nos documentos, um plano nazista consistia em sequestrar o duque e restabelecê-lo no trono assim que a Alemanha tomasse a Inglaterra. Um dos telegramas dizia: “O Duque acredita com certeza que bombardeamentos contínuos deixarão a Inglaterra pronta para a paz”. Após seu mandato como governador das Bahamas, Edward nunca mais cumpriu uma obrigação oficial e, após a publicação dos telegramas, afirmou que as evidências eram fabricadas.

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3) A relação entre a rainha e Jackeline Kennedy (S02E08 – “Dear Mrs. Kennedy”)

Jodi Balfour como Jackie Kennedy e Claire Foy como a Rainha Elizabeth II na série; à direita, as duas mulheres reais em 1961 Netflix/Wikimedia Commons/Reprodução

Como é dito diversas vezes ao longo do episódio, os Kennedys eram o mais próximo de uma família real que os EUA tinham. Uma visita deles ao Palácio de Buckingham acaba agravando inseguranças da rainha, que se sente menos relevante que a primeira-dama. Após a visita, Jackie teria falado mal da rainha e do palácio, causando um mal-estar entre as duas. Apesar disso, Elizabeth estaria com mais coragem e segura de si, acabando por resolver, ela mesma, uma crise diplomática em Gana. Após isso, Jackeline teria voltado, meses depois, para se desculpar e dizer que estava sob efeito de drogas quando falou mal de Elizabeth.

NA VIDA REAL: Aparentemente, a relação entre as duas não foi muito amigável. O primeiro embate entre as duas ocorreu por conta da lista de convidados para o jantar: em retaliação por ter sido obrigada a convidar um príncipe polonês divorciado, a rainha cortou o nome de duas convidadas de Kennedy.

De acordo com várias biografias de Jackie, ela não teria dito as palavras da série, mas disse ao amigo Gore Vidal que “a rainha é difícil de lidar”. Não há evidências que essas palavras tenham chegado à rainha, mas o fato é que Jackeline Kennedy voltou meses depois ao Palácio de Buckingham, sozinha, para um almoço com a rainha. Nunca houve um pronunciamento sobre um possível pedido de desculpas.

Em relação ao uso de drogas, em 2013, a New York Magazine afirmou que Max Jacobson, conhecido por aplicar metanfetaminas em seus pacientes – o médico era conhecido como “Dr. Feelgood” – tratou John e Jackie Kennedy entre 1961 e 1962.

4) O passado de Philip, o Duque de Edimburgo (S02E09 – “Paterfamilies”)

Matt Smith como Philip na série e, à direita, o verdadeiro em foto de 1992 Netflix/Wikimedia Commons/Reprodução

Tema do nono – e, na minha opinião, o melhor – episódio da temporada, o passado de Philip se entrelaça com suas escolhas em relação à educação do filho, Charles. Em vez de enviá-lo para o tradicional Eton College, Philip manda o príncipe para uma pequena escola na Escócia, Gordonstoun, a mesma onde se formou. Ao longo do episódio, mostra-se a importância que a escola teve no desenvolvimento de Philip e o sofrimento que causou a Charles.

NA VIDA REAL: Segundo alunos da primeira escola de Charles, em entrevista ao Radio Times, ele teria sofrido tanto bullying que “é incrível como ele continuou mentalmente saudável”. Como é mostrado no fim do episódio, o príncipe Charles foi forçado a ir a Gordonstoun e considerava o lugar uma “sentença de prisão”.

Philip é filho caçula de Andrew da Grécia e Dinamarca e Alice de Battenberg. O príncipe tinha quatro irmãs. Nos anos trinta, a família teve que fugir da Grécia depois que o governo militar derrubou a monarquia. Sua mãe foi diagnosticada com esquizofrenia em 1930, permanecendo no sanatório durante a infância de Philip.

A família se estabeleceu na Alemanha em 1933, onde as irmãs se casaram com nobres alemães, incluindo nazistas. A família de sua irmã, Cecília, morreu realmente em um acidente de avião enquanto Philip estava em Gordonstoun.

Bem mais introspectiva que a primeira, a segunda temporada é guiada pelas turbulências entre Elizabeth e Philip, que são a força motriz da temporada. Desde os primeiros episódios até o último, é a dualidade de Philip, entre a vida de playboy e a familiar, que constrói a narrativa. Logo após o lançamento, a série já possui indicações ao Globo de Ouro, incluindo Melhor Atriz em Série de Drama, para Claire Foy, e Melhor Série de Drama.

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