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A cobaia sou eu

Houve um tempo em que os pesquisadores precisavam arriscar a vida. Em vez de usar cobaias, eles testavam tudo em si mesmos.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h46 - Publicado em 30 jun 2006, 22h00

Edmundo Clairefont

Em nome da ciência, o biólogo escocês Jack Haldane (1892-1964) provocou 13 minutos de convulsão na própria esposa, colocou em risco a vida do ex-primeiro-ministro espanhol Juan Negrín e causou a perfuração dos tímpanos de vários amigos e colaboradores. Ele não fez nada disso por sadismo. Jack simplesmente queria conhecer os efeitos do dióxido de carbono e da descompressão sobre o organismo humano. Usando uma câmara hiperbárica, um cilindro de metal com capacidade para até 3 pessoas, ele simulava as mudanças de pressão a que todo mergulhador está sujeito. Como, dizia o escocês, animais não descrevem sintomas, a melhor forma de desenvolver essa pesquisa era usar seres humanos vivos. A cobaia preferencial de Jack era ele mesmo. Graças à câmara hiperbárica, Haldane estourou um par de obturações dentárias e quebrou várias vértebras. Quando foi questionado sobre seus métodos, reagiu com bom humor: “O tímpano geralmente se recupera. E, se nele permanecer um furo, ainda que haja alguma surdez, o sujeito pode até expelir fumaça de tabaco pela orelha, com óbvias vantagens sociais”. Ao final de suas pesquisas, Jack Haldane foi capaz de refinar a tabela de mergulho desenvolvida por seu pai, e usada até hoje, com pequenas variações.

Jack pode parecer maluco, mas muitas vezes não havia outro jeito. Até meados do século 20, fazer ciência era uma atividade mambembe e o pesquisador tinha que estar disposto a correr riscos. Os instrumentos de medição eram muito imprecisos, e até a invenção do aparelho de raios X, em 1895, não havia nenhuma forma de olhar para dentro de um organismo sem abri-lo. Aliás, a primeira radiografia da história é uma chapa tirada das mãos da esposa do físico alemão Wilhelm Conrad Rönten (1845-1923). Isso acontecia o tempo todo e em todas as áreas de pesquisa, principalmente quando o objetivo era entender melhor o funcionamento do corpo humano – como no caso de Jack Haldane ou de todas as pessoas que um dia se dedicaram a estudar anatomia. Não era possível dissecar o próprio corpo, mas no século 17 professores ingleses ficaram famosos por comprar das famílias os órgãos amputados dos doentes. Dizia-se do médico William Harvey (1578-1657), o primeiro a descrever corretamente a circulação sanguínea, que ele seria capaz de dissecar seu pai se tivesse a chance.

Em outros momentos, usar o próprio organismo era a forma mais confiável de fazer medições. Para entender a condutividade elétrica, Henry Cavendish (1731-1810), um dos maiores físicos da história, se submetia a descargas elétricas de intensidade crescente, até que os choques o fizessem desmaiar. A cada tentativa, descrevia minuciosamente tudo o que tinha acontecido em seu corpo. Na mesma época, o físico francês Georges-Louis Lecrerc (1707-1788) pesquisava a velocidade de dissipação do calor usando grandes bolas de metal, aquecidas até ficar incandescentes. Para fazer suas medições, Lecrerc encostava a mão nas esferas. Aplicando esse conceito ao carvão, ele chegou a uma conclusão, ousada para a época, sobre a idade do nosso planeta. Para isso, pagou o preço de queimar a ponta dos dedos.

Nas últimas décadas, a tecnologia à disposição da ciência avançou rápido. Mesmo assim, alguns cientistas ainda transformam o próprio corpo em laboratório. Nas histórias a seguir, veja como os fins acabam compensando os meios.

Sorriso cheio de dentes

Era difícil ser dentista em 1844. Num mundo sem anestesia, os consultórios da época tinham qualquer coisa de açougue. Mas, em 10 de dezembro daquele ano, o Natal veio mais rápido aos cariados. Foi nesse dia que o americano Horace Wells (1815-1848) assistiu a uma demonstração pública que fazia muito sucesso na época: os participantes aspiravam óxido nitroso, começavam a rir incontrolavelmente e divertiam o público com brincadeiras. Só que um dos participantes machucou o joelho. Mesmo assim, não pareceu sentir a menor dor. No dia seguinte, Wells inalou o gás do riso e mandou seu assistente tirar-lhe o siso. Não sentiu nada. Empolgado, agendou uma demonstração pública em um hospital de Boston e tentou extrair um dente de um estudante. A quantidade de gás deve ter sido insuficiente, porque o garoto se apavorou. Desacreditado, Wells ficou viciado em clorofórmio. Mudou-se para a Europa, onde foi preso por jogar ácido sulfúrico em um grupo de mulheres, e cometeu suicídio na prisão.

De pai pra filho

Jack Haldane construiu sua câmara hiperbárica para checar e refinar uma tabela, elaborada por seu pai, que previa com que velocidade um mergulhador deve descer e subir, dependendo da profundidade em que se encontra. Além de elaborar essa tabela, John Scott Haldane (1860-1936) foi responsável por estudos pioneiros sobre a ação de gases tóxicos no corpo humano. O Haldane pai cheirava quantidades variáveis de gases tóxicos, principalmente monóxido de carbono, e media o nível de intoxicação de seu sangue. Para ter contato com substâncias insalubres, toda vez que uma mina explodia, pegava um capacete e corria para dentro. Tentando descobrir que infecções eram contagiosas, manipulou roupas de doentes. Jack herdou esse jeito de fazer pesquisa: pai e filho cheiravam gases tóxicos juntos até perderem os sentidos. O curioso é que os dois morreram idosos – John, aos 75 anos e Jack, aos 72.

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Colheradas de vaselina

Em 1859, o químico inglês Robert Chesebrough (1837-1933) circulava entre os poços de petróleo da Pensilvânia, nos EUA, quando reparou em um líquido viscoso que saía das perfuradoras. Descobriu que os funcionários usavam aquela geléia para curar ferimentos. Robert colheu uma amostra e a levou para seu laboratório em Nova York. Refinou a substância até criar um gel inodoro e quase transparente. A ele deu o nome de vaselina. Nas semanas que seguiram, se cortou e se queimou em gradações cada dia mais sérias. A pasta parecia diminuir a dor e acelerar a cicatrização. Chesebrough passou a vender o produto nas ruas da cidade com uma carriola. Pouco tempo depois, descobriu-se que a vaselina não curava nada, mas tinha a característica, muito importante para as condições de higiene da época, de impedir a proliferação de bactérias. Robert Chesebrough morreu aos 96 anos receitando a fórmula da longevidade: uma colherada de vaselina todos os dias.

O comedor de haxixe

Em 1855, aos 20 anos, o pesquisador e aventureiro nova-iorquino Fitz Hugh Ludlow (1836-1870) decidiu estudar e descrever, com o maior rigor possível, os efeitos das substâncias que promovem alterações de consciência. Ludlow começou inalando clorofórmio, passou pelos opiáceos e chegou à maconha. Dois anos depois, reuniu suas experiências no livro The Hasheesh Eater (“O Comedor de Haxixe”). Mais de 90 anos depois, em 1943, o pesquisador suíço Albert Hofmann (1906-) fez algo parecido com o LSD. Ele tentava desenvolver um estimulante respiratório quando criou o ácido lisérgico. Por acidente, deixou o produto cair na pele. Impressionado com o resultado, Hofmann passou a usar quantidades maiores do produto e a descrever as alucinações detalhadamente.

Fundo de quintaL

Sozinho, trabalhando nos fundos da própria casa e usando os potes da cozinha, o farmacêutico sueco Carl Scheele (1742-1786) identificou 8 elementos da tabela periódica, incluindo o oxigênio e o nitrogênio. Para descobrir com o que estava lidando, cheirava e ingeria todas as substâncias. Scheele foi um sujeito dos mais azarados, que acabou não conseguindo o crédito por muitas das suas descobertas. Além disso, seu hábito de tomar um trago dos experimentos foi fatal. Aos 43 anos, ele foi encontrado morto em sua bancada, com sintomas de envenenamento. O cadáver estava cercado por uma série de compostos que ele tinha desenvolvido. Ninguém sabe exatamente o que o matou, mas o principal suspeito é o mercúrio.

Boneco de teste

No último dia 30 de abril, morreu o pesquisador americano Lawrence Patrick. O fato de ele ter vivido 85 anos é quase um milagre. Em 1965, em Detroit, Patrick estudava o impacto dos acidentes automotivos quando resolveu entrar no carro de teste. Depois de ser cobaia em 400 batidas, criou sistemas de segurança, como o air bag.

Vai um gole aí?

O australiano Barry Marshall (1951-), Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 2005, descobriu em 1983 que a bactéria Helicobacter pylori causa gastrite e úlceras estomacais. Antes de Marshall, pensava-se que o estresse era o principal agente causador dessas doenças. Para provar que estava certo, ele produziu um coquetel de bactérias, bebeu e descreveu a evolução de sua gastrite.

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