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A grande marcha vermelha

Durante dois meses, 80 milhões de caranguejos invadem a Ilha Christmas, no Oceano Índico. Ocupam estradas, devoram a vegetação e entram nas casas. Parece pesadelo, mas não é.

André Santoro

Eles são ultrapontuais. Todo ano, no início de novembro, milhões de caranguejos deixam as tocas na floresta tropical e rumam para a praia na Ilha Christmas. O lugar, um território australiano com 134 quilômetros quadrados, no Oceano Índico (equivalente a cinco vezes o Arquipélago de Fernando de Noronha), 360 quilômetros ao sul da Indonésia, é o cenário de um espetáculo único. Pelo menos 23 espécies de crustáceos participam da marcha. Os mais velhos partem na frente. Levam duas semanas para chegar à praia, onde cavam milhões de buracos na areia e cruzam. Aí, os machos voltam para a floresta e deixam as fêmeas com os ovos. Duas semanas depois, elas levam as larvas para o mar. Mais três semanas e nascem milhões de filhotes, parecidos com camarões. Os que escapam dos peixes, das aves e das correntes marítimas instintivamente tomam o caminho da mata. Nesse momento, ultrapassam 80 milhões. Oito milhões morrem pelo caminho, atropelados por carros e trens ou devorados por garças. Mas ninguém dá pela falta.

Um ciclo eterno de reprodução e fertilização

Há 5 000 espécies de caranguejos no mundo. Só no Brasil, elas são 300. Eles integram a classe dos crustáceos, grupo ao qual também pertencem a lagosta e o camarão, e são velhíssimos. Surgiram no mar, no período jurássico, há 160 milhões de anos. Foram os ciclos de glaciação do planeta que os empurraram para a terra.

“No fim dos últimos períodos gelados, o nível dos oceanos subiu mais do que o normal e depois recuou”, explica o biólogo Gustavo Augusto de Melo, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. “Na terra, ficaram algumas espécies que tiveram chance de evoluir para sobreviver também fora da água. Uma delas foi o caranguejo.”

Hoje, eles migram para lançar ovos no mar. No viveiro da Ilha Christmas, a maré vermelha deixa um rastro impressionante. Onde passa consome folhas, frutos e flores, animais mortos e até guimbas de cigarro. Mas, até hoje, nunca atacaram gente.

O paraíso é úmido e congestionado

Apesar dos transtornos, o vai-e-vem dos animais já foi incorporado à rotina dos 2 000 habitantes da ilha. Virou atração turística. O clima úmido do lugar é um paraíso para a espécie.

“A região possui uma estação chuvosa dilatada, que vai de novembro a maio, ideal para a reprodução dos bichos”, conta à SUPER o biólogo Steve Morris, da Universidade de Sydney, na Austrália. “No resto do ano, o clima é seco mas eles se escondem na mata, onde sempre há água.”

Para buscar a umidade, cavam poços de até 60 centímetros de profundidade no chão. Na floresta, não lhes falta alimento, pois comem folhas, flores e frutas.

O intrigante é que a marcha tem uma importante função ecológica: além de renovar o solo com as escavações, os excrementos dos bichos fertilizam a terra, garantindo a manutenção do ecossistema da ilha. Tanto que, para protegê-los, 65% do território da ilha foi convertido em parque de proteção ambiental.

1. Predomina na ilha a espécie Gecarcoidea natalis (ao lado). Com as chuvas, os bichos deixam as tocas e partem para o mar. Caminham duas semanas. As fêmeas levam 100 000 ovos no abdome, cada uma

2. Na praia, os machos cavam buracos na areia e atraem as fêmeas para a cópula. Depois, abandonam-as incubando os ovos já fertilizados. Em duas semanas, eles são lançados no mar

3. As larvas bóiam na água, onde há a luz necessária para o seu desenvolvimento. Nesse estágio, que dura três semanas, não conseguem se movimentar sozinhas

4. Depois de formados, os pequenos animais nadam para o fundo

5. Por fim, milhares iniciam o caminho instintivo para a floresta. As rochas da praia ficam cobertas por um tapete vermelho-vivo