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A matemática não foi feita para chatear ninguém

Artigo do professor Luiz Barco, comentando a aversão da maioria das pessoas à matemática.

Luiz Barco

Pode ser divertido estudar Matemática. Essa afirmação , no entanto, parece não ser verdade para minha grande amigas Inês , a editora de SUPERINTERESSANTE, que com muita competência , todo mês coloca meus artigos no tamanho e não raro reclama de alguma construção que fiz de maneira enviesada , sugerindo uma versão mais clara. Apesar de sua maneira objetiva, sua capacidade de entendimento e seu raciocínio ágil ela não esconde seu desconforto ao trata de assuntos que parecem ter saído de um livro ou de uma aula de Matemática. Por que será que pessoas inteligentes, de raciocínio claro e dinâmico muitas vezes apresentam quase aversão a uma ciência tão bonita?

A resposta não é simples, mas existem alguns indicadores. Durante uma de minhas aulas no curso de pós-graduação , um aluno me contou que fora visitar uma sobrinha , mas não pôde brincar com ela, pois a menina estava às voltas com a lição de Matemática e nisso levou nada menos de cinco horas. A tão complicada tarefa consistia em escrever por extenso todo os números inteiros de 1 500 a 2 000. Seguramente, a professora dessa infeliz criança imagina que o tempo dar repressão vai voltar e já prepara seus alunos submetendo-os a um verdadeiro “pau-de-arara matemático”.

Se tal tarefa reflete o dia-a-dia escola da menina, e não se trata de um episódio infeliz ou isolado , quando ela for adulta, dificilmente vai tolerar algo que a faça lembra-se da Matemática.

No mesmo dia em que esse caso me foi relatado outro de meus alunos me pediu que eu o ajudasse a produzir uma matéria sobre o problemas lógicos. Sugeri o conhecido problema da porta do céu: ao morrer, os homens são levados a uma grande sala com duas portas idênticas. Uma é a entrada do céu e a outra é a do inferno. Dois anjos estão postados no balcão da eternidade e sabe-se que um deles responde invariavelmente com a verdade e o outro, com a mentira. Como determina a porta correta, se só se pode fazer uma única pergunta a um e só um dos anjo?

Enquanto discutíamos as questão , outra aluna aproximou-se timidamente e disse que no filme Labirinto, estrelado pelo cantor David Bowie, havia uma versão desse problema: as portas que a jovem heroína tinha de atravessar, para tentar resgatar o irmãozinho seqüestrado, possuíam fechaduras falantes e , como no problema dos anjos só uma delas respondia com verdades.

Não assisti ao filme, mas fico me perguntando qual a razão que faz com que os formuladores dos currículos escolares dêem tão pouco valor aos jogos, quebra-cabeça e divertimentos matemáticos.

A historia registra inúmeros exemplos de quebra-cabeça que geraram importantes pesquisas de matemática. Entre os vários cientistas que se preocuparam com problemas , sem se descartarem das preocupações com intricados problemas científicos, estava o físico alemão Albert Einstein. Sua estante era repleta de obras de Matemática recreativa. Não é a toa que muitos definem ciência como o esforço sistemático em obter resposta cada vez melhor para os quebra-cabeças que a natureza nos impõe.

Se esse modo de enxergar a ciência é pelo menos aceitável e se um dos objetivos da escola é sociedade os cientistas com os quais ela vai contar para resolver seus problemas futuro, não seria desejável que se estimulassem os jovens? Não estou defendendo uma educação meramente utilitarista,embora sejam cada vez mais freqüentes nas escolas perguntas do tipo “para que serve?”Ou “onde se aplica tal teoria ?” Por trás disso parece estar a idéia de que ser uma fonte de felicidade, que seja então um estoque de utilidades.

Pode-se aprender, pesquisar, produzir, trabalhar com disciplina e ética e conseguir ser feliz com tudo isso. Mas, para tanto, é preciso reinventar a pedagogia do prazer. Eficiência não é nem nunca foi , resultado da intolerância e do autoritarismo . Se você esta entre aquelas que não dormem até encontrar a solução das curiosidades com que se deparam , tente resolver o problema da porta do céu. É simples.

Escolha uma das portas e diga o seguinte a um dos anjos no balcão:seu perguntar ao seu colega ( o outro anjo) se a porta que apontei é a do céu, ele respondera sim ou não? Raciocine e verifique que se você apontar porta do céu , qualquer dos anjos dirá não . E se apontar o inferno, ouvirá um sim.

Luiz Barco é professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.