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A seleção natural tem mania de evoluir… caranguejos

A forma atarracada desse crustáceo é tão boa para a sobrevivência que a natureza a reinventou cinco vezes. Talvez, Sr. Siriguejo seja um siri se tornando caranguejo.

Por Bruno Vaiano Atualizado em 6 jun 2021, 19h04 - Publicado em 6 jun 2021, 18h36

Os biólogos são fascinados por um processo chamado evolução convergente: quando espécies bem distantes uma da outra na árvore da vida acabam evoluindo a mesma solução para superar um desafio.

O exemplo mais típico é o das asas. Os primeiros bichinhos voadores foram os insetos. Aí vieram répteis chamados pterodátilos e esbanjaram as maiores asas que já sobrevoaram a Terra. Os próximos na lista são os pássaros, os únicos descendentes vivos dos dinossauros. Por fim, os mamíferos mais especificamente, os morcegos , bolaram um jeito de vencer a gravidade pela quarta vez, também por uma via totalmente independente.

Em cada um desses casos, a seleção natural atuou sobre órgãos diferentes: nos pterodáctilos, um único dedo foi se tornando progressivamente mais longo e passou a sustentar a imensa membrana necessária para planar. Os outros dígitos ficaram essencialmente intactos, o que significa que esses répteis tinham “mãozinhas” atreladas às asas.

Nos morcegos, todos os dedos (com exceção de um) esticaram para dividir a tarefa. Já nos pássaros, foram os ossos equivalentes ao braço, e não aos dedos, que cresceram. Não entendeu? Dá só uma olhada no desenho abaixo e tudo vai ficar claro.

Não é difícil explicar a fixação da seleção natural por asas. Voar é uma habilidade útil, e pode evoluir gradualmente porque seus estágios intermediários também são úteis. Mesmo uma pequena membrana, incapaz de sustentar voos longos, oferece alguma resistência ao ar que ajuda um animal, por exemplo, a pular de árvore em árvore. Isso melhores as chances de sobrevivência desse espécime e faz aumentar a frequência dessa característica na próxima geração.

Mas e a fixação por… caranguejos? Crustáceos que não tinham nada a ver um com outro evoluíram repetidamente características de caranguejo ao longo da história natural. Essa é uma tendência tão intrigante que até ganhou um nome: carcinização (é a mesma raíz da palavra “câncer”, compartilhada pelo signo e pela doença).

Há pelo menos cinco ocorrências de carcinização nos anais da história natural. O caso mais familiar ao público leigo é o do caranguejo-real. Esse é o nome genérico para uma família de animais com mais de 40 espécies (Lithodidae) que protagoniza um programa do Discovery Channel intitulado Pesca Mortal. Nessa cruza de reality show e docunentário sensacionalista, pescadores amalucados arriscam a vida nos mares revoltos do Alasca para caçar os bichões e então vender sua carne a preço de ouro.

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Não conte para os clientes, mas esses caranguejos não são bem caranguejos. Na verdade, descendem de outro um crustáceo de dez patas que evoluiu características de caranguejo em um passado distante. (Outros exemplos de crustáceos de dez patas são os camarões e as lagostas. É entre eles que a carcinização é comum – não é qualquer bicho que sai virando caranguejo, é preciso cumprir alguns pré-requisitos). 

Talvez, o Sr. Siriguejo de Bob Esponja seja só um siri em processo de carcinização. Ele está tão convencido de que a forma de caranguejo é o ápice da evolução que até começou a fazer (e vender) hambúrgueres feitos com a carne de seus ancestrais siris.

Anatomicamente, a história confere.

Aos olhos de um leigo, siris tem duas características essenciais: uma são as patas traseiras achatadas, adaptadas para a natação. Outra é o caminhar: sempre de lado. Já os caranguejos andam para frente, e têm os membros traseiros com extremidades pontiaguadas. Siriguejo, portanto, é um caranguejo, não um siri.

Ufa. Sem canibalismo dessa vez.

 

 

 

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