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… A temperatura do corpo humano fosse ambiente?

A espécie humana se pareceria com lagartos magros - mas barrigudos - e com raciocínio lento

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h49 - Publicado em 30 set 2000, 22h00

Evanildo da Silveira

O velocista norte-americano Maurice Greene, atual recordista mundial dos 100 metros rasos e uma das estrelas da Olimpíada de Sydney, jamais teria corrido essa distância em 9s79. Nem ele nem outro ser humano conseguiria atingir tamanha velocidade se fôssemos animais ectotérmicos, isto é, com temperatura corpórea que varia de acordo com a do ambiente, como os répteis. Seríamos muito mais lentos.

“Faríamos tudo com uma velocidade pelo menos dez vezes menor”, diz o biólogo José Eduardo Bicudo, da Universidade de São Paulo. Assim, Greene gastaria, no mínimo, 97 segundos para correr os 100 metros. Uma eternidade para os padrões olímpicos.

Nossa história como espécie Homo sapiens sapiens começou há 310 milhões de anos, quando vivia na Terra um grupo de répteis chamado sinapsídeo, do qual descendem todos os mamíferos. Ao longo de sua evolução, os mamíferos adotaram a endotermia, isto é, temperatura constante e relativamente alta – cerca de 37°C –, como uma de suas estratégias de sobrevivência. Ela nos trouxe uma grande vantagem: a capacidade de responder com maior rapidez a estímulos externos, seja para capturar uma presa ou para fugir de um predador. Isso porque nossa temperatura acelera as reações bioquímicas das células, responsáveis pela produção de hormônios como a adrenalina, que nos faz reagir com agilidade. A endotermia também permite que aves e mamíferos se adaptem e vivam com mais facilidade em qualquer canto do planeta.

Se tivesse, no entanto, seguido o caminho evolutivo dos répteis, anfíbios e peixes, além de perder essa mobilidade toda, o homem teria várias diferenças anatômicas e funcionais. Para começo de conversa, perderíamos o aconchego do colo e do peito materno. Ao nascer, já teríamos que cuidar da própria sobrevivência. Isso porque seria pouco provável que mamássemos. “A produção de leite tem um alto custo energético”, afirma a zoóloga Ana Maria de Souza, da USP. “Os animais com sangue à temperatura ambiente têm o metabolismo mais lento. Assim, produzem menos energia e não têm condição de alimentar os filhotes, que precisam vir ao mundo já aptos a se virar por conta própria.”

A ectotermia determinaria, ainda, um ciclo reprodutivo mais restrito: os humanos não poderiam ter filhos na hora que bem entendessem. As mulheres teriam cio, para que os bebês nascessem na primavera, quando há mais comida disponível e o clima é mais quente. O aparelho reprodutor também seria diferente. Os testículos do homem seriam internos. “Nós só temos um saco escrotal porque a espermatogênese requer que a temperatura dos testículos seja de 5 a 6°C menor do que a do corpo”, diz o médico Eduardo Cunha Farias, da USP.

Teríamos também uma aparência inusitada para os padrões a que nos acostumamos. A obesidade não existiria. Paradoxalmente, seríamos barrigudos. A incapacidade de regular a própria temperatura supõe a ausência da camada de gordura subcutânea, poderoso isolante térmico comum nos mamíferos, que diminui ao mínimo a troca de calor com o ambiente. Sem ela, teríamos a pele colada aos músculos. Mas ganharíamos um execrável bucho. “O único lugar para a reserva de gordura nos animais ectotérmicos são as vísceras”, afirma Ana Maria. “Daí o aumento da barriga.”

Como se não bastasse, seríamos também lentos de raciocínio. Hoje temos um cérebro e um sistema nervoso bem desenvolvidos, mas pagamos um alto preço por isso. “Dois por cento do nosso peso correspondem aos tecidos nervosos”, explica Farias. “Eles são responsáveis, no entanto, pelo consumo de 25% de todo o oxigênio que respiramos e de 75% da glicose, nosso combustível.” Isso revela um metabolismo muito alto. Segundo o biomédico Mauro Antônio Griggio, professor de termometabologia da Universidade Federal de São Paulo, enquanto um coelho de 2,5 quilos consome 120 kcal por dia, uma tartaruga com o mesmo peso necessita de apenas 12 kcal. “A vantagem do coelho é um funcionamento mais estável e independente do ambiente”, explica. “Isso faz diferença em termos de evolução.” Assim, é bem provável que, se fôssemos ectotérmicos, nunca tivéssemos passado de um bando de lagartos bípedes.

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