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A volta do vírus assassino

História da epidemia.

Lúcia Martins

Qual foi a pior epidemia de todos os tempos? A Aids, que matou 22 milhões de pessoas nas últimas duas décadas e devastou vários países da África? A Peste Negra, surto de peste bubônica que arrasou a Europa entre 1347 e 1351 levando 25 milhões de pessoas e deixando mais de 1 000 cidades desertas? Ou a gripe?

A resposta certa, acredite, é a última. A grande epidemia de Gripe Espanhola, que assolou o planeta em 1918, matou quase tanta gente quanto a Aids ou a Peste Negra em muito menos tempo. Foram 20 milhões de cadáveres em apenas um ano! A epidemia, causada por uma variedade do vírus Influenza, o mesmo da gripe comum, gerou pânico e rendeu manchetes de jornais no mundo todo, ofuscando de longe os danos causados pela Primeira Guerra Mundial, que terminou naquele mesmo ano deixando um saldo de 8 milhões de mortos. Nunca, antes ou depois, uma doença matou tanta gente em tão pouco tempo.

Pois bem, agora as más notícias: a Gripe Espanhola pode voltar a qualquer momento. Um estudo do biólogo Mark Gibbs, da Universidade Nacional da Austrália, em Canberra, oferece uma explicação assustadora para o surgimento da doença. Ela teria sido causada por uma fusão total dos genes do vírus da gripe do porco com os do vírus da gripe humana. Nesse tipo de combinação, os genomas se quebram e forma-se um terceiro organismo, totalmente misto, sem pedaços identificáveis de nenhum dos vírus que lhe deram origem. Nenhum pesquisador imaginava que esse tipo de fusão fosse possível.

Já se sabia que o vírus da Gripe Espanhola vinha do porco, desde que uma equipe do Instituto de Patologia das Forças Armadas dos Estados Unidos, que estudou tecidos preservados de vítimas da epidemia, publicou um artigo sobre o assunto na revista americana Science, há quatro anos. Mas, antes, supunha-se que tinha havido apenas uma fusão parcial dos genomas – na qual o vírus resultante apresenta em seu DNA pedaços inteiros dos progenitores. A fusão total é muito mais preocupante porque ela resulta em um organismo contra o qual não há defesa nenhuma e que pode gerar uma variedade imensa de combinações de genes. O pior é que, tendo acontecido em 1918, não há razão nenhuma para descartar a possibilidade de que ocorra de novo.

“Sabemos que o vírus pode nos surpreender”, afirma o médico brasileiro Hermann Schatzmayr. Schatzmayr trabalha no Centro Nacional de Referência para o Influenza, um dos 110 órgãos que formam a rede mundial de vigilância contra o vírus, formada em 1947 pela Organização Mundial de Saúde para tentar proteger o planeta de uma nova epidemia. Um dos trabalhos dele consiste em ficar alerta para o aparecimento de gripes mais poderosas que o normal e alertar a rede quando isso acontecer. Depois de 1918, gripes assassinas apareceram em 1957, 1968 e 1997. Felizmente, em nenhuma dessas ocasiões o vírus era tão perigoso e se espalhava tão rápido quanto o do começo do século XX. O último surto aconteceu em Hong Kong e ficou conhecido como a Gripe do Frango (porque a combinação genética se deu com o Influenza da galinha).

A epidemia foi controlada pelas autoridades médicas locais, que isolaram os casos e determinaram a matança de milhares de aves. Mas o saldo de mortos dá uma idéia do potencial devastador do vírus: das 18 pessoas contaminadas, seis morreram.

Cifras bem mais modestas que as de 1918. O surto famoso teve início em março daquele ano num campo militar do Kansas, Estados Unidos. (A doença ganhou o apelido de “espanhola” porque foi naquele país ibérico que ela se espalhou mais rápido – ou então, simplesmente, porque os americanos são melhores de marketing e não entraram para a história como deflagradores de uma epidemia.) Em pouco tempo, 700 000 americanos estavam mortos. Em maio, já havia 8 milhões de pessoas contaminadas em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde o presidente Rodrigues Alves foi um dos que o Influenza acamou.

Em várias cidades do mundo, autoridades determinaram toque de recolher para evitar concentrações em lugares públicos. A população se trancou em casa – escolas, igrejas e lojas fecharam as portas. Sem lugar para colocar os corpos, hospitais chegavam a empilhá-los nas ruas – uma cena que lembrava muito a peste medieval. Os jornais da época falam da rapidez com que a doença atacava e matava – muitas vezes em menos de uma semana. Os sintomas eram os de uma gripe comum, mas em poucas horas os doentes tinham hemorragia, diarréia e febre alta. A infecção das vias respiratórias criava condições para que outras doenças surgissem, o que apressava a morte. Era assustador. Hoje poderia ser ainda mais, com a propagação do vírus favorecida pelas facilidades dos transportes internacionais. Enquanto os cientistas quebram a cabeça para entender como a fusão dos vírus pode ser combatida, só nos resta torcer para que ela não aconteça de novo.

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