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Amor no laboratório

O psicólogo David Buss afirma que as mulheres são atraídas por homens endinheirados, os homens gostam mesmo é de cintura fina e que a ciência pode explicar o porquê

Carin Homonay Petti

O amor tem razões que a própria razão desconhece, certo? Não é bem assim, diz o americano David Buss, ex-professor da Universidade Harvard, atual responsável pelo curso de acasalamento humano (é isso mesmo!) da Universidade do Texas. Autor de um estudo sobre preferências amorosas que ouviu 10 mil pessoas em 37 países, ele acredita que de cego e irracional o amor não tem nada. Para Buss, um dos principais expoentes da psicologia evolutiva, a ciência pode explicar nossas escolhas amorosas – e até os ataques de ciúme – sob a ótica da teoria de Darwin.

Buss tem levado suas teses a outras áreas do comportamento – além de preparar um livro sobre a ciência do amor, ele acaba de publicar um estudo que analisa os homicídios sob o olhar evolucionista. Nesta entrevista, ele explica as táticas que usamos para escolher e agradar ao companheiro. Sem medo de parecer politicamente incorreto, afirma o que para muitos não passa de preconceito: homens dão importância à beleza; mulheres, às contas bancárias. Freud explica? Não, mas Darwin pode ajudar.

Como a psicologia evolutiva nos ajuda a entender o comportamento amoroso do homem?

Psicologia evolutiva é a psicologia vista sob a ótica da teoria da evolução. Em vez de ver a mente humana como uma folha em branco preenchida pela cultura, a vemos como uma coleção de adaptações com funções próprias. Numa analogia, o corpo humano tem várias adaptações, como o coração para bombear o sangue. A psicologia evolutiva enxerga a mente humana da mesma forma. Temos o ciúme, por exemplo, com a função de manter o parceiro. As preferências na escolha do parceiro têm a função de possibilitar a seleção de um parceiro fértil ou capaz de demonstrar comprometimento e prover recursos. No caso dos homens, há o desejo da variedade sexual, que incentiva a procura de maior número do parceiras.

No que homens e mulheres diferem na hora de escolher seus parceiros?

Meus estudos com 37 culturas mostram que existem algumas características comuns a homens e mulheres. Todos querem alguém inteligente, atencioso, saudável, compreensivo e com valores parecidos com os seus. Mas as mulheres buscam parceiros com capacidade de prover recursos, status financeiro e social, além de ambição e capacidade de trabalho. Também buscam alguém mais velho.

Qual a razão dessas diferenças?

Para produzir uma criança, a mulher investe tempo: são 9 meses de gravidez e, depois, a amamentação. Então, a questão para ela é buscar benefícios em termos da sua sobrevivência e da dos filhos. Nesse caso, homens mais velhos tendem a ter mais recursos e uma vida mais definida. Rapazes dão importância à aparência física, que é fonte de informações sobre o estado de saúde e fertilidade da parceira. Eles são atraídos pela pele lisa e sem marcas, lábios grossos, cabelos brilhantes, feições simétricas e seios firmes. Também preferem mulheres de cintura fina em relação ao quadril. Se você dividir a medida da cintura pela do quadril, o resultado ideal, sob a ótica masculina, fica em torno de 0,7 centímetro.

Homens e mulheres também são diferentes na hora de conquistar o parceiro?

As táticas para a conquista estão relacionadas ao que o sexo oposto busca. Os homens tendem mais a dar presentes, provas de status social e de seu comprometimento com a parceira. Já as mulheres se esforçam para melhorar a aparência física, com roupas e maquiagem.

Amor e ciúme sempre fizeram parte das relações?

Amor e ciúme nasceram em algum ponto da evolução humana, junto com os relacionamentos. São uma adaptação desenvolvida pela espécie para manter homens e mulheres juntos por longos períodos. Quando há sinais de problema, de infidelidade, de que o parceiro pode abandonar a relação, o ciúme é ativado e aciona o esforço para manter o parceiro. Homens tendem a ter mais ciúme com sinais de infidelidade sexual – afinal, no decorrer da evolução, aqueles que ficaram indiferentes ao fato de a mulher fazer sexo com outros homens tiveram problemas em se reproduzir. Para as mulheres, se o parceiro tiver outras parceiras, ainda assim elas podem ser mães. Então elas são mais afetadas pela infidelidade emocional e com a possibilidade de o parceiro estar envolvido psicologicamente com outra – temem que o homem comprometa sua energia e recursos com outra mulher e não com os filhos dela.

Homens traem mais do que mulheres?

Sim, mas é difícil quantificar. As estatísticas mudam conforme a cultura. Alguns estudos mostram que 50% dos homens e 25% das mulheres traem. Em outros, 15% das mulheres e 35% dos homens. O acasalamento com diferentes parceiras beneficia o sucesso reprodutivo dos homens. Para mulheres, ter mais parceiros não surte o mesmo efeito.

Mas as mulheres também traem…

Claro que sim. Mas a traição tem outra função. Uma é a troca de parceiros: comparando homens que têm casos extraconjugais e os que não têm, descobre-se em ambos o mesmo grau de satisfação com a relação. Mulheres que traem tendem a estar infelizes no casamento. Outra função é a seleção dos genes. Mulheres que têm casos tendem a fazer sexo com os amantes quando estão no período fértil e com os maridos quando não estão ovulando. Isso sugere que elas possam estar buscando segurança num homem e bons genes no outro, mais atraente – a prole tende a herdar as características do pai fisicamente belo e ser mais bem-sucedida.

Além disso, o parceiro adicional acaba funcionando como uma espécie de seguro caso algo dê errado na relação. Se o parceiro principal for embora ou morrer, quem tiver um parceiro reserva estará melhor. O seguro-parceiro é como seguro-saúde: você espera não precisar dele, mas, se algo der errado, existe a cobertura.

Sua teoria, então, justifica a traição?

Espero que a teoria não seja utilizada como desculpa para mau comportamento, mas como forma de entender melhor que tanto homens como mulheres, mesmo se felizes no casamento, vão sentir atração por outras pessoas. Isso não significa que precisem agir para satisfazer a atração.

David Buss

• Nas horas vagas, joga tênis no campus da Universidade do Texas.

• Além de psicólogo, é motoqueiro. Nas férias de verão americanas, em julho, pilotou do Texas ao Colorado. Foram 3 mil km sobre sua Honda Gold Wing, acompanhado de um grupo de amigos

• É fã do escritor Vladimir Nabokov, autor de Lolita. Entre os livros do autor, o que ele mais gosta é Riso no Escuro, que aborda temas como ciúme e infidelidade – qualquer semelhança com seu trabalho não é mera coincidência.

• Tem um livro publicado em português: A Paixão Perigosa, da Editora Objetiva.