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Andrew Simpson

O coordenador do Projeto Genoma no Brasil mostra que uma dose de marketing é  vital para o futuro da boa ciência no país.

Rodrigo Vergara

O pesquisador inglês Andrew Simpson é um dos principais responsáveis pela boa fama internacional da ciência brasileira na área de pesquisa genômica. A linha de pesquisa nacional tem sido laureada em publicações estrangeiras e é considerada uma das melhores do mundo. Simpson é pesquisador do Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer em São Paulo e coordenou o Projeto Genoma do Câncer Humano dirigido pelo Ludwig e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp. Mas, à parte o enorme mérito científico desse bioquímico, Simpson destaca-se por seu apurado tino de marketing.

Para ele, o ineditismo de um projeto e a contribuição que ele pode dar à imagem do Brasil são decisivos para decidir onde investir os escassos recursos para pesquisa no país. Atualmente, ele quer que o Brasil seja o primeiro país a fazer o seqüenciamento completo do genoma de uma árvore. “Ninguém fez isso ainda e o Brasil tem sua imagem muito ligada a florestas. Seria interessante”, diz.

Super – Qual o saldo do Projeto Genoma do Câncer Humano?

Encerramos a fase de seqüenciamento no último dia de maio. Temos cerca de 1,2 milhão de seqüências derivadas do RNA purificado de tumores, tecidos normais e células de cultura referentes ao câncer. O número de seqüências boas, úteis, será menor. É o maior projeto de genoma já feito no Brasil, dez vezes maior que o projeto da Xylella fastidiosa (bactéria que ataca a laranja e cujo genoma foi seqüenciado, em 1999, no Brasil). Agora estamos analisando e publicando os dados.

Como esses dados vão ser utilizados?

Primeiro precisamos identificar todos os genes humanos, o que não foi possível ainda. Conhecemos um terço deles.

Mas não foi isso que fizeram a Celera e o Projeto Genoma Humano?

Não. Eles só seqüenciaram o DNA, um trabalho quase inútil para o descobrimento de genes. É preciso identificar todos os genes, faltam dois anos para que isso aconteça. Depois temos que definir quais genes ou alterações deles são associados com câncer e serão úteis para novas técnicas de diagnóstico ou tratamento. O passo seguinte será produzir as proteínas codificadas pelos genes do câncer. Por fim, será preciso descobrir quais são os anticorpos específicos para essas proteínas. Com isso, vamos criar um tipo de “sonda” que vai procurar, no sangue do paciente, a proteína associada ao câncer. Ou seja, se a proteína for detectada, é provável que o paciente tenha aquele câncer. Tudo isso descoberto muito precocemente. O tratamento vem a seguir: descoberta a proteína associada ao câncer, o desafio é definir sua estrutura, porque a partir dela é possível desenhar novas drogas que vão interagir com essa estrutura.

Quando a população em geral terá contato com um produto fruto dessa tecnologia?

Já está tendo contato. O seqüenciamento do genoma começou há dez anos. E está fornecendo novas drogas. Existe um remédio novo para câncer de mama que é o primeiro exemplo de uma nova geração de medicamentos contra câncer, mais eficaz e com menos efeitos colaterais. E temos novos diagnósticos que realmente indicam qual tratamento seria melhor. Já está começando.

O país está maduro para transformar em receita seu know-how em pesquisa genômica?

Não. Nos Estados Unidos e na Europa, sim, porque lá a indústria farmacêutica está estabelecida, já trabalha no nível molecular. Afinal, é a indústria farmacêutica que tem dinheiro para investir e experiência para produzir isso tudo que eu disse. Hoje, a indústria farmacêutica nacional pode ter acesso a essa informação ao mesmo tempo que as grandes indústrias, mas ela não está estruturada para aproveitar isso. Um caminho seria criar uma nova geração de pequenas empresas de biotecnologia especificamente direcionadas para trabalhar com informação genética. Elas atuariam como uma ponte, retirando do Projeto Genoma o que é útil e oferecendo da forma mais pronta para as empresas farmacêuticas. Esse é o modelo que estamos tentando estimular. Há uma percepção generalizada de que o nosso trabalho também tem de estimular a economia brasileira.

O modelo brasileiro de pesquisa do genoma é aplicável a outro país?

Não. Aqui, os laboratórios se uniram em consórcio e trabalharam juntos. Nos Estados Unidos, o sistema é tão competitivo que é muito difícil laboratórios trabalharem juntos. Em países menos desenvolvidos cientificamente que o Brasil, a dificuldade seria a falta de laboratórios. A estabilidade também é importante. E nossos pesquisadores nas universidades estão estáveis, seus salários não dependem da aprovação do próximo projeto. Acho que a mensagem que fica é: não devemos copiar ninguém.

O genoma gerou receita até agora?

Não. Só gastou muito. Mas não vai haver lucros diretos. Não somos uma empresa. Haverá lucros indiretos, geração de empregos em pequenas empresas, mais impostos. E há investimentos de fora. No seqüenciamento do genoma da Xylella fastidiosa da uva, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos investiu 500 000 dólares. Para o Projeto Genoma do Câncer Humano, o Instituto Ludwig trouxe 7 milhões de dólares de fora.

É justo, é legal alguém registrar em seu nome um gene humano?

Legal é. Esses argumentos filosóficos, quando entram no mundo legal, causam uma bagunça. Recentemente, o escritório de patentes dos Estados Unidos fez uma análise muito detalhada do que é patenteável e do que não é. E fez questão de não entrar em questões filosóficas. Ele pegou a lei de patentes americana, aplicou ao genoma e disse: “Quando você tiver dados suficientes a respeito da utilidade da descoberta, ela será patenteável. Enquanto ela for simplesmente uma seqüência, não”. Estamos trabalhando com essa posição.

Qual é o limite da ambição para a pesquisa de genoma no Brasil?

Para mim seria muito interessante colocar todo mundo trabalhando junto para fazer um genoma mais complexo. E tem vários genomas que ninguém fez. São oportunidades que ainda existem. O Brasil poderia perfeitamente ser o primeiro país do mundo a ter o genoma de uma árvore. E a riqueza brasileira, nossa biodiversidade, nossa imagem mundial está muito ligada a florestas. Outra coisa interessante que ninguém fez: uma ave. A galinha seria uma boa opção. De novo, favoreceria uma indústria muito forte no Brasil. Temos capacidade de fazer. Depende da vontade coletiva.

O ineditismo é importante?

Eu acho. Fazer o seqüenciamento da Xylella e o do câncer já mudou um pouco a imagem do Brasil no mundo . Mas fazer um grande genoma, totalmente no Brasil, em uma área em que ninguém entrou, vai consolidar nossa mudança. Eu sei que somos capazes de fazer isso.

Como tornar esses novos projetos economicamente interessantes?

Seria muito bom poder identificar uma árvore modelo e conseguir uma contribuição da indústria de madeira, cítrica ou de indústrias de fora do Brasil, todo mundo investindo para dividir os custos. Minha idéia não é fazer o genoma de uma árvore que já é economicamente importante, mas uma que é modelo para todas as árvores. A melhor que eu conheço é o pessegueiro.

Quando se refere ao Brasil, você sempre diz “nós”. Você está abrasileirado?

Quase. Minha mulher é brasileira, eu gosto muito do Brasil e quero ficar aqui. Estou inclusive me naturalizando.

Frase

“O Brasil podia perfeitamente ser o primeiro país do mundo a ter o genoma de uma árvore”