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As muitas caras da inteligência

Claudio Angelo

Você nunca aprendeu a extrair a raiz quadrada? Não se desespere. O psicólogo Howard Gardner, da Universidade de Harvard, mostra que os cérebros podem brilhar de muitos modos diferentes.

Se você acha que inteligente é só aquele sujeito que resolve uma equação diferencial de cabeça ou sabe na ponta da língua a raiz cúbica de qualquer número, precisa conhecer as idéias do psicólogo norte-americano Howard Gardner. Especialista em educação da Universidade de Harvard, um dos grandes celeiros de gênios dos Estados Unidos, Gardner sacudiu a Psicologia e a Pedagogia, nos anos 80, ao demonstrar que a inteligência não é uma só, mas pelo menos oito tipos bem diferentes. Uma criança que é uma negação em Física mas joga futebol fantasticamente bem pode ser considerada um prodígio da inteligência corporal-cinestésica. No extremo oposto, há os geniozinhos da inteligência lógico-matemática que não conseguem nem jogar bolinha de gude. “Alguns indivíduos têm mais talento em umas áreas do que em outras”, explica Gardner. “Por outro lado, não acredito que haja alguém igualmente brilhante em todas elas.”

A Teoria das Inteligências Múltiplas, que Gardner apresenta no livro Estruturas da Mente (Editora Artes Médicas, 1983), colocou em xeque o principal instrumento já inventado para se medir a capacidade intelectual: o teste de Quociente de Inteligência, o famoso QI. Criado no começo do século, esse teste ainda é reverenciado como as tábuas da lei em muitas instituições. Para o psicólogo, o QI falha porque avalia apenas um parâmetro – o raciocínio lógico. Leia a entrevista que Gardner concedeu, com exclusividade, à SUPER.

SUPER: Como o senhor chegou à formulação da Teoria das Inteligências Múltiplas?

Como psicólogo, há anos faço pesquisas com crianças e com adultos portadores de lesão cerebral. Em cada caso, tenho visto que alguns indivíduos são fortes ou fracos em uma determinada área, sem que isso signifique força ou fraqueza em outros campos. Assim surgiu a Teoria das Inteligências Múltiplas. Estabeleci oito critérios diferentes para o que pode ser classificado como inteligência. Para isso, levei em conta tanto a existência de partes do cérebro que processam informações específicas, como música ou números, quanto o fato de que existem parcelas da humanidade com habilidades ou fraquezas específicas. É o caso dos prodígios, em qualquer área de atividade, ou, no outro extremo, os portadores de autismo. Esses indivíduos se fecham num universo próprio, mas mantêm uma memória extraordinária, assim como uma enorme habilidade para cálculos.

SUPER: De acordo com a sua teoria, a inteligência se manifesta de maneiras diferentes em pessoas diferentes. Isso significa que todo mundo é um gênio em potencial?

Eu acho que a frase “todo mundo é um gênio em potencial” não faz sentido. Acredito no poder dos genes, e os genes não são nada justos. Alguns indivíduos têm mais talento em algumas áreas do que outros. Mas não acredito que alguém seja igualmente talentoso em todas as áreas. Todos nós podemos ir bem longe se identificarmos nossos pontos fortes e trabalharmos para desenvolvê-los. Mas isso não nos torna gênios, de maneira nenhuma.

SUPER: No livro Estruturas da Mente, o senhor define inteligência como a combinação entre a herança genética e as influências do ambiente. Qual dos dois fatores é o mais importante? O senhor acha que a inteligência pode se desenvolver até mesmo nos indivíduos menos dotados geneticamente para isso?

Acho que o substrato biológico é necessário para o desenvolvimento de qualquer inteligência ou combinação de inteligências. Por biologia entenda-se ter pais com genes razoáveis e um cérebro saudável. Não é possível compensar totalmente a desvantagem genética por meio de um ambiente que estimule esta ou aquela habilidade. No entanto, com um método adequado de treinamento e aprendizado, qualquer um pode melhorar muito seu desempenho, mesmo que seus genes deixem a desejar.

SUPER: Os tipos de inteligência que o senhor define são distribuídos homogeneamente entre os grupos humanos?

Inteligência, como nós a conhecemos, é um conceito ocidental. Cada cultura tem uma maneira de destacar indivíduos que são ágeis em resolver diferentes tipos de problema. Algumas culturas privilegiam quem tem boa memória. Creio que todos os seres humanos têm todas as oito inteligências, independentemente de morar na Amazônia ou na Antártida. São essas inteligências que nos tornam humanos, do ponto de vista cognitivo. No entanto, os indivíduos diferem uns dos outros por vários motivos, entre os quais os genes e as experiências de vida. O índio da Amazônia vai usar suas inteligências de uma maneira diferente de um banqueiro, um jogador de futebol. Ou de um jornalista que mora em São Paulo.

SUPER: No livro Mentes que Criam, o senhor cita exemplos de inteligências múltiplas em celebridades do começo do século. Que personagens dos anos 90 o senhor apontaria?

É mais fácil escrever sobre pessoas que viveram 100 anos atrás, porque há distanciamento. Nós sabemos que essas pessoas transformaram suas áreas de atuação, e é muito difícil saber com certeza quem, daqui a 100 anos, será apontado como um grande agente de mudanças na nossa época. Mas, de qualquer maneira, eu tenho grande admiração pelo biólogo Edward Wilson, pelo lingüista Noam Chomsky, pelo líder político Nelson Mandela e pelo cineasta Ingmar Bergman. Uma lista desse tipo seria incompleta hoje sem os pioneiros da revolução dos computadores, como Bill Gates e Steven Jobs.

SUPER: O teste de Quociente de Inteligência (QI) tem sido usado há décadas para medir a capacidade intelectual. O senhor acha que ele ainda é um bom instrumento?

É razoável se submeter alguém a um teste de QI se você tem somente 1 hora para conferir suas habilidades, especialmente as acadêmicas. O problema está menos no teste e mais na tendência de encará-lo como o único parâmetro para avaliar a inteligência. O QI adquiriu uma importância exagerada. Se eu quisesse conhecer as inteligências de um indivíduo, eu o observaria em ambientes diferentes: na escola, na rua, num café ou sobrevivendo num deserto, por exemplo. Isso diria muito mais do que aquilo que se pode inferir a partir de um simples teste escrito.

SUPER: Se a Teoria das Inteligências Múltiplas for válida, pode ser necessário repensar todo o nosso sistema educacional. Como o senhor acha que deveriam ser as escolas para possibilitar o desenvolvimento de todos os tipos de inteligência?

Essa é uma questão complexa. Acabo de escrever um livro sobre isso. Nele, eu argumento que as inteligências múltiplas não podem definir os métodos pedagógicos. Mas, uma vez que você decide que tipo de escola quer ter, as inteligências múltiplas podem ser úteis para você atingir seus objetivos.

Eles também são gênios?

Os 8 tipos de inteligência, no perfil de 8 brasileiros ilustres.

LÓGICO-MATEMÁTICA

Cálculos rápidos

A capacidade de raciocínio abstrato e de estabelecer conexões mentais do astrônomo Mário Schemberg (1916-1990) o levou à co-autoria da descoberta do mecanismo de explosão das supernovas.

INTRAPESAL

Labirinto da mente

Para revolucionar o tratamento de doentes mentais, a médica alagoana Nise da Silveira precisou antes conhecer a si própria. Essa capacidade de autoconhecimento é a inteligência intrapessoal, presente em artistas, escritores e psicólogos.

ESPACIAL

Olhar mais que perfeito

Maior nome da arquitetura brasileira, Oscar Niemeyer não só consegue imaginar formas no espaço como também desafiar o próprio espaço. Essa é a habilidade específica de arquitetos, pintores e escultores.

CORPORAL-CINESTÉSICA

Movimentos magistrais

Edson Arantes do Nascimento nunca foi um sucesso na escola. Nos gramados, tornou-se o maior jogador de futebol de todos os tempos. A precisão de movimentos do atleta também é inteligência. No caso de Pelé, um talento elevado à genialidade.

INTERPESAL

Bom de papo

A capacidade do comediante Jô Soares de lidar com as pessoas é indiscutível. Esse carisma é a chamada inteligência interpessoal, geralmente presente em líderes políticos e religiosos.

MUSICAL

A magia dos sons

Hermeto Pascoal toca todos os instrumentos, e ainda consegue fazer música com grunhido de porcos e bater de panelas. O compositor é um exemplo de grande sensibilidade musical, a mesma que fez gênios do quilate de Stravinsky e Beethoven.

LINGÜÍSTICA

O dom da palavra

O compositor Caetano Veloso usa com maestria a língua portuguesa para compor as letras de suas músicas. Essa facilidade toda com as palavras está presente nos grandes poetas, escritores e jornalistas.

NATURALÍSTICA

Sintonia com o meio

A forma como alguém se relaciona com a natureza também é um tipo de inteligência. Orlando Villas Bôas não precisou estudar para desbravar o Brasil Central e criar, junto com os irmãos Cláudio e Leonardo, o Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso.