Astrônomos encontram evidências de matéria orgânica no planeta anão Ceres
Um estudo com metodologia inovadora encontrou evidências de compostos orgânicos nesse asteroide gigante localizado entre Marte e Júpiter.

Plutão não é o único planeta anão do Sistema Solar. Ceres é um asteroide enorme localizado no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter, com um diâmetro de 930 km – tão grande que passou a ser classificado como planeta anão. Em 2015, a sonda Dawn, da Nasa, entrou em órbita de Ceres, tirando fotos e colhendo dados. Foi assim que descobrimos que sua superfície é cheia de crateras.
Com essas informações, astrônomos também descobriram que Ceres é o segundo corpo celeste do Sistema Solar mais rico em água depois da Terra, e que também tem sinais de atividade geológica. Agora, num estudo liderado pelo Instituto de Astrofísica de Andalúcia (IAA-CSIC), da Espanha, pesquisadores identificaram 11 regiões no planeta anão que sugerem a existência de um reservatório interno cheio de material orgânico no planeta.
Matéria orgânica não quer dizer, necessariamente, vida. Esses compostos químicos, formados por moléculas que contêm carbono e ligações deste elemento com hidrogênio, são sim essenciais para a vida existir, mas eles por si só não comprovam a existência de seres vivos em Ceres – podem ter sido gerados por processos naturais. Porém, o estudo representa um bom ponto inicial na investigação sobre se o planeta anão já foi, ou ainda pode ser, habitável.
O artigo foi publicado no periódico The Planetary Science Journal. Pesquisadores usaram dados da sonda Dawn e uma metodologia inédita para entender a natureza de Ceres.
De onde vieram os compostos orgânicos?
Em 2017, a sonda Dawn encontrou compostos orgânicos perto da cratera Ernutet, no hemisfério norte de Ceres. Uma das principais hipóteses para o surgimento daquelas moléculas era uma origem exógena: vieram de outro canto, de carona com algum asteroide que se chocou contra o planeta anão.
A pesquisa do instituto espanhol foca em outra hipótese: os compostos orgânicos surgiram em Ceres, armazenados num reservatório interno que protege as moléculas da radiação solar. Isso faria sentido, já que Ceres faz parte de um tipo de asteroides ricos em compostos de carbono.
Para explorar a hipótese, os pesquisadores usaram o método de Análise de Mistura Espectral, que consiste em interpretações de dados complexos de energia para caracterizar, com detalhes, os compostos orgânicos que foram encontrados na cratera de Ernutet.
Com esses resultados, os cientistas escanearam o resto da superfície do planeta com as imagens espaciais de alta resolução que a sonda Dawn tirou. Misturando os dados espaciais e de imagem, eles encontraram 11 regiões com características similares, que sugerem a presença de compostos orgânicos.
Essas áreas estão próximas à região equatorial do asteroide, que recebe mais radiação solar que os materiais orgânicos encontrados na cratera de Ernutet. Essa exposição prolongada aos raios solares explicaria os sinais mais fracos dessas regiões, que não foram tão facilmente detectáveis quanto a cratera em 2017, e por isso tinham passado despercebidos até agora.
A região com as evidências mais fortes para a presença de materiais orgânicos foi atingida por alguns dos impactos de asteroides mais violentos que Ceres já recebeu, produzindo duas bacias. Com um impacto mais forte, é muito provável que os compostos orgânicos ali venham de pontos mais profundos no planeta anão, subindo para a superfície das bacias.
Se a presença dos compostos orgânicos for confirmada, os cientistas por trás do estudo acreditam que não haverá muitas dúvidas sobre a origem endógena dessas moléculas – e uma chance muito maior do planeta anão ser compatível com processos biológicos.