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Bilhete para o mau cheiro

Pesquisadores franceses empenham-se para acabar com a mistura de odores de esgoto, graxa, borracha queimada e suor de passageiros, que faz do metrô de Paris um ultraje ao olfato.

Fernando Eichenberg, de Paris

Se o rei Luís XIV (1638-1715) ressuscitasse e aparecesse em Paris neste fim de século plebeu, iria se sentir à vontade nas estações do metrô. Pelo menos no que se refere ao ar que se respira ali. A combinação dos cheiros de esgoto, de borracha e de óleo, resultante da operação dos trens e das emanações dos transeuntes, virou um problema de saúde pública na capital francesa. O miasma não fica nada a dever aos incômodos odores, registrados pelos historiadores, que exalavam da corte do Rei Sol – mais chegada a perfumes do que a banhos.

O cheiro do subterrâneo parisiense está muito distante das essências delicadas que enobrecem suas lojas sofisticadas. O problema é velho, vem da década de 30, mas, agora, seu acúmulo está exasperando o nariz de 5 milhões de usuários que passam por ali diariamente. A RATP (sigla para Companhia dos Transportes Parisienses, em francês), empresa estatal responsável pelo metrô, convocou uma cruzada contra o mau cheiro. Investiu 600 000 dólares testando soluções e técnicas que vão desde a aplicação de perfume no chão até a destruição das moléculas odoríferas pelo uso da luz. “As outras tentativas de melhorar o ar do metrô jamais deram certo”, disse à SUPER Madeleine Cheret, chefe do Departamento de Passageiros. “Desta vez, vamos dar cabo do problema.”

A tradição da realeza perfumada

A aversão dos antigos monarcas à salutar combinação de água e sabão tornou-se um estigma na imagem dos franceses, embora eles também sejam os criadores das fragrâncias mais cobiçadas do planeta. A RATP decidiu enfrentar o problema com o mesmo antídoto: aliar tecnologias modernas à perícia dos perfumistas para combater o mau cheiro nos subterrâneos (veja as três soluções nos quadros).

Uma das soluções testadas foi encomendada à indústria Quest de perfumes, que trabalha para a griffe do estilista Thierry Mugler. A empresa produziu uma essência à base de cedro, baunilha, almíscar, flores e frutas cítricas, batizada de Madeleine. Aplicada ao chão, disfarça o bodum por até quinze dias. “Além de durar bastante, o produto tinha de ser compatível quimicamente com a cera”, explicou à SUPER Pierre Muyens, responsável pelo projeto na Quest.

Outros dois sistemas estão sendo testados em áreas fechadas ao público na estação Pyramides. Um utiliza o velho e bom filtro de carvão ativado, o mesmo utilizado nas geladeiras para eliminar odores de alimentos, incompatíveis com a higiene alimentar. O segundo, desenvolvido pela Escola Central de Lyon, utiliza o processo chamado fotocatálise para eliminar, por meio de raios ultravioleta, as moléculas odoríferas.

A RATP também espera, é claro, que os passageiros colaborem. Não apenas evitando jogar lixo ou urinar pelos corredores do metrô, mas também dispensando um pouquinho mais de atenção à sua precária higiene pessoal. Em novembro passado, um levantamento feito pelo instituto de pesquisa Sofres mereceu manchete crítica no jornal Le Figaro: 53% dos franceses não tomam banho todos os dias.

Bem, cheiro é uma questão de gosto. Que o diga o jornalista inglês John Lichfield. Numa crônica publicada no jornal londrino The Independent, em setembro de 1997 – apesar de os ingleses tradicionalmente sempre gozarem os franceses, e vice-versa –, Lichfield elogiou o “maravilhoso odor” do metrô parisiense: “Uma mistura de suor, perfume e borracha queimada que simboliza Paris há gerações, tanto quanto o espetáculo da Torre Eiffel”. Só se for para inglês cheirar.

Do chão para o ar

Cera aromatizada pode ser uma solução.

Um dos sistemas que estão sendo testados para combater o fedor é aplicar um perfume chamado Madeleine – mistura de essências de madeira, flores e frutas cítricas – junto com a cera líquida normalmente passada no chão.

A fragrância, produzida pela empresa Quest, foi escolhida dentre quinze apresentadas a 3 950 usuários do metrô. A cada mês, são gastas 1,5 tonelada de perfume e 10 toneladas de cera. O perfume dura quinze dias. É très chic.

Trilhos malcheirosos

O tamanho do problema.

São 370 estações

201 quilômetros de trilhos

5 milhões de passageiros por dia

557 trens circulando em horas de pico

20 toneladas de lixo recolhidas por dia

A origem do fedor

Os odores são carregados pelo vapor de substâncias fétidas.

Ao se aquecer, o material dos freios dos trens libera ácidos que cheiram a vinagre.

Poças de urina feita por mendigos que moram nos corredores liberam amoníaco.

Os óleos lubrificantes e a graxa dos trens e das escadas rolantes soltam odor de petróleo.

O aroma dos produtos de limpeza se mistura a tudo e piora a situação.

Os passageiros contribuem com suor, perfume e tabaco.

A própria terra libera compostos de enxofre, uma mistura do cheiro de fogos de artifício com o de ovo podre.

De estação em estação

Veja neste mapa do metrô de Paris onde ficam as paradas mais conhecidas.

Saint-Lazare

A mais freqüentada da cidade. Recebe quase 111 000 passageiros a cada dia. Por estar ligada à estação ferroviária de Saint-Lazare, atrai muita gente.

Pyramides

Próxima à Praça Vendôme, a estação recebe, diariamente, mais de 11 200 cidadãos. Aqui estão sendo testadas duas propostas para acabar com o fedor: filtragem do ar e dissolução das moléculas odoríferas pela luz.

Châtelet Les Halles

A estação central do metrô de Paris é uma das maiores e mais movimentadas. Cerca de 39 000 passageiros circulam por seus corredores todo dia. A pior sujeira está nos cantos, usados como banheiro e dormitório.

Louvre

A estação, vizinha ao museu cartão-postal de Paris, é a mais limpa e cheirosa. O número de usuários é de cerca de 8 500 por dia. Os maus odores, aqui, são fracos: só borracha queimada e graxa dos trens.

Como nas geladeiras

Filtros de carvão ativado, instalados nas saídas de ar da estação, peneiram os gases. Veja como eles funcionam.

1. Os odores são carregados por gases que nada mais são que moléculas desprendidas dos materiais, espalhadas pelo ar.

2. O carvão comum, vegetal ou mineral, é composto principalmente de átomos de carbono grudados a moléculas de enxofre e nitrogênio.

3. No carvão ativado, os átomos de carbono não têm nada pendurado. Assim, eles agarram as moléculas dos gases que passam perto.

Armadilha nos cartazes

Veja como a luz acaba com as moléculas do mau cheiro.

1. Os cartazes de propaganda são cobertos por dióxido de titânio – um pó usado para clarear papel e pasta de dente.

2. As moléculas odoríferas que vagam pelo ar se colam ao dióxido de titânio.

3. Quando os raios ultravioleta lançados de lâmpadas especiais batem no cartaz, destroem as moléculas de odor.

4. Quebradas, as moléculas voltam para o ar sem o cheiro produzido pela cadeia completa. O ambiente fica desodorizado.