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Câncer de mama: A sentença é genética

O gene causador dos tumores nos seios foi identificado. Agora, ficou mais fácil prevenir a doença que afeta uma em cada oito mulheres no mundo incidência entre as mulheres do planeta.

Lúcia Helena de Oliveira

Terminou a corrida. No final de setembro, a equipe do professor Mark H. Skolnick, da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, anunciou ter isolado o tão procurado gene do câncer de mama. Doze outras equipes no mundo inteiro buscavam o mesmo feito. Frustaram-se.

Os adversários estão entre aliviados e desapontados com o final de uma perseguição, que durou quatro anos de longas jornadas de trabalho. Alguns cientistas estiveram muito, muito perto mesmo de achar o BRCA 1, como o tal gene vem sendo chamado. Mas só Skolnick, que contou com 44 colaboradores de cinco instituições científicas, chegou lá — reconheceu a porção de DNA culpada por uma doença que atinge uma em cada oito mulheres do mundo. Cinco por cento dessas mulheres cancerosas já nascem com o BRCA 1 defeituoso. Nas 95% restantes, o defeito genético pode aparecer mais tarde, provocado por fatores, como radiação.

A alta incidência explica a enorme força econômica por trás desta pesquisa. A disputa para se isolar o BRCA 1 foi mais acirrada do que a busca de outros genes causadores de doenças. A vitória de Skolnick é, de fato, peculiar. É a primeira vez que se localiza o gene de uma doença comum, possibilitando a criação de testes que poderão ser aplicados amplamente — no caso, para identificar mulheres com alto risco.

Mas eis aí a polêmica também: há três anos, Skolnick fundou uma empresa de Biotecnologia, a Myriad Genetic Inc., que agora ganhou a patente do BRCA 1. Seus pesquisadores já estão empenhados em desenvolver testes para detectar defeitos genéticos.

Muitos cientistas debatem: será certo patentear genes? Mas, segundo Mary-Claire King, professora da Universidade da Califórnia — e uma das principais adversárias de Skolnick nesta grande corrida da Genética —, a polêmica só existe porque o conhecimento do BRCA 1 vai ser usado num enorme número de testes. “Ninguém fez tanto escarcéu quando foram criados testes para doenças raras”, diz ela. “Desta vez, porém, muita gente vai querer fazer o exame genético. A patente é um prêmio justo.”

Os pesquisadores sabiam que o gene associado ao câncer de mama estava em algum lugar na metade inferior do cromossomo 17. Também sabiam que mulheres com mutações nessa região têm 85% de chance de desenvolver a doença.

Uma vez conhecida a vizinhança do gene, tudo o que tinha de ser feito era estreitar a procura, como num funil, para chegar a seu endereço em particular. Era preciso vasculhar uma molécula de DNA com milhões de subunidades — os chamados pares de base. Eis a questão: qual grupo de pares, formando um gene, seria o famoso BRCA 1?

O único jeito de responder era examinar amostras do sangue de pessoas pertencentes a famílias com grande incidência de câncer. Era preciso perceber padrões anormais, ou seja, de pedaços de DNA, extraídos das células sangüíneas, com alguma combinação diferente em relação à população saudável.

Portanto, cada vez que identificavam um desses padrões anormais, os pesquisadores precisam verificar se ele não se repetia em pessoas sadias da mesma família. Porque, se repetisse, era sinal de que aquela suposta anormalidade representava uma mera característica familiar e não uma ameaça de câncer.

Foi em julho que a equipe de Skolnick desconfiou que tinha encontrado a parte certa. Seu grande trunfo, dizem, foi estudar os casos de certas famílias mórmons, incrivelmente grandes, habitantes do Estado de Utah. Em algumas delas, chegavam a existir quarenta mulheres com câncer de mama.

Num futuro próximo, qualquer mulher poderá saber se carrega ou não o BRCA 1 com um simples exame de sangue. Filhas, irmãs e sobrinhas de pacientes de câncer de mama podem ter interesse em descobrir isso.

Mas, infelizmente, nos casos de resultado positivo, tudo o que a pessoa tem a fazer é aumentar a freqüência dos exames de mamografia, para controlar a sua saúde. Existem, claro, soluções mais radicais, como a amputação preventiva dos seios, que causa muita polêmica, e o uso de drogas experimentais como o tamoxifeno, que parece impedir o crescimento dos tumores. Nada disso garante evitar o câncer. Ao menos, por enquanto.

“A partir do melhor conhecimento do gene BRCA 1 devem aparecer testes capazes de detectar células da mama que já estejam doentes”, prevê, otimista, o médico Edison Mantovani Barbosa, presidente da regional paulista da Sociedade Brasileira de Mastologia. “A importância disso é inegável, pois hoje a mamografia só consegue flagrar tumores com mais de 1 centímetro de diâmetro.” De fato, para chegar nesse tamanho o câncer leva quase uma década. Portanto, só testes com marcadores genéticos é que farão um diagnóstico precoce ao pé da letra.

“Também é fundamental saber o que é capaz de ativar esse gene. Será radiação? Serão hormônios?”, pergunta Mantovani Barbosa. Nesse sentido, os mesmos treze laboratórios que participaram da corrida atrás do BRCA 1 estão trabalhando duro. Pois na ciência é quase sempre assim: quando se resolve uma questão, surgem outras dez.

Os cientistas querem saber como o gene BRCA 1 trabalha em condições normais, quais tipos de mutação pode sofrer e, entre elas, quais estariam mais relacionadas com tumores de mama — já que o mesmo gene é suspeito de causar câncer de ovário. E o mais importante: eles se perguntam que tipo de droga poderia reverter o efeito da mutação, resultando na cura da doença.

O BRCA 1 causa o câncer no seio. Mas pode não ser o único responsável pela doença. Recentemente, instituições inglesas apontaram um segundo provável envolvido, já batizado de BRCA 2. O problema é que ninguém sabe exatamente onde ele fica. Uma nova corrida começa.

 

Para saber mais:

Um gene contra o câncer (SUPER número 7, ano 3)

Boas novas sobre o câncer (SUPER número 7, ano 7)

 

O descobridor

Mark Skolnick é formado em Matemática, tem 48 anos e especializou-se no uso de computadores em Medicina. Daí para o estudo dos genes foi um passo. Há quinze anos, ajudou a inventar a técnica dos testes genéticos e, desde então, migrou de um projeto de pesquisa para outro, sem parar. Recentemente, descobriu um gene relacionado ao melanoma, o mais terrível dos cânceres de pele. Mas, sem dúvida,a sua maior vitória foi ter encontrado uma porção de DNA responsável por tumores nos seios. Afinal, é a primeira vez que alguém localiza o gene de uma doença com grande incidência no mundo inteiro.

 

A precursora

Mary-Claire King é geneticista da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Em 1990, ela provou que o gene do câncer de mama estava em algum lugar do cromossomo 17. Fez isso, demonstrando que existiam alterações nesse cromossomo em centenas de pacientes com câncer no seio e nos ovários — algumas dessas mulheres apresentavam os dois tumores ao mesmo tempo. A partir daí, a cientista não cansou de procurar o gene culpado. Mesmo sem encontrar o seu endereço exato, é reconhecida pelo mérito de Ter lançado a corrida atrás do BRCA 1.

 

Perfil do tumor que mais atinge as mulheres

Números americanos

Nos Estados Unidos, a cada 3 minutos é detectado um tumor de mama. Só lá, são 180 000 novos casos por ano.

 

Números brasileiros

No Brasil, a cada 24 minutos surge uma paciente com esse tipo de câncer. Só aqui, são 22 000 novos casos por ano.

 

Sinais de alarme

Aparecimento de nódulos nos seios e alterações que persistam, tais como inchaço ou retração das mamas ou mesmo irritações na pele ao seu redor.

 

Fatores de risco

A probabilidade de desenvolver a doença aumenta com a idade, principalmente quando existem outros episódios na família. Mulheres que entraram na menopausa com mais de 50 anos de idade ou que nunca tiveram filhos também têm mais chance de adoecer.

 

Prevenção

A partir dos 20 anos, as mulheres devem se auto-examinar, palpando as mamas à procura de nódulos, uma vez por mês, na primeira semana após o fim da menstruação. Depois dos 40 anos, é preciso fazer um exame de mamografia todo ano.

 

Tratamento

Quando é pequeno, o tumor pode ser isolado e arrancado numa cirurgia. Tumores maiores, porém, exigem a retirada de boa parte ou de toda a mama, que pode ser reconstituída numa plástica, mais tarde. De qualquer modo, essas operações são combinadas com rádio e quimioterapia.

 

Sobrevivência

Nos últimos quarenta anos, a incidência de cura subiu de 78% para 93%, quando o diagnóstico é feito nos estágios iniciais.

 

O seguidor

O geneticista britânico Simon Smith, do Grupo de Pesquisa de Genética do Câncer, em Cambridge, na Inglaterra, é um dos responsáveis pela descoberta de um segundo gene envolvido com o câncer de mama. O chamado BRCA 2 também está no cromossomo 17, como indicam os fragmentos de DNA. Resta saber em que ponto o segundo gene estaria.