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Cérebro em caixinha

O projeto que quer recriar o mecanismo da mente humana em um supercomputador

Reinaldo José Lopes

O mais perto que a ciência já chegou de reproduzir o cérebro humano está em algumas caixas, do tamanho de 4 geladeiras, em uma sala na Suíça. É o Blue Brain, um projeto que pretende recriar nossos neurônios em um supercomputador. Na verdade, o objetivo inicial é mais modesto, embora não muito: os pesquisadores da Escola Politécnica Federal de Lausanne, Suíça, e da IBM querem atacar, a princípio, o neocórtex – área que corresponde a 85% do cérebro em humanos. Ao que tudo indica, é onde estão funções “nobres” como a percepção, a linguagem e a consciência. Se funcionar, o projeto – cuja primeira fase deve estar concluída em 2 ou 3 anos – deve dar aos cientistas a plataforma ideal para entender como os neurônios interagem e criam essas funções.

“Até então, um projeto desses simplesmente não era viável”, afirma o engenheiro elétrico Charles Peck, diretor do programa de pesquisa em neurocomputação da IBM. Segundo ele, a capacidade de cálculo dos computadores modernos finalmente alcançou um nível em que esse tipo de simulação deixou de ser só ficção científica.

De fato, o mero poder computacional da coisa é de entortar os olhos. Calcula-se que ele terá um poder de cálculo de 22,8 teraflops – os mais modernos computadores de mesa, só para comparar, dispõem apenas de alguns gigaflops, o que quer dizer que o Blue Brain será cerca de 10 mil vezes mais potente que eles.

O primeiro passo da equipe será a simulação das chamadas colunas neocorticais. Nome difícil, conceito simples: são cilindros, com cerca de 10 mil neurônios e uns 2 mm de altura, que parecem funcionar como unidades de processamento de algumas funções do cérebro – ligados aos sentidos ou à abstração, por exemplo. “A vantagem é que nós temos os dados de laboratório mais detalhados do mundo sobre essas colunas. O pessoal de Lausanne tem estudado há anos a estrutura, os diferentes tipos de neurônios e as conexões existentes entre eles nessas estruturas”, diz Peck. Para todos os efeitos, a “conversa” entre os neurônios acontece por meio de impulsos elétricos, que circulam com a ajuda de mensageiros químicos, os neurotransmissores. Os pesquisadores pretendem simular esse vai-e-vem, bem como a complexa rede que interconecta as células, que é parecida com os galhos ou raízes de uma árvore. Depois que a primeira coluna ficar pronta, as demais serão baseadas nela. Depois, experimentos virtuais, como “estimular” o cérebro eletrônico com o equivalente de uma imagem ou sensação, poderão ser feitos. Peck diz não acreditar que o conjunto, quando estiver pronto, terá uma inteligência independente. “Mas nós certamente conseguiremos aprender muito sobre as funções mais nobres do cérebro com ele”, afirma.