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Curadora , Elisabeth Ward

A curadora da maior exposição já realizada sobre os vikings revela novidades a respeito desse povo que era pirata e negociante, agricultor e navegante, civilizado e bárbaro

Angela Pimenta

Dos antigos gregos, a cultura ocidental se orgulha de ter herdado a filosofia, a arquitetura, os princípios democráticos. Dos romanos, o direito, a arte, a culinária. E dos vikings, os antigos habitantes da Escandinávia? Se você lembrou apenas do capacete com dois chifres que até hoje é usado por alguns torcedores suecos em jogos da Copa do Mundo, está profundamente enganado. “Os vikings jamais usaram esses capacetes”, afirma Elisabeth Ward, curadora-assistente da exposição “A Saga do Atlântico Norte”, a maior já realizada sobre os vikings nos Estados Unidos, que terminou no final do mês passado. “Foram os figurinistas da ópera Brunhilda, do compositor Richard Wagner, que, no século XIX, resolveram vestir os cantores com esses capacetes. Vai saber por quê…”

Essa é apenas uma das curiosidades da mostra, que atraiu mais de 2 milhões de pessoas para os museus de História Natural de Nova York e de Washington. A exposição, que custou mais de 3 milhões de dólares, revela que os temidos povos do Norte da Europa foram muito mais do que os “bárbaros” que aterrorizaram a vida dos europeus na Idade Média. A maioria deles não passava de agricultores e comerciantes. E há até a suspeita de que Cristóvão Colombo tenha partido rumo à América atiçado por informações obtidas, em fevereiro de 1477, em uma colônia de descendentes vikings na Islândia.

Enquanto se preparava para levar a exposição para outros seis Estados americanos, Elisabeth Ward falou à Super sobre o legado que os vikings deixaram ao Ocidente, incluindo invenções navais, descobertas geográficas e até instituições de governo.

Super – Por que os vikings eram tão temidos pelos europeus?

Principalmente porque não tinham nenhum tabu religioso, como os europeus tinham, em atacar igrejas. Um exército francês jamais atacaria um monastério inglês e vice-versa. Já para os vikings, que não eram cristãos, conventos eram alvos óbvios: geralmente estavam cheios de comida, dinheiro e relíquias preciosas. O desrespeito aos templos cristãos explica por que os vikings foram demonizados durante tantos séculos pelos europeus.

Durante as batalhas, eles não eram mais cruéis que os guerreiros romanos ou chineses?

Os vikings eram, de fato, violentos. Provavelmente num grau de violência igual ao dos romanos, talvez com poucas diferenças. Mas não eram adeptos da tortura, por exemplo. Tortura, como se sabe, era uma ferramenta de uso essencialmente político dos reis europeus e da Igreja. Já os vikings eram piratas pragmáticos: chegavam, atacavam, partiam e voltavam, quando se interessavam pelo lugar. Numa guerra, preferiam a morte rápida do inimigo, no fio da espada, a golpes de machado. Como faziam parte de uma cultura de tribos nômades e autônomas, cujo poder político era pulverizado, estavam mais interessados na pilhagem (e na morte, se preciso) do inimigo do que no domínio político a longo prazo. Mas é verdade que o uso da violência não era uma prática condenável para a cultura viking. As sagas (poemas épicos vikings) descrevem o Valhala, a casa dos mortos, como uma espécie de fazenda, com todo o luxo possível para a época. Nesse paraíso nórdico, os mortos passariam a eternidade guerreando, como se suas lutas fossem uma espécie de hobby.

Quais eram as armas mais cruéis e as táticas de guerra dos vikings?

Ao contrário do que se pensa, o grande trunfo tecnológico deles não eram os machados e tampouco as espadas. Aliás, as armas vikings eram muito semelhantes às européias. A grande invenção bélica dos vikings estava na tecnologia de seus barcos, os knorr. Eles eram máquinas de guerra formidáveis: rápidos, ágeis e compactos, navegavam tanto em mar revolto quanto em águas rasas. Com eles, os vikings introduziram o fator surpresa nas batalhas européias. Foi assim que eles inventaram o ataque fulminante, mais tarde batizado de blitzkrieg pelos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial.

Como funcionava o Thing, o parlamento inventado pelos vikings?

O Thing foi a primeira oligarquia democrática no Ocidente depois do Senado romano. Além da própria Noruega, foi adotado com êxito na Islândia no século X. Funcionava da seguinte maneira: cada aldeia agrícola apontava o seu representante, que era escolhido com base na reputação moral e na capacidade de liderança. No verão, durante duas semanas consecutivas, os líderes se reuniam numa espécie de assembléia geral que se dedicava sobretudo a resolver questões de litígio entre vizinhos pela posse da terra. As leis não eram escritas, mas preservadas oralmente. O Thing era apenas um poder consultivo; não dispunha de um exército para fazer valer sua vontade. Mesmo assim, na maioria das vezes os vikings acatavam as resoluções do Thing, que eram respaldadas pela vontade popular.

É verdade que mulher na sociedade viking tinha mais autonomia do que as européias?

Os vikings eram polígamos. Mas a primeira-esposa da tribo tinha um papel social importante na comunidade. Quando o marido, que era o chefe da aldeia, viajava, era ela quem comandava a casa, cuidando também de outros aspectos importantes da vida da comunidade – incluindo o controle das finanças e da colheita. Na prática, isso significa que a primeira-esposa mandava nos outros homens da aldeia. Esse poder era simbolizado por um chaveiro que ela trazia na cintura. Outra coisa interessante é que, ao contrário da sociedade européia, a sociedade viking não tinha nenhum tipo de tabu quanto à virgindade da mulher, que podia ter vários parceiros sexuais. E os filhos nascidos fora do casamento (muito comum entre eles) não sofriam o preconceito que os bastardos sofriam na Europa.

O que ainda falta descobrir sobre o cotidiano dos vikings?

Na Dinamarca, prosseguem escavações dos barcos usados como túmulos, para que se tenha uma visão mais precisa do seu dia-a-dia. Os chefes vikings eram enterrados com todos os utensílios: comidas, animais e até servos e concubinas vivas, que sacrificavam a vida pelo conforto do chefe em sua suposta eternidade. Em Dublin, os cientistas tentam saber qual o exato papel da cidade (fundada pelos vikings) para suas rotas de comércio na Europa, na América e em terras que hoje pertencem ao Iraque. Na Rússia, em Staraja Ladoga, perto de Kiev, um cemitério viking pode revelar novidades interessantes sobre suas práticas comerciais e também em que grau eles se miscigenaram com os russos.

E sobre a presença deles na América…

Apesar das grandes descobertas dos últimos 40 anos, como a da aldeia viking L’Anse aux Meadows, em 1960, na costa leste do Canadá, muitos mistérios ainda precisam ser decifrados. Não sabemos, por exemplo, por que os cerca de 50 nórdicos que chegaram lá no século XI foram embora depois de dez anos de assentamento. Na Groenlândia, onde chegaram no século X, as comunidades vikings duraram quase 400 anos. Outra questão importante é descobrir o tipo de relação que os vikings estabeleceram com os inuit, o povo nativo da América do Norte. Se ficar provado que os vikings faziam comércio com os inuit – e há fortes indícios disso –, então a história da região terá que ser reescrita. Finalmente, falta esclarecer por que os vikings acabaram deixando a Groenlândia depois de mais de três séculos de ocupação. Tudo indica que um resfriamento dramático no clima acabou levando-os de volta à Islândia e à Europa, mas os cientistas não chegaram a nenhuma conclusão a respeito.

Existe alguma evidência da presença dos vikings na América do Sul, mais precisamente no Brasil?

Não. Nos anos 70, foi noticiada a descoberta de inscrições rúnicas (o alfabeto viking) no Brasil, mas nada de mais consistente ainda ficou provado a respeito disso até agora.

Frase

Os vikings foram demonizados porque não tinham nenhum tabu religioso em atacar igrejas