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Descoberto novo hominídio: Homo longi, o “homem-dragão”

Crânio de 146 mil anos encontrado em 1933 acaba de ganhar uma nova análise – que o coloca, junto de neandertais e denisovanos, como um dos mais recentes membros do gênero Homo a coexistir com o sapiens.

Por Bruno Vaiano Atualizado em 26 jun 2021, 08h39 - Publicado em 26 jun 2021, 08h24

A evolução humana não tem nada a ver com a imagem clichê da escadinha: um chimpanzé se tornando um Homo sapiens por meio de passos graduais e sucessivos, que levam diretamente do ponto A ao ponto B.

Na verdade, a evolução biológica de qualquer espécie se assemelha ao crescimento de mais um galho em uma árvore já existente. E uma ótima ilustração disso é que houve dezenas de espécies do gênero Homo antes do Homo sapiens.

Algumas delas foram de fato nossas ancestrais. Outras evoluíram em paralelo e conviveram conosco. E algumas fizeram as duas coisas. Por exemplo: o H. sapiens atual descende de uma espécie chamada Homo erectus. Mas os H. erectus não deixaram de existir quando nossa linhagem se ramificou da deles.

Na verdade, H. sapiens já praticamente idênticos a nós provavelmente conviveram com os baixinhos H. erectus por milhares de anos. Assim como interagiram (e se reproduziriam) com os homens de Neandertal e Denisova, que já eram muito parecidos conosco.

Uma nova análise de um achado antigo – um crânio encontrado em 1933 durante a construção de uma ponte na cidade de Harbin, nordeste da China – propõe que o osso de no mínimo 146 mil anos pertecenceu a uma nova espécie do gênero Homo chamada Homo longi, e apelidada de “homem-dragão”. 

A pesquisa saiu em três artigos no periódico especializado The Innovation e é assinada por paleonantropólogos da Universidade Hebei GEO na China em parceria com colaboradores de outros países.

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De dragão o tal homem não tem nada, mas seria meio monótono apelidá-lo de homem de Harbin, como se fez com os neandertais e denisovanos. Ele tudo tudo a ver com os dois, diga-se:

O solo de Harbin que abrigava o fóssil foi datado em algo entre 309 mil e 138 mil anos, justamente a época da irradiação de espécies mais recentes do gênero Homo. Havia nós na África, os neandertais na Europa e os denisovanos no leste e sudeste da Ásia. Haveria resquícios do genoma de Homo longi no genoma dos humanos modernos, como ocorre com os outros dois?

Outra possibilidade é que o crânio do Homo longi na verdade pertença a um denisovano. É impossível saber sem coleta e análise de DNA, porque não fazemos a menor ideia de qual cara tinham nossos parentes asiáticos. Os conhecemos por meio de pequenos fragmentos de ossos (o maior deles é um pedaço de mandíbula encontrada no Tibete), insuficientes para traçar qualquer conclusão sólida sobre sua anatomia.

De resto, toda a informação disponível sobre os denisovanos provém do sequenciamento de fragmentos de DNA preservados extraídos não só dos ossos em si mas também do solo de duas cavernas em que esses hominídeos viveram. (Entenda melhor na nossa reportagem especial.)

Na Folha, os pesquisadores explicaram ao jornalista Reinaldo José Lopes que só teremos um retrato fiel dos denisovanos quando encontrarmos um crânio com DNA preservado que possa ser indiscutivelmente atribuído à espécie. A evidência genética precisa ver no mesmo pacote do fóssil.

Caso o homem dragão seja mesmo uma espécie diferente, então ele é a mais próxima de nós do ponto de vista morfológico, na frente inclusive dos neandertais. Em linhas gerais, o Homo longi se destaca pelo cabeção (seu crânio, mais baixo e achatado, tinha volume superior ao do sapiens), os molares grandes (que são uma característica típica de diversos hominídeos) e um toro supraorbital (nome dos arcos sobre as sobrancelhas) bastante avantajado.

Em resumo, tinha menos carinha de criança do que o sapiens, ainda que já fosse bastante semelhante. Dá só uma olhada na reconstituição proposta pelo estudo:

Reconstituição do Homo longi feita por Chuang Zhao.
Reconstituição do Homo longi feita por Chuang Zhao. Innovation DOI: (10.1016/j.xinn.2021.100130)/Reprodução
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