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Discografia selecionada

João Penca & Seus Miquinhos Amestrados – Okay, My Gay – BMG – 1986

Este disco é um símbolo da primeira me-tade dos anos 80 no Brasil: rock ensolarado, adolescentizado e algo desmiolado. E muito legítimo. Os Miquinhos eram uma turma de amigos de bairro que se meteu a fazer música, bebendo no rock nacional pré-jovem guarda, Erasmo Carlos, surf rock e temáticas típicas daqueles filmes colegiais americanos. E, em seus primeiros discos, a banda deixava-se tingir por cores new wave que lhes imprimia ainda mais personalidade. É de Okay, My Gay alguns dos maiores hits do grupo, como “Popstar” e “Lágrimas de Crocodilo”. Apesar da boa execução em rádio (e das impagáveis aparições televisivas), o disco vendeu pouco, o que rendeu ainda mais galhofa: os Miquinhos produziram seu próprio disco de ouro e saíram com ele fazendo festa em mais programas de TV.

Lulu Santos – O Ritmo do Momento – WEA – 1983

Foi preciso que isso fosse dito por um superguitarrista, ex-progressivóide, discípulo de Sérgio Dias, para que o Brasil escutasse: pop não é pecado. Pelo contrário, é preciso plenos domínios de seu ofício e de todos os detalhes do processo de comunicação para que o pop se estabeleça totalmente. Em seu segundo LP, Lulu estabeleceu as diretrizes do pop da década de 80. Produzido pelo Liminha, usou refrãos poderosos e influências new wave. Puxado pelo sucesso “Zen Surfismo (Como uma Onda)”, Lulu conseguiu.

Blitz – As Aventuras da Blitz – EMI – 1982

As simplificações (do gênero “a Blitz começou tudo”) são bem perigosas. Neste primeiro álbum, dá para notar muito de Rita Lee, A Cor do Som, Gang 90… Mas não dá pra negar o frescor absoluto que emana de faixas como “Mais uma de Amor (Geme Geme)” ou o clássico “Você Não Soube Me Amar”. Repleta de informações de histórias em quadrinhos, televisão, teatro, cultura de rua e moda, a Blitz ficou tão colada a seu tempo que é difícil ouvi-la hoje em dia sem se lembrar do verão de 1982. São os revezes de se tornar um ícone…

Ritchie – Vôo de Coração – CBS – 1983

Parceiro de Lulu nos tempos de Vímana, Ritchie chegou ao mundo do disco já desacreditando de seu futuro. Fez Vôo de Coração por prazer e se tornou “o rei do rock brasileiro”, como dizia Chacrinha. “Menina Veneno” foi um dos maiores hits da década e apresentou ao público local os sons sintetizados, o tecnopop e o calor romântico que pode partir de temáticas robóticas. O inglês tornou-se o maior ídolo do ano de 1984 e emplacou outras pepitas como “Casanova” e “A Vida Tem Dessas Coisas”, surpreendendo a si mesmo.

LÍngua de Trapo – LÍngua de Trapo – Lira Paulistana – 1982

Entre os universitários paulistanos que formaram a chamada “vanguarda paulistana”, o Língua de Trapo era o menos ambicioso artisticamente, o mais diverso musicalmente, o mais caótico e o mais roqueiro. Antenado com o universo à sua volta (sindicalismo, anistia, movimento estudantil etc.), o grupo forjou uma bomba atômica de humor que não poupava nem a si próprio. Ao vivo, gemas como “Concheta” e “Vampiro S.A.” viravam verdadeiros acontecimentos.

Barão Vermelho – Maior Abandonado – Som Livre – 1983

Apesar da simpatia da mídia e do apoio dos veículos das Organizações Globo, o Barão Vermelho passou mais de dois anos como uma “eterna promessa”. Em seu terceiro álbum, Maior Abandonado, finalmente o grande público percebeu que havia simpatia naquele rock setentão e, mais do que tudo, havia modernidade por meio da poesia de Cazuza. Produção caprichada, apelo pop e um desleixo na medida levaram a banda aos palcos do Rock in Rio e à primeira divisão do rock nacional (coisa que, aliás, só passou a existir ali).

Eduardo Dusek – Cantando no Banheiro – Polygram – 1982

Planejado original-mente como um álbum conjunto entre o compositor cult Eduardo Dusek e os moleques endiabrados do João Penca & Seus Miquinhos Amestrados, os novatos acabaram “limados” dos créditos, mas não do disco. Maravilhas como “Rock da Cachorra” (dos versos “troque seu cachorro por uma criança pobre”) e “Barrados no Baile” traziam a ironia inteligente de Dusek e a absoluta falta de limites dos garotos. O álbum revelou o compositor Leo Jaime e fez grande sucesso radiofônico.

Lobão e Os Ronaldos – Ronaldo Foi pra Guerra – RCA – 1984

Atualmente mais conhecido como polemista, Lobão já teve seus tempos de (excelente) artista pop. Secundado pelo grupo Os Ronaldos (que depois o demitiria), Lobão cometeu o disco mais new wave da nossa new wave. O disco abre com a impressionante “Corações Psicodélicos” e chega ao auge com “Me Chama”. Marca também o início da luta de Lobão pela numeração das tiragens de disco – quando suspeitou que o LP teria vendido muito mais do que o alegado pela companhia. Histórico em vários sentidos.

Inocentes – Miséria e Fome – Independente – 1983

Autofinanciado, este deveria ser o primeiro LP-solo de uma banda punk da América Latina. Mas a Censura, sempre zelosa com os cidadãos brasileiros, vetou nove das 13 canções e apenas um EP foi extraído das gravações em 1983. As fitas foram engavetadas e só viram a luz do dia em CD, na década de 90. Finezas como “Torturas, Medo e Repressão” e “Maldita Polícia” são o melhor retrato dos tempos de punk grassando pela periferia de São Paulo. Ingênuo e possante, como todo o rock’n’roll foi um dia.

Kid Abelha – Seu Espião – WEA – 1984

Tido como um grupo “menor” em sua época, o Kid Abelha cruzou a década de 80 (e os anos seguintes) só fazendo valorizar sua obra. Seu Espião, a estréia do grupo, produzido por Liminha, ganhou contornos antológicos pela quantidade de canções que acabaram grudadas na memória afetiva do brasileiro: “Como Eu Quero”, “Pintura Íntima”, “Nada Tanto Assim”, “Fixação”… Parece até uma coletânea de grandes sucessos, mas era só um grupo de quatro adolescentes cariocas fazendo música para matar o tempo.

Paralamas do Sucesso – O Passo do Lui – EMI – 1984

Assimilando as lições de simplicidade formal do punk, os grupos de new wave partiram para rumos diversos. Os brasilienses do Paralamas do Sucesso tomaram a trilha do ska (a mesma de grupos estrangeiros como Police e Selecter). Guitarra, baixo e bateria costurando uma cama muito esparsa e ao mesmo tempo poderosa, em que sobressaía a melodia de canções como “Meu Erro”, “Óculos”, “Me Liga” e outras que transformaram esse segundo álbum em trampolim para o estrelato.

Legião Urbana – Dois – EMI – 1986

Assustadora é a evolução da banda, dos três acordes de sua vigorosa estréia (homônima, do ano anterior), para Dois. Renato evolui como letrista (“Acrilic on Canvas”), a banda evolui musicalmente (“Andrea Doria”) e, mais interessante, o grupo começa a usar de suas virtudes para comprar sua própria imagem pública. Dois é muito pop (“Eduardo e Mônica” puxou todo o álbum), mas é muito inteligente. E, quase vinte anos depois, tem um atrativo extra: é o disco da Legião que tem o maior número de músicas boas que não tocaram em rádio.

Titãs – Cabeça Dinossauro – WEA – 1986

O polvo se esperneia: ninguém sabia o que poderia acontecer com os Titãs, sob a pecha de drogados, de fracassados, de in-compreendidos. Mas veio Cabeça Dinossauro, sem a menor pretensão, e o milagre se fez. Um trabalho radical, feito sem perspectiva e pressão de mercado, por uma banda apressada e arisca vivendo tempos estranhos. O alto nível não cai em nenhum momento, de “Homem Primata” a “Polícia” a “Bichos Escrotos” a “Aa Uu”. A turnê (com seu cenário com peles de animais) foi outro marco.

Leo Jaime – Sessão da Tarde – CBS – 1985

Leo Jaime era goiano, pobre, teve infância difícil e tentou de tudo antes de se estabelecer profissionalmente no Rio de Janeiro. Impressionante é que tenha conseguido condensar todo o sentimento de inadequação em dez faixas que combinem violência e doçura como antes só Erasmo Carlos (a quem o disco é dedicado) conseguiu fazer. “A Vida Não Presta”, “O Pobre” e “Só” exorcizavam os fantasmas do cantor (em improvável clima de humor e alto-astral) num disco que continua tão atual quanto em 1985

Ira! – Vivendo e Não Aprendendo – WEA – 1986

Tidos como “suburbanos” pelos filhinhos de papai do rock brasileiro, a lógica operária do Ira!, cruzada com sua sofisticada ambição musical, produziu um testamento de ideais vitalícios em forma de disco. Estão lá valores como a superação (“Flores em Você”), a amizade (“Nas Ruas”), a incorruptibilidade (“Vitrine Viva”) emoldurados em canções redondas, poéticas como num sonho de infância. É o auge do romantismo da banda, que, dali a pouco, partiria para caminhos mais pesados e/ou experimentais.

Violeta de Outono – Violeta de Outono – BMG – 1987

Bandas retrô, os anos 80 tiveram aos montes (Plasticland, Chamaleons), mas, nem lá fora, alguém tentou o que o Vi-oleta de Outono conseguiu: fazer rock progressivo, de fortes texturas psicodélicas e climas etéreos sem que isso deixasse de parecer totalmente integrado aos anos 80. A banda partiu do cenário underground da época, triangulou com outra grande banda de influência sessentista da cidade (o Ira!) e chegou até a fazer alguns sucessos de rádio, como “Declínio de Maio” e “Dia Eterno”.

Ultraje a Rigor – Nós Vamos Invadir Sua Praia – WEA – 1985

Seria o melhor disco de estréia de todos os tempos? Grandes músicas (“Inútil”, “Eu me Amo”, “Rebelde Sem Causa”, “Ciúme”…), produção esmerada de Pena Schmidt e Liminha, uma banda afiada após meses e meses de shows quase diários nas danceterias e um clima de “já ganhou” utilizado a favor. Foi o primeiro trabalho paulista a ser “adotado” pela cena carioca (o título, jocosamente, dizia respeito a essa barreira) e pavimentou o caminho para um circuito nacional. O humor a serviço da seriedade.

Plebe Rude – O Concreto já Rachou – EMI – 1986

Durante o surto consumista do Pla-no Real, a EMI inventou o formato do mini-LP, um disco de 12 polegadas e apenas sete músicas. O resultado é que este, que poderia ser o melhor álbum do rock brasileiro dos anos 80, transformou-se em um supercompactão de difícil assimilação. O repertório é abençoado: as heranças punk da banda são filtradas por sons mais contemporâneos e servem de fundo para ácidas críticas (entoadas em belos arranjos de vozes), como em “Minha Renda” e “Até Quando Esperar”.

Engenheiros do Hawaii – A Revolta dos Dândis – BMG – 1987

Surgidos numa certa onda de ska, o segundo álbum dos gaúchos dos Engenheiros do Hawaii flagram a descoberta dos sons acústicos e dylanescos. Humberto Gessinger apenas iniciava o segundo caso mais forte de empatia entre fã e ídolo do nosso rock (atrás apenas da Legião Urbana) e cometia o disco mais “aberto” (“palatável” diriam alguns) de sua carreira. Músicas simples e fluidas conduzidas ao violão. Uma gaitinha aqui, um baixo possante acolá e muito clima de cumplicidade nas canções.

RPM – Rádio Pirata ao Vivo – CBS – 1986

Tido como um erro de condução de carreira (de fato, um segundo disco ao vivo com praticamente as mesmas músicas da estréia é algo raro de se ver por aí), Rádio Pirata ao Vivo é a versão mais musculosa, bem-acabada e energizada do melhor do álbum de estréia da banda (Revoluções por Minuto), acrescida de instantâneos daquele momento em que, pensávamos, tínhamos nossa própria “maior banda de rock do mundo”. Esse disco tocou e vendeu tanto que acabou com cara de has been. Deixe de fricote e ouça: a música fala mais alto.

Camisa de Vênus – Viva – RGE – 1986

De todas as bandas da época, o Camisa era a que tinha a tradição dos shows mais “catárticos”. Banda e público formavam uma só massa suada de guitarras porcas e melodias simples e cuspidas. Viva foi gravado apenas para cumprir contrato, mas acabou fazendo mais sucesso do que os discos de estúdio por causa da fanfarrona “Sílvia”. A sinergia entre o grupo e sua platéia é tanta que em “O Adventista” o público altera a letra instintivamente, enquanto Marcelo Nova entoa o pai-nosso. É tão intenso que dá medo.

Cazuza – O Tempo Não Pára – Polygram – 1988

O mito posterior apregoa que a música de Cazuza desvendara os caminhos do grande público. É claro que sua imagem (e sua postura de vida) chegaram antes. Mas, basta uma ouvida em O Tempo Não Pára para notar que as coisas eram mesmo indissociáveis: o repertório do cantor deixava os temas amorosos dos tempos do Barão e ganhava carga dramática dilacerante. “O Tempo Não Pára”, o hit do disco, é de uma crueldade de fazer chorar e “Vida Louca Vida” faz pensar por muito e muito tempo.

Paralamas do Sucesso – Selvagem? – WEA – 1986

A coisa mais rock’n’roll que existe no rock’n’roll é a auto-implosão. Pois os Paralamas, que serviram de porta de entrada para várias bandas de sua geração, foram os primeiros a querer sabotar o rock brasileiro dos anos 80. Selvagem? vai radicalmente contra a superprodução, o estilo, o glamour que se criava na época e parte para repensar as conexões entre as manifestações mais locais e os nascentes conceitos de world music e reggae. A pulga lançada pelo trio não sairia de trás de nossas orelhas por pelo menos dez anos.

Titãs – Õ Blésq Blom – WEA – 1989

Eles, que sempre quiseram/tentaram fazer música sem amarras ou limites de qualquer natureza, tiveram de optar por um foco em Cabeça Dinossauro, só para explodir nos cinco sentidos logo depois. Com acachapante trabalho de engenharia de som, Õ Blésq Blom prevê muito do rock dos anos 90, flerta com a eletrônica, não esquece do rock e traz alguns dos melhores achados poéticos da banda: a inteligência mordaz de “Miséria” e a sagacidade mórbida de “O Pulso”. Eis o mais abrangente e verdadeiro retrato dos Titãs.

Ratos de Porão – Brasil – Roadrunner – 1990

Se os Ratos de Porão nunca tivessem existido, talvez o punk brasileiro fosse exatamente igual. Entretanto, o heavy metal seria radicalmente outro. Influência capital do som do Sepultura, os Ratos recebem de volta as lições em Brasil. Pesado, rápido e bem gravado (características metálicas), desbocado, politizado e com postura combativa (vinda do punk). A mistura fez história e rendeu clássicos para os dois gêneros como “Aids, Pop Repressão” (este, flertando até com o rap), “Plano Furado” e “Amazônia Nunca Mais”.