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Do trevo à ferradura: por que o seu cérebro insiste em ser supersticioso?

O futuro é imprevisível. E isso dá agonia. O psicólogo Stuart Vyse explica à SUPER como o desejo de ordenar o mundo viciou o ser humano em medos bobos e pequenos rituais.

Stuart Vyse foi chefe do departamento de psicologia da Universidade de Rhode Island, e é autor de dois livros sobre psicologia para o público geral – ambos sem tradução para o português: Believing in magic: the psychology of superstition (“Acreditando em magia: a psicologia da superstição”) e Going broke: why Americans (still) can’t hold on to their money (“Falindo: por que os Americanos (ainda) não conseguem guardar dinheiro”). Ele veio ao Brasil a convite do Instituto Questão de Ciência, e recebeu a SUPER no hotel em que estava hospedado no bairro de Pinheiros, em São Paulo capital. Conversamos sobre superstição, religião, evolução e teorias da conspiração. 

Qual é a diferença entre superstição e religião?

Existem maneiras diferentes de pensar sobre o assunto. Mas eu entendo que religião é baseada na fé [e a fé está fora do alcance do método científico]. Já a superstição está em diretamente conflito com a ciência. Antes do iluminismo, as pessoas chamavam as religiões dos outros de superstição. Do Iluminismo em diante, as superstições passaram a ser entendidas como crenças inconsistentes com a ciência. 

Para mim, superstição é algo que não bate com o que é observável mundo natural. É uma afirmação que nós podemos determinar se é verdadeira ou não por meio de testes. Se as evidências coletadas nos testes não sustentarem a afirmação, então é uma superstição. 

Muitas ideias religiosas, por outro lado, são impossíveis de testar. A própria ideia básica de que existe alguma espécie de divindade em algum lugar é normalmente descrita de uma forma que não pode ser falseada pelo método científico. Eu, pessoalmente, não chamaria isso de superstição.

Outra coisa é que parte da minha ideia de superstição é que, na maioria das vezes, ela é pragmática. Você realiza um ritual supersticioso para atrair boa sorte ou para fazer algo específico acontecer (como arranjar um marido). Já as crenças religiosas, muitas vezes, não são diretamente pragmáticas.

O comportamento supersticioso pode ter ser produto da evolução por seleção natural? Ele colaborou de alguma maneira com a sobrevivência dos nossos ancestrais?

Eu acho que, de uma maneira estranha, superstição é um resultado de algumas das nossas maiores qualidades. Nós temos um grande intelecto, nós criamos cidades porque fomos capazes de aprender ao longo da história e adaptar aos ambientes de uma forma que nenhuma outra espécie consegue. Isso significa que nós podemos ver conexões entre as coisas, ver relações de causa e efeito – e muitas vezes elas são realmente causa e efeito. Mas muitas vezes nós vemos relações de causa e efeito que não são verdadeiras. Nós somos bons em ver conexões, mas as vezes vamos muito longe e vemos conexões que não estão lá.

As mesmas tendências biológicas que nos tornam supersticiosos nos tornam religiosos? 

Existem aspectos que são os mesmos. O que é verdade, nos dois casos, é que nós não lidamos bem com incertezas; com um mundo que é caótico, aleatório. O ideal, para nós, seria saber o que está acontecendo e como prever o que vai acontecer. 

Nesse sentido, tanto a superstição quanto a religião fornecem uma sensação de ordem, que tem benefícios psicológicos. A religião faz as pessoas se sentirem bem só de saber que existe um Deus olhando, que esse Deus tem um plano. Elas podem até não entender esse plano, mas sabem que ele quer o melhor. É o mesmo para as superstições: eu não sei o que está dando errado na minha vida, mas se eu fizer isso ou aquilo, vai melhorar. A superstição dá a ilusão de que você está de fato impactando o seu próprio futuro. 

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As superstições geram efeito placebo? 

Existe um estudo muito bom intitulado “Don’t Stop Believing”. Os psicólogos pediram para um grupo de voluntários cantar a música “Don’t Stop Believing”, do Journey, em uma máquina de karaokê, na frente de uma porção de desconhecidos. Outro grupo precisava resolver uma prova-surpresa de matemática. Os voluntários eram informados de que o experimento era sobre ansiedade. Mas, na verdade, não era. 

Os participantes eram instruídos a realizar um pequeno ritual antes de começar a música ou a prova. Algo do tipo: “Eu quero que você conte até dez. Mas, enquanto você conta, eu quero que você escreva os números em um pedaço de papel, jogue sal no pedaço de papel e depois rasgue o papel e jogue fora.” Algo bem aleatório. 

Quando os pesquisadores descreviam a sequência de ações friamente e os participantes só imitavam os passos, nada acontecia. Mas quando os pesquisadores diziam que aquilo era um ritual, o desempenho dos participantes na prova ou no karaokê de fato melhorava.

É claro que esse tipo de experimento sempre precisa ser repetido por pesquisadores diferentes, para ver se as conclusões se sustentam ou são refutadas. Hoje, isso é o mais próximo que temos de verificar um efeito real de um ritual ou superstição sobre o desempenho de alguém em uma tarefa. 

Há alguma hipótese que explique porque isso acontece?

Isso ainda não é bem compreendido. É plausível que uma superstição ou um ritual tenham um efeito psicológico positivo porque, quando você espera algo desafiador acontecer sem tomar nenhuma providência, você fica ansioso. Você se sente preso, porque não está fazendo nada pra ajudar a si mesmo. Faz sentido que esse seja o motivo, mas ainda precisamos de mais estudos para comprovar ou refutar a hipótese. 

As teorias da conspiração tem a ver com os mecanismos psicológicos das superstições? 

As teorias da conspiração normalmente envolvem a crença em forças invisíveis, que não são baseadas em evidências. Mas normalmente teorias da conspiração jogam a culpa no colo do governo ou de empresas, como a indústria farmacêutica, e a superstição não precisa disso. Esse é um fator político ou social que não é necessário. 

O pessoal das teorias da conspiração também acredita que possui algum tipo de conhecimento especial que nós, pessoas comuns, não possuímos. Então eu acho que há um jogo social subentendido, em que eles ganham por serem aqueles que supostamente têm o conhecimento e todo o resto das pessoas é inocente. 

As pessoas que entram em um grupo desse tipo (como os terraplanistas ou os anti-vacinas) claramente melhoram suas vidas sociais. Se você fosse um terraplanista três décadas atrás, você seria bem solitário, você não teria essa comunhão com várias pessoas que compartilham a mesma crença. Hoje você pode sentar em casa e assistir vídeos no YouTube, conversar online. Então o benefício social pode mantê-los ali. 

Você já conheceu algum cientista supersticioso?

Claro! Existem cientistas supersticiosos. Aparentemente, na Universidade Brown, nos EUA, havia uma maleta antiga, de estimação. Quando os estudantes defendiam suas dissertações, consideravam que essa mala dava boa sorte. Isso foi passado de estudante para estudante, e eles levavam essa mala para a defesa da dissertação esperando que eles passariam e conseguiram o diploma.

No caso dos cientistas, eu acho que eles sabem que é irracional. Eu acho que nós nunca vamos nos livrar das superstições. Se chegarmos a um ponto em que as pessoas percebam que aquilo é irracional, mas só queiram continuar porque faz elas se sentirem melhor, já será uma pequena vitória. Uma grande vitória, na verdade.