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Entenda de uma vez: do que é feito o DNA?

No interior de cada uma das suas células, uma biblioteca ao mesmo tempo imensa e minúscula carrega as informações que tornam você um indivíduo único.

Por Salvador Nogueira 7 fev 2020, 14h50

Todo mundo fala de DNA hoje em dia, de programas de TV sensacionalistas sobre paternidade duvidosa a propagandas de xampu ou postos de gasolina. A imagem da dupla hélice, ou escada torcida, virou um ícone tão popular que a gente tende a esquecer o que ela realmente significa: uma mistura de incrível eficiência molecular e gambiarras com bilhões de anos de idade. Essa mescla esquisita é a responsável pela transmissão hereditária das características de todos os seres vivos (e até de alguns seres que ninguém sabe muito bem se estão vivos ou não, como os vírus).

Como quase tudo o que existe ao nosso redor, as longas moléculas de DNA são conjuntos de átomos – átomos pertencentes a cinco elementos: carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio e fósforo. Esse quinteto se combina de várias formas para produzir tipos específicos de compostos químicos, e isso se reflete na estrutura da molécula.

Considerando que o DNA parece mesmo uma escadinha, podemos dizer que o corrimão dessa escada é formado, de ambos os lados, por fosfatos e moléculas de um tipo de açúcar chamado desoxirribose (daí a sigla inglesa “DNA”, que significa “ácido desoxirribonucleico”; se você for um purista da língua portuguesa, vai preferir a sigla ADN).

FOSFATOS – Moléculas reativas feitas por quatro átomos de oxigênio e um de fósforo em sua composição. Cristina Kashima/Superinteressante

Mas a parte crucial dessa escada torcida são os degraus, as chamadas bases nitrogenadas (por causa, óbvio, da presença de nitrogênio). Há quatro “sabores” de bases nitrogenadas, cada uma delas com sua própria composição ligeiramente diferente das demais. São conhecidas pelas letras A (adenina), T (timina), C (citosina) e G (guanina) e, como a hélice do DNA é dupla, elas formam pares: A sempre se liga a T, C sempre se liga a G (a menos que ocorram erros de conexão na escada, o que é raro, mas acontecem).

Em cada célula humana, no núcleo, existem cerca de 3 bilhões de pares dessas letras. Por si só, o DNA não faz nada – é apenas informação bruta, que fica lá parada, feito livros numa estante. Mas a sequência específica de letras pode ser “lida” por máquinas moleculares especializadas da célula, e é aí que a magia começa.

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DESOXIRRIBOSE – Molécula que possui cinco átomos de carbono combinados a oxigênio e hidrogênio. Cristina Kashima/Superinteressante

O primeiro passo é a chamada transcrição. Nela, a sequência de bases do DNA é copiada por mecanismos celulares numa outra molécula, o RNA, que difere de sua prima mais famosa em alguns detalhes: seu açúcar é a ribose (o que explica o R), sua cadeia é simples, e não dupla, e a letra T é substituída pelo U (de uracila). Veja que uma fita simples basta: graças à complementaridade das bases nitrogenadas, com ela, dá para reconstruir a outra metade.

O chamado mRNA, ou RNA mensageiro, produzido a partir do “molde” de DNA, deixa o núcleo da célula e se encaminha para minúsculas usinas chamadas de ribossomos, onde ocorre o passo seguinte do processo, a tradução. Cada trinca de letras de RNA equivale a um aminoácido, as unidades químicas que juntas constroem as proteínas. O trio de letras AAA, por exemplo, corresponde ao aminoácido lisina.

Agora, imagine que a fitinha de RNA vai passando por dentro do ribossomo e, a cada trio de bases que aparece ali, um aminoácido é adicionado, como se fosse uma linha de montagem. No fim do processo, eis que temos uma proteína completa sendo cuspida pelo ribossomo, pronta para realizar todos os tipos de funções no organismo, da digestão de alimentos à construção de ossos e outras estruturas. É assim, portanto, que o DNA funciona.

RIBOSE – Similar à desoxirribose, também com cinco átomos de carbono, mas um átomo de oxigênio a mais. Cristina Kashima/Superinteressante

Cada trecho de DNA contendo o código correspondente a uma proteína inteira costuma ser chamado de gene. Mas a situação real é bem mais bagunçada. Apenas uns 2% do genoma – o conjunto do DNA – dos seres humanos correspondem a essa definição de gene.

Há áreas do DNA que são transcritas para o formato de RNA, mas não chegam a originar proteínas; outras são “interruptores”, servem para determinar onde as máquinas moleculares que decifram o DNA devem se conectar; e outras são lixo puro: trechos repetitivos que surgiram por engano, carcaças de vírus que se enfiaram no genoma (sim, alguns deles fazem isso), sequências herdadas de espécies que nos antecederam, o diabo a quatro. É uma zona, mas uma zona que funciona.

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