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Estudo polêmico sugere que humanos modernos surgiram em Botsuana

Pesquisa usou análises genéticas de pessoas vivas para cravar o local da África em que humanidade teria surgido — mas cientistas criticam os resultados.

Por A. J. Oliveira - Atualizado em 29 out 2019, 20h39 - Publicado em 29 out 2019, 20h37

Duas palavras resumem bem a experiência humana na Terra: migração e miscigenação. A partir do momento em que nossa espécie surgiu no continente africano, entre 150 mil e 300 mil anos atrás, não demorou para que nossos ancestrais se tornassem desbravadores de territórios desconhecidos, e eles desde sempre procriaram com populações diversas. Tais traços, porém, dificultam bastante a vida dos antropólogos e dos geneticistas.

Desvendar os acontecimentos que marcaram a infância da humanidade é uma tarefa quase impossível, que se torna ainda mais difícil quanto mais distante é o passado estudado. Para investigar uma questão tão complicada e perdida nas brumas do tempo como o surgimento do Homo sapiens, os cientistas concordam que os métodos mais confiáveis são as análises de fósseis e do DNA dos primeiros humanos modernos — quanto mais antigo, melhor.

Mas uma equipe internacional de pesquisadores afirma ter descoberto algo muito buscado pela ciência, o local exato onde nossa espécie teria surgido, usando só material recente. Aliás, muito recente: amostras de DNA de 1,2 mil pessoas vivas de países ao sul da África. Com base nos resultados obtidos e publicados nesta segunda (28) na revista Nature, os cientistas concluíram que todos os seres humanos descendem de uma região de Botsuana.

Atualmente, o local é extremamente hostil e marcado pelo deserto de Kalahari, mas não foi sempre assim. Aquela área ao sul do Rio Zambezi teria abrigado uma das mais luxuriantes terras alagadas e férteis que o continente africano já viu. Segundo o estudo, liderado pela geneticista Vanessa Hayes, do Instituto de Pesquisa Médica Garvan em Sydney, na Austrália, ali a humanidade teria surgido, permanecido e prosperado por bastante tempo.

Contudo, em um certo momento, as margens do gigantesco Lago Makgadikgadi, cujas evidências geológicas apontam ter existido no período que foi de 2 milhões a 10 mil anos atrás, deixaram de ser a única casa daqueles primeiros seres humanos. Eles teriam vivido por lá entre 200 mil e 130 mil anos atrás, quando mudanças no clima proporcionadas por alterações na órbita e no eixo terrestres abriram corredores verdes que acabaram sendo bastante convidativos para explorar (e povoar) outras partes antes áridas da África.

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Foi quando, segundo o estudo, aquele grupo primordial do qual todos descendem (a “linhagem 0”, ou L0) se dividiu. Parte migrou para o nordeste e originou populações que viriam a se dedicar sobretudo à agricultura. Cerca de 20 mil anos mais tarde, outro tronco se deslocou para o sudoeste, tendo se tornado essencialmente caçadores e coletores de regiões costeiras. No geral, essa é a história fascinante sugerida pela pesquisa.

Mas a maioria dos especialistas no assunto não recebeu nada bem a suposta descoberta do lar ancestral da humanidade. A principal crítica diz respeito ao método utilizado. Hayes e seus colegas optaram por analisar o DNA mitocondrial — cromossomo que fica dentro da mitocôndria e é passado de mãe para filho. Por si só, não é uma técnica robusta o bastante que permita inferir com segurança uma ancestralidade tão longínqua.

E, para piorar, os pesquisadores só analisaram o material genético de pessoas daquela região. Se tivessem incluído dados mais abrangentes, é possível que se deparassem com linhagens tão ou ainda mais antigas — como pesquisas anteriores inclusive já constataram. Por isso o consenso científico se tornou o da origem pan-africana do Homo sapiens, a ideia de que várias populações, de diversos cantos, teriam formado os humanos modernos. Só será possível dizer com mais clareza quando acharmos mais fósseis e DNAs antigos.

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