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Fósseis na vitrine

Ivonete D. Lucírio

O besouro ao lado está na mesma posição há 23 milhões de anos. Ele ficou preso no âmbar, uma resina que escorria das árvores e que agora, cristalizada, é uma poderosa aliada da ciência.

O âmbar, com sua forma cristalina, parece uma pedra preciosa. Há séculos pode ser visto em jóias e peças de decoração. Mas seu valor científico cresce de maneira estonteante quando se acham preservados no seu interior insetos e plantas que cresceram nas matas há milhões de anos. Quando isso acontece, em um simples pedaço de resina está uma verdadeira relíquia da história natural. E melhor ainda: com grande visibilidade. “O âmbar nos ajuda a reconstruir a aparência e a composição das florestas antigas”, diz o paleobiólogo Francis Hueber, do Museu Nacional de História Natural, em Washington, Estados Unidos.

Não são apenas os traços orgânicos que ficam registrados. A resina pegou os insetos de surpresa e congelou também os seus movimentos. Sem ela não teria sido possível observar o primeiro vôo de um ancestral dos besouros ou como uma aranha pré-histórica fabricava a teia. Nestas páginas você vai ver fotos inéditas no Brasil, realizadas com técnicas especiais para tornar ainda mais visíveis os flagrantes que a natureza engenhosamente manteve intactos.

Debutando no vôo

O filhote de besouro primitivo, com apenas meio centímetro, ensaiava o seu primeiro vôo quando uma porção de goma caiu sobre ele. A peça foi achada na década de 30 na República Dominicana

Quando a natureza é a artesã de jóias raras

A produção de pedras tão preciosas para a ciência exigiu uma combinação perfeita dos elementos naturais. Para que plantas e insetos ficassem enclausurados dentro dessas vitrines pré-históricas, as condições tinham de ser mais que favoráveis. Primeiro, eram necessárias árvores que produzissem a resina, como alguns tipos de pinheiros e ciprestes. Depois, um lago ou mar nas proximidades, onde a goma endurecida ficasse protegida da oxidação (veja infográfico nas páginas 38 e 39). Pronto. Aquela pepita estava preparada, lapidada e finalizada para enfrentar a passagem dos anos, dos milhões de anos.

A resina endurecida, apesar de composta de substâncias orgânicas, fica parecida com uma pedra preciosa. “Os maiores depósitos de âmbar que conhecemos hoje se localizam na região do Mar Báltico, na Europa, e têm cerca de 40 milhões de anos”, diz o paleobiólogo Conrad Labandeira, do Museu Nacional de História Natural, em Washington. Outro tesouro fica na República Dominicana, América Central. Nesses lugares existem minas de exploração comercial do âmbar. E é lá também que os cientistas conseguem boa parte dos exemplares que estudam, como esses das fotos ao lado.

No Brasil não existe âmbar. Mas, como em outras áreas da América do Sul, há copal, que é muito parecido, só que mais novo. Ele se formou há milhares de anos com a goma de árvores de climas mais quentes, que, em sua maior parte, existem ainda hoje. Embora também se preste à fabricação de ornamentos, o copal é menos valioso. Os cientistas também não se entuasiasmam. Afinal, por ser mais recente, o copal traz informações sobre espécies que ainda estão aí na natureza.

Amuleto custava mais que escravo

O interesse científico pelo âmbar começou faz tempo. Há 2 500 anos o filósofo grego Tales percebeu que, ao esfregar uma peça com um pano, ela passava a atrair pedaços de papel. A essa propriedade ele deu o nome de eletricidade (pois âmbar, em grego, é electron). Tais poderes supostamente sobrenaturais eram valorizados. Os romanos organizavam freqüentes expedições à Alemanha ou ao norte da Europa para buscar pedaços da resina e um amuleto podia custar mais que um escravo saudável.

Teia interrompida

O detalhe mostra a aranha soltando os fios que formam a teia exatamente no momento em que foi paralisada

Existência efêmera

Este inseto não vive mais que 24 horas, por isso é chamado efemérida. Mas foi pego pela resina e, assim, ficou eterno

A mesma cara

Os besouros de 25 milhões de anos atrás, embora de outra espécie, já eram bem parecidos com os que existem hoje

Grande angular

Esta cigarra primitiva, encontrada na República Dominicana como os demais insetos desta página, foi ampliada cerca de vinte vezes

Só planta e bichos pequenos ficavam presos

No filme Parque dos Dinossauros, do americano Steven Spielberg, várias espécies de dinossauros foram recriadas a partir de trechos do seu DNA. A molécula estaria no estômago de insetos pré-históricos que haviam picado o monstro e que foram paralisados pelo âmbar logo em seguida.

É uma possibilidade apenas teórica – e põe teórica nisso (veja quadro abaixo). Mas os insetos eram realmente as principais vítimas das armadilhas da resina. Os animais grandes, mais fortes, conseguiam se desvencilhar com facilidade. “Alguns répteis abandonavam um pedaço da cauda como tática para escapar da goma”, diz Francis Hueber. Bichos inteiros, como o lagartinho encontrado no ano passado em Gdansk, na Polônia (foto ao lado), são muito raros.

Mais comuns do que os insetos, só pedaços de plantas. “Algumas delas são os únicos registros que sobraram de sua espécie”, diz Hueber. Os tecidos vegetais são muito mais frágeis do que os animais e apodrecem em poucos dias quando morrem nas florestas. Com sorte, dá para encontrar partes de troncos petrificados. Mas as folhas, os galhos e as flores praticamente desaparecem. Já os pedaços de plantas atingidos pela goma amarela ficam intocadas. Os detalhes são tantos que muitas vezes dá para identificar o tipo de vegetal e saber como eram as espécies que habitavam as matas. Nenhum outro fóssil vegetal é tão bem preservado como os que estão dentro do âmbar. É uma verdadeira vitrine que guarda exposto um passado que o homem só pode ver aos pedaços.

Reviver dinossauro só no cinema

Reconstruir um dinossauro a partir o DNA (célula com as informações genéticas) é uma hipótese mirabolante. A idéia é usar os genes presentes no sangue de um inseto que teria picado o animal antes de ficar preso no âmbar. O projeto só serve mesmo para a ficção científica porque para reconstruir um bicho é preciso ter uma molécula completa do DNA. Acontece que essa molécula deteriora-se rapidamente e é quase impossível achar um DNA de dinossauro inteiro por aí. “Depois, a pele deles era tão dura que dificilmente um inseto poderia furá-la”, diz o paleontólogo Reinaldo Bertini, da Universidade Estadual Paulista.

Na flor da idade

O botão não chegou a desabrochar. Em compensação, está aí para ser visto 40 milhões de anos depois de cair do pé

Natal pré-histórico

O broto de um ancestral do pinheirinho de Natal da região do Mar Báltico está guardado há 40 milhões de anos

A caçula

Esta é uma folha, não identificada, que ficou presa em uma resina mais nova, o copal. Tem “apenas” 10 000 anos

Réptil adormecido

O lagarto mede pouco mais de 5 centímetros e foi embalado no cristal há 40 milhões de anos

Uma união duradoura

Conheça a história da mosca que, através dos tempos, carrega um ácaro nas costas. Os dois foram assaltados à traição pela goma de uma árvore.

O caronista

Insetos pequenos como o ácaro tinham o hábito (aliás, têm até hoje) de usar o corpo de bichos maiores como meio de transporte

1. A mosca passeia sobre o tronco de uma árvore, provavelmente um pinheiro. Um ácaro aproveita para pegar uma carona no seu pescoço e, assim, viajar mais longe do que poderia, se fosse sozinho.

2. Para se defender de fungos e cupins, a árvore solta a resina, que atinge a dupla em cheio. Algumas substâncias penetram no corpo deles, matando as bactérias que poderiam destruí-los.

3. Tempos depois, partes da árvore, incluindo a goma com a mosca dentro, vão ao chão. A porção líquida evapora aos poucos e ela se transformou em um bloco mais duro e resistente.

4. Uma chuva forte arrasta a resina para um lago nas proximidades. Dentro da água, ela está protegida dos efeitos do oxigênio, que reagiria com as substâncias presentes no âmbar, estragando-o.

5. Passados 23 milhões de anos, o lago já está seco e resta um depósito onde o âmbar está enterrado. Um explorador recupera a mosca intacta, com o ácaro aproveitador preso a ela.