GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.

Incríveis dinossauros das neves

Eles sobreviveram em condições climáticas hostis: baixas temperaturas e invernos longos e escuros. Apesar disso, talvez tenham vivido mais tempo que seus parentes de outras partes do planeta. Explicar essa façanha é um grande desafio para os cientistas.

Os grandes répteis do passado aparecem representados sempre em ambientes cercados por densa vegetação, em regiões de clima definitivamente tropical. Assim, a idéia de que pudessem ter colonizado regiões próximas aos pólos — como o sudeste australiano, o Alasca, o Canadá, a Nova Zelândia e a Península Antártica — não contava com muitos adeptos. A impressão geral era de que esses habitats eram demasiado frios para eles. Dinossauros na neve? Impossível. Nem tanto. Demonstram o contrário mais de 5 000 ossos e dois esqueletos incompletos resgatados até o momento no litoral de Vitória, sudeste da Austrália. Além desses, também foram encontrados fósseis de plantas e de mais de uma centena de diferentes espécies animais, de aranhas a pterossauros. Isso revela que ali havia uma frutífera comunidade de seres vivos capazes de enfrentar os rigores climáticos. O estudo das plantas e invertebrados fósseis descobertos no local mostrou que o clima, ainda que não fosse tão rigoroso quanto é hoje nas regiões polares, estava sujeito a constantes variações. “Todas as tentativas de interpretação giram em torno das estimativas de temperatura”, dizem os paleontólogos australianos Patricia Vickers-Rich e seu marido Thomas Hewitt Rich.

Há treze anos eles comandam as escavações numa abrupta praia, conhecida como enseada dos dinossauros. Ele é curador da seção de Paleontologia de Vertebrados do Museu Vitória, em Melbourne. Ela, interessada especialmente em reconstruir meios ambientes antigos sem similares modernos, é especialista em Ciências da Terra, e trabalha na Universidade Monash, também em Melbourne. “Esse trabalho tem sido o centro de nossa vida, da vida de nossos colaboradores, de nossos filhos e mesmo de nossos parentes”, escrevem eles, em artigo publicado pela revista Scientific American, em julho do ano passado, no qual relatam as conclusões a que chegaram e as muitas dúvidas que ainda restam sobre essas descobertas.

Até o final da década de 70, contavam-se nos dedos da mão os restos de lagartos primitivos encontrados na costa australiana. Por isso, os caçadores de dinossauros jamais se empenharam em escavar na região. Mas, em 1980, um verdadeiro cemitério de fósseis veio à tona, surpreendendo os paleontólogos. Há cerca de 100 milhões de anos, no Cretáceo inferior, a Austrália limitava com a Antártida e ambas faziam parte do supercontinente Gondwana . Mais especialmente, a ponta sudeste da Austrália — onde hoje é o Estado de Vitória, cuja capital é Melbourne — ficava dentro do círculo antártico. E, sob condições climáticas sem comparação no mundo atual, de baixas temperaturas e invernos escuros e longos, viviam animais e plantas.

Nessas condições extremas, algumas linhagens de dinossauros sobreviveram e, surpreendentemente, foram os últimos a desaparecer, mesmo depois de seus parentes terem sumido de outras regiões do planeta, no final do Cretáceo, 65 milhões de anos atrás. Por isso, foram chamados dinossauros polares. O estudo das temperaturas reinantes na época é a chave para as hipóteses levantadas pelos cientistas. Para isso existem dois métodos já bem testados. Um deles obtém a temperatura a partir da quantidade do átomo radioativo do O18 presente nas rochas (o índice 18 designa a massa, que no oxigênio comum vale 16). Foi o caminho escolhido pela equipe do paleoclimatólogo australiano Robert T. Gregory. Sua conclusão: a temperatura média anual no sudeste da Austrália, durante o Cretáceo, se aproximava do zero grau centígrado podendo chegar a -8° C.

Os registros de Gregory diferem um pouco dos obtidos por seus colegas Judith Totman Parrish da Universidade do Arizona e Robert Spicer da Universidade de Oxford, que escolheram o outro método: analisando a estrutura de vegetais fósseis, chegaram à temperatura média de cerca de 10° C. Se as estimativas estiverem certas, pode-se dizer que o clima na Austrália polar era ao mesmo tempo temperado e sujeito a períodos contínuos de escuridão durante o ano, uma combinação absolutamente sem similar hoje. As noites de inverno duravam entre seis semanas e quatro meses e meio. “Se as baixas temperaturas médias forem corretas, torna-se mais que um simples desafio científico entender como essa comunidade vivia”, dizem os dois paleontólogos. Seja como for, o fato é que a fauna australiana alcançou um fantástico grau de adaptação ao frio, que lhe permitiu sobreviver.

Esse deve ter sido o caso dos dinossauros e também dos antepassados dos atuais anfíbios e répteis. Os cientistas sempre acreditaram que estes últimos tinham se extinguido ainda no Jurássico, há 160 milhões de anos. Contudo, há quinze anos, foram encontrados nos sítios arqueológicos de Vitória três mandíbulas de um enorme anfíbio polar de 115 milhões de anos. Como explicar terem vivido muitos milhões de anos a mais que o restante de seus pares?

Note-se que a maioria dos dinossauros encontrados na Austrália também estão representados em outras regiões do planeta, como o alossauro (um carnívoro bípede que apareceu no final do Jurássico), e alguns hipsilofodontes (pequenos herbívoros bípedes, de 1,5 metro de comprimento). Mas certas espécies podem ter surgido primeiro na Austrália para depois propagar-se em direção à Eurásia e à América do Norte. Um bom exemplo são os ornitomimos, carnívoros do tamanho e da aparência de um avestruz, com cerca de 4 metros de comprimento. Pela datação dos fósseis, eles devem ter surgido na costa australiana ainda no Jurássico, mas aparecem como bichos bem-sucedidos no final do Cretáceo na América do Norte e Eurásia. Além disso, a enseada dos dinossauros escondia restos de ovirraptossauros, hábeis ladrõezinhos de ovos, de quadrúpedes como o ceratóps — aquele com um formidável chifre na testa — e de anquilossauros, com as placas ósseas no dorso e na cauda.

Uma característica curiosa nessas pesquisas é a ausência de animais de grande porte como o diplodocus, um quadrúpede herbívoro de 27 metros de comprimento. A exceção fica por conta do mutaburrassauro, um herbívoro bípede-quadrúpede, de cerca de 7 metros de comprimento e dentes afiadíssimos — encontrado pela primeira vez há treze anos, no nordeste da Austrália. Um exemplo do pequeno tamanho dos dinossauros polares é o alossauro. Enquanto em outras partes do planeta esse bicho chegava aos 11 metros de comprimento e 1,5 tonelada de peso, um verdadeiro ônibus de patas, na Austrália ele não passava de um furgãozinho, com menos da metade do tamanho de seus irmãos.

Isso contradiz as leis relativas ao tamanho formuladas no século passado pelo cirurgião alemão Ernest von Bergmann. Elas estabelecem que os exemplares de uma espécie alcançam a estatura máxima quando a temperatura média em seu habitat cai. Um possível motivo para essa contradição é que existem outros fatores determinantes das dimensões do corpo. O principal seria o tamanho do território em que vive determinada população. Os habitantes de uma ilha, por exemplo, são comumente menores do que os que vivem em áreas maiores. Recentemente, foram encontrados fósseis de mamutes anões em ilhas da costa da Sibéria. O efeito do tamanho do território também é notado em penínsulas e, durante o Cretáceo, o sudeste da Austrália era uma península do Gondwana. Isto significa que quando o espaço é pequeno, os indivíduos têm o tamanho diminuído para que possam aumentar seu número. “O nanismo dos dinossauros polares pode ser uma resposta adaptativa para assegurar a sobrevivência da espécie em uma área geográfica restrita”, diz o casal Rich.

Fica a possibilidade, como sustentam alguns especialistas, de que o achado quase exclusivo de ossos de dinossauros anões se deva a uma casualidade. Esses depósitos fósseis, como a enseada dos dinossauros, que aparecem ao longo do litoral de Vitória se originaram à medida que violentas correntes marinhas sazonais arrastaram esqueletos e outros materiais das planícies próximas para as margens dos rios. O que pode ter acontecido é terem carregado apenas os ossos menores. Outra curiosidade sobre esses fósseis é que mais da metade é de dinossauros jovens. “Isso sugere que eles não estavam por aqui de visita, mas viviam nestas paragens a maior parte do ano, aproveitando os meses de verão, quando o sol brilhava, para fazer seu berçário”, diz a dupla. Porém, quando chegava o inverno, o que faziam? Hibernavam ou migravam para regiões mais quentes?

A resposta a essas questões não é simples. Uma migração para o norte pressupõe um esforço incalculável, pois o caminho estava bloqueado por um imenso mar interior que só poderia ser evitado desviando-se centenas de quilômetros em direção ao oeste antes de retomar o acidentado trajeto rumo ao norte. E, ao fim de tanto trabalho, o máximo que conseguiriam seria apanhar uma hora de sol por dia. É possível que hibernassem, como fazem os atuais répteis do Ártico, que se tornam inertes quando a temperatura cai abaixo de zero. Mas, se não hibernavam, como se mantinham vivos? O caso do Leaelinassauro amicagraphica, um hipsilofodonte, cujo crânio foi encontrado em ótimas condições de preservação, intriga os cientistas. O enorme cérebro e os grandes olhos indicam que era dotado de uma acuidade visual que lhe permitia enxergar no escuro, durante o inverno. Por isso, percebia os vegetais dos quais se alimentava. Isso explica por que justamente os hipsilofodontes eram o grupo mais numeroso. Resta saber como driblavam o frio. Só poderiam ter sobrevivido mantendo a temperatura corporal e comendo freqüentemente, como fazem as aves no inverno. Quanto aos carnívoros, provavelmente subsistiram devorando os herbívoros.

Duas últimas questões. Ainda que não existam provas suficientes, a adaptação ao frio e ao gelo pode ser um indicador de que os dinossauros polares tinham sangue quente. A disputa do sangue frio ou quente é polêmica e ainda há quem sustente que os dinossauros, como os répteis de hoje e seus antepassados anfíbios, tinham sangue frio e por isso dependiam da luz solar como fonte principal de energia. O fato de os dinossauros australianos terem se adaptado ao frio e à escuridão até pode colocar em dúvida algumas das hipóteses para explicar a extinção do Cretáceo: o choque de um cometa ou asteróide contra a Terra ou mesmo erupções vulcânicas. Nos dois casos, uma gigantesca nuvem de poeira teria tomado conta da atmosfera, impedindo a passagem da luz e provocando um inverno artificial que teria resfriado o planeta e matado os bichos. Mas se os dinossauros das neves já sabiam viver nessas condições pode-se especular que teriam sobrevivido à catástrofe.

 

 

 

Para saber mais:

A charada dos dinossauros

(SUPER número 12, ano 1)

A volta dos dinossauros

(SUPER número 12, ano 3)

A nova face dos dinossauros

(SUPER número 7, ano 7)

A catástrofe veio mesmo do céu

(SUPER número 1, ano 8)

 

 

 

Refúgio de outros bichos

Apesar de sua posição polar durante a Era Secundária (que engloba o Triássico, o Jurássico e o Cretáceo), a Austrália serviu de refúgio a inúmeras espécies animais e vegetais, como mostram os fósseis recolhidos na enseada dos dinossauros e em outros locais próximos. É o caso de Koonwarra, a sudeste de Melbourne. Ali, os paleontólogos identificaram mais de oitenta espécies de invertebrados, entre os quais se destacam aranhas gigantes, crustáceos e outros, que coabitavam com os dinossauros.

Nas águas dos rios e lagos existia uma grande variedade de peixes, incluídos os dotados de pulmões, que hoje são encontrados em certos pântanos australianos e nos mangues da África e América do Sul. O único testemunho que restou das aves é a impressão de suas plumas em algumas rochas — coisa difícil, pois plumas são muito leves e quase não se fossilizam. Ao contrário, são abundantes os ossos dos anfíbios, tartarugas, pterossauros (répteis voadores) e plesiossauros (répteis que nadavam nas águas continentais do antigo vale entre a Austrália e a Antártida).