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Mais um estudo sobre covid-19 sofre críticas e pressão para ser retirado

Desta vez, o alvo é um artigo sobre a eficácia de máscaras. Mais de 40 cientistas assinaram uma carta pública apontando erros metodológicos no estudo.

Por Bruno Carbinatto 22 jun 2020, 19h45

Mais de 40 cientistas americanos estão pedindo publicamente a retirada de um artigo científico que investiga a eficácia do uso de máscaras durante a pandemia, alegando que a pesquisa possui “graves falhas metodológicas” e se baseia em “afirmações comprovavelmente falsas”. A controvérsia é a mais nova protagonista da discussão crescente sobre possíveis falhas do processo de publicação de artigos durante a pandemia – há pouco tempo, dois outros estudos sobre a covid-19 foram retirados após cientistas também apontarem falhas em seus dados.

Primeiro, vamos entender a polêmica. No dia 11 de junho, uma equipe liderada pelo cientista Mario Molina, que venceu o Prêmio Nobel de Química em 1995, publicou um artigo na revista Proceedings of the National Academy of Sciences que analisava a eficácia do uso de máscaras para evitar o espalhamento do novo coronavírus. A equipe chegou na mesma conclusão de vários outros estudos: máscaras de fato são importantes para o controle epidemiológico da doença. Mas foi bem mais além – e concluiu que a medida seria a principal forma de frear o vírus, minimizando a eficácia de outras estratégias, como o isolamento social. Isso porque, para a equipe, a principal rota de transmissão do vírus seria pelo ar.

Aqui, vale explicar um pouco melhor sobre os possíveis caminhos de contágio da doença. O vírus de fato pode sair de uma pessoa infectada em formato de aerosol – partículas muito pequenas e leves de saliva, que conseguem flutuar no ar por um bom tempo. Neste caso, é possível contrair a doença apenas respirando essas partículas. Mas a rota mais comum é a que o vírus se espalha através de gotículas de saliva, que, apesar do nome, são pesadas demais para flutuar e caem em superfícies muito rapidamente. Neste tipo de transmissão, o vírus é levado ao nariz ou a boca pelas mãos das pessoas – por isso a higienização constante é importante.

O uso generalizado de máscaras também é benéfico, segundo uma série de evidências, porque impede que uma pessoa infectada saia espalhando saliva por ai quando fala, tosse ou espirra. E, como muitos que carregam o vírus são assintomáticos, é lógico que todos usem a proteção para evitar contaminar outros indivíduos.

Acontece que a equipe de Molina acredita que a transmissão por gotículas não é a principal rota do vírus, e sim a transmissão por aerosol. A conclusão controversa dos pesquisadores vem após uma comparação entre áreas em que o uso de máscaras foi obrigatório e generalizado com áreas em que isso não ocorreu, usando exemplos dos Estados Unidos, China e Itália. Os resultados mostraram que áreas em que a população usou máscaras tiveram menores taxas de novos casos nos períodos analisados, o que provaria a eficácia das máscaras e a rota principal do vírus, pelo menos segundo a equipe.

Mas, agora, mais de 40 cientistas escreveram uma carta para a revista PNAS apontando falhas graves no artigo e pedindo sua retirada imediata (você pode ler o documento e ver seus signatários aqui). O grupo concorda que máscaras são sim importantes, mas discorda da metodologia utilizada no estudo e afirma que a equipe superestimou a eficácia da prática, enquanto subestimou outras estratégias de intervenção epidemiológica, como o isolamento social. Segundo os cientistas que assinam a carta, as conclusões infundadas do estudo podem fazer com que as pessoas acreditem que apenas usar máscara já as proteja do coronavírus, o que faria com que elas deixassem outros cuidados de lado.

“Embora concordemos que o uso de máscaras tenha um papel importante na redução da propagação da covid-19, as alegações neste estudo foram baseadas em afirmações facilmente falsificáveis e em falhas metodológicas”, diz a carta. “Dado o escopo e a gravidade das questões que apresentamos, e o impacto público mediato do estudo, solicitamos que os editores da PNAS retirem esse artigo imediatamente”.

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Um dos maiores erros apontados pelo grupo é que a equipe do artigo assumiu que a presença da máscara era a única variável diferente entre as regiões analisadas, o que não é verdade. Os autores do estudo escreveram, por exemplo, que todo o território americano estava sob o mesmo protocolo de quarentena e distanciamento social no dia 3 de abril, mas que apenas a cidade de Nova Iorque tinha instaurado o uso obrigatório de máscaras. Como a média de novas infecções no período analisado foi menor na cidade do que no resto do país, a equipe concluiu que a máscara era responsável pela diferença.

Acontece que não é verdade que todos os habitantes do país estavam agindo da mesma maneira. Apesar de todos os estados estarem sob algum tipo de distanciamento social, a extensão dessas medidas variou muito de local para local, bem como o respeito a elas (em alguns locais, a população simplesmente não respeitou a quarentena, como mostram dados de celulares). Nova Iorque também não era a única região com uso obrigatório de máscaras no período analisado, como o artigo diz – o estado de New Jersey foi pioneiro na medida, e outros seguiram logo após. Além disso, outras variáveis foram ignoradas pela equipe, como demografia de cada local, outros tipos de políticas epidemiológicas implementadas, se a região tinha ou não uma estratégia de rastreamento dos casos, etc.

Até mesmo as análises estatísticas da equipe tinham falhas, já que desconsideravam o período de incubação do vírus de duas semanas para avaliar o número de novos casos. Tudo isso, segundo a carta, faz com que as conclusões do artigo sejam invalidadas. “Infelizmente, desde sua publicação em 11 de junho, o artigo foi compartilhado amplamente nas mídias tradicionais e sociais, onde suas reivindicações estão sendo interpretadas como se fossem ciência rigorosa”, escrevem os críticos. “Enquanto a sociedade debate os riscos de reabrir e relaxar as medidas de distanciamento social, é crucial que as decisões se baseiem em uma base de evidências sólida.”

Para piorar, o artigo passou por um processo de publicação diferente do normal. Em geral, artigos científicos precisam ser revisados por pares antes de serem publicados em uma revista – isso significa que outros cientistas, sem relação com os autores, analisarão os dados em busca de falhas que possivelmente possam impedir que o artigo de ser publicado. A revista PNAS, porém, permite que cientistas com cargos nas Academias Nacionais possam escolher quem serão os revisores de seu artigo – foi o caso de Mario Molina e seu novo artigo. Isso levantou questões sobre se o processo foi de fato rigoroso e sério o suficiente.

Em entrevista ao jornal The New York Times, Molina defendeu seu estudo e disse que outros cientistas e organizações, incluindo a OMS e o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos, estão subestimando a transmissão do vírus pelo ar. Apesar disso, admitiu que há problemas: “Talvez tenhamos exagerado em algumas frases. Pedimos desculpas. Deveríamos ter sido um pouco mais cuidadosos com a linguagem utilizada”, disse, se referindo as conclusões controversas sobre a alta eficácia das máscaras e a ineficácia de outras medidas. Também ao Times, uma representante da PNAS afirmou que a revista está ciente das críticas e que está investigando a questão.

A polêmica é mais uma dentro de uma discussão maior sobre a publicação de artigos durante a pandemia. Há três semanas, dois estudos sobre a Covid-19 foram retirados após sofrerem críticas de cientistas pelo mundo por suas falhas metodológicas. Um deles, publicado na revista New England Journal of Medicine, versava sobre a segurança de se tomar alguns medicamentos para pressão alta durante a infecção por Covid-19. Outro, publicado na The Lancet, afirmava que a droga cloroquina não só era ineficaz no combate ao novo coronavírus como também causava danos colaterais graves e aumentava a mortalidade. Ambos tinham o mesmo autor – o professor de Harvard Mandeep Mehra – e colhiam dados da empresa privada Surgisphere. No entanto, auditorias independentes mostraram inconsistências graves nos números, e a empresa se recusou a liberar mais detalhes sobre os dados, o que levou os estudos a serem retirados por falta de confiança. (Apesar do estudo da Lancet ter usado dados aparentemente falsos, outros estudos mostraram que a cloroquina de fato não parece ter eficácia contra a Covid-19 e pode ter danos colaterais. O medicamente já saiu dos protocolos do CDC americano, do governo da França e de outros países por conta destes estudos.)

Um movimento crescente de cientistas está agora se voltando para o processo de publicação de artigos durante a pandemia. Isso porque o momento exige urgência para que novas descobertas sejam publicadas o mais rápido possível e possam trazer benefícios para o mundo, mas, ao mesmo tempo, abre brechas para que dados falsos ou manipulados passem despercebidos devido a pressa no processo de publicação, o que seria ainda mais danoso à saúde pública.

 

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