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Mariano Barbacid

Um dos maiores oncologistas do mundo, o espanhol Mariano Barbacid fala das descobertas mais recentes sobre a origem e a possível cura do câncer

Jorge Alcalde

No início da década de 80, a ciência do câncer deu um salto histórico com a descoberta dos oncogenes – pedaços de DNA que normalmente estão quietos, mas, se, por algum motivo começam a trabalhar, dão origem a um tumor. “Foi uma mudança revolucionária no estudo das origens do câncer”, diz o biólogo americano Robert Weinberg. “Pela primeira vez, tornou-se plausível a idéia de que as raízes da doença poderiam estar profundamente entranhadas nas células normais do organismo.” Encontrados primeiro em animais, os genes malignos logo seriam achados também no homem. O espanhol Mariano Barbacid foi co-autor da pesquisa histórica que, em 1982, levou à identificação do primeiro oncogene humano batizado com a sigla ras. Desde então, ele se tornou uma referência obrigatória entre os maiores especialistas mundiais em câncer. Depois de trabalhar 24 anos no Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos, Barbacid foi convidado a voltar para a Espanha, há dois anos, a fim de montar e dirigir o Centro Nacional de Pesquisas Oncológicas, baseado em Madri, já considerado um dos mais avançados no estudo e no tratamento do câncer.

Super – Notícias animadoras sobre o câncer não faltam. O fato, porém, é que ele continua a desafiar a ciência e os médicos. O que, de fato, se sabe sobre a doença mais temida por todo o mundo?

Não existe exatamente uma contradição entre as boas notícias e a persistência do câncer. A cada dia mais pacientes são curados dessa doença. Mas também é natural a percepção de que se morre cada vez mais de câncer porque, à medida que os sistemas de saúde se tornam mais eficientes, amplia-se a expectativa de vida da população. Então, como a probabilidade de ter câncer cresce exponencialmente com a idade, o número de casos aumenta também. Se a expectativa de vida fosse, hoje, de apenas 40 anos, o câncer não seria um problema; como ela é de 75 anos em muitos países, a incidência da doença é grande. E isso não depende dos avanços no tratamento.

De qualquer forma, é um desafio tratar e entender o câncer…

Acontece que as diferenças entre as células de um tumor e uma célula normal são mínimas. Não é como uma infecção, na qual um vírus ou uma bactéria modificam as células de maneira evidente, muito fácil de verificar. Lembre-se de que estamos falando de nossas próprias proteínas, que, ao dar origem à doença, trabalham um pouco além do normal ou um pouco menos do que deveriam. Uma terapia que atue de maneira profunda sobre os mecanismos da doença precisa manipular, com a maior sutileza, processos que acontecem na célula normal, mas que estão de alguma forma desregulados.

O câncer começa quando algumas células do corpo se descontrolam e passam a se comportar de maneira anormal. Mas como esse desarranjo tem início?

Conhecemos hoje mais de 100 genes implicados no desenvolvimento do câncer. São eles que desviam as células do seu funcionamento normal, sadio. Descobrimos que não funcionam isoladamente e, a cada dia, aprendemos mais sobre a relação entre eles. A conclusão é que participam de uma complicada rede de transmissão de sinais dentro das células. Pode-se dizer que o câncer decorre de uma falha de comunicação, ou de comunicações truncadas, dentro das células.

Como o tumor se desenvolve?

Para isso, é preciso que as células acumulem mutações ao longo do tempo. Nenhuma dessas mutações, por si só, é capaz de gerar um tumor maligno: cada uma tem uma conseqüência, que, às vezes, é a ativação de um oncogene, outras vezes a desativação de um gene supressor, cuja função é desativar processos malignos. O resultado, depois de algum tempo – que depende do tipo de câncer, do comportamento da pessoa etc. –, pode ser a proliferação acelerada de células. O tumor é um conjunto de células transformadas.

O que causa as mutações?

Em alguns casos, elas decorrem de fatores externos, como os componentes do fumo e outras substâncias. Essas são evitáveis. Mas também há causas internas que, ao menos de acordo com o que sabemos hoje, parecem inevitáveis.

Poderia dar um exemplo de uma mutação desse segundo tipo?

Cada vez que uma de nossas células se divide, ela tem que copiar uma cadeia de 3 bilhões de pequenas substâncias químicas, integrantes do seu DNA. A probabilidade de haver erro nessa cópia não é muito grande, senão já teríamos desaparecido como espécie. Mas acontece. Não há como evitar deslizes em um número tão grande de cópias. Uma falha como essa é uma mutação e quando ela atinge um gene importante para a proliferação celular, há risco de câncer.

E quanto aos fatores externos?

Eles também levam a mutações, mas nesse caso elas não se devem a um erro; não é uma mudança ao acaso de um gene. A transformação é induzida por alguma substância. Um exemplo são os cânceres ocupacionais, em que as pessoas são expostas a substâncias geradas pelo trabalho que fazem. O primeiro câncer ocupacional, descoberto entre os limpadores de chaminés da Inglaterra, foi o câncer de escroto. Ao que parece, os homens tocavam essa região do corpo com as mãos sujas de fuligem, que contém carcinógenos, como o alcatrão. Essas substâncias penetravam através da pele, causando o mal. Hoje esse câncer está praticamente erradicado dos países desenvolvidos porque já se conhecem os agentes que o produzem.

O fumo é um fator externo bem conhecido e você é conhecido pela luta sem trégua que trava contra o cigarro…

Fumar não é outra coisa senão uma auto-agressão. Como é possível que uma sociedade que se diz culta seja capaz de se auto-agredir com esse hábito? É algo que os oncologistas não sabem explicar. Basta dizer que a forma mais eficaz de lutar contra o câncer é parar de fumar. Muito mais do que qualquer medicamento que se possa descobrir nos próximos 10 anos.

Nem todo fumante tem câncer…

Há pessoas mais propensas a desenvolver um tumor do que outras. A probabilidade de ficar doente não é a mesma para todos. Mas está claro que alguns tipos de câncer, como o de pulmão, são quase exclusivos de fumantes. Se hoje as pessoas parassem de fumar no mundo inteiro, dentro de 20 anos a diminuição do câncer em indivíduos com idade inferior a 70 anos seria espetacular.

O que se pode dizer dos celulares?

Ainda é um debate aberto e não é possível dizer se causa ou não a doença. Talvez nunca possamos dizer.

Que novidades podemos esperar no terreno da terapia, a curto prazo?

O principal tratamento vai continuar sendo a cirurgia: é o único meio do qual se pode falar em cura com “c” maiúsculo. Quanto à radioterapia e à quimioterapia, a questão é que matam também o órgão sadio, além das células malignas. Então, na radioterapia, por exemplo, o desafio não está em procurar compostos mais potentes, mas mais seletivos. Acreditamos que é possível encontrar moléculas químicas “espertas”, que agem apenas sobre o tumor. Nesse terreno é que podemos esperar novidades.

Frase

Parar de fumar é muito mais eficaz contra o câncer do que qualquer remédio que possa ser descoberto nos próximos 10 anos