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Medalhas de ouro

Os brasileiros não são feras apenas nas quadras e nos tatames: também furam bloqueios e marcam pontos na competitiva área da ciência intemacional. Inquietos, apaixonados pelo conhecimento e incansáveis no trabalho, eles compensam com essas virtudes o desequilíbrio flagrante em termos de recursos materiais e humanos .

Flávio Dieguez e Marcelo Affini

Se dependesse apenas das leis da probabilidade, nenhum brasileiro ergueria a cabeça entre a multidão de cientistas que disputam um lugar ao sol no mundo internacional da ciência. A prova está nos números: contando somente os concorrentes americanos, há 1 milhão de pesquisadores, e pouco mais de 50 000 brasileiros, um contingente vinte vezes menor. Além disso, os americanos entram na disputa muito mais bem equipados, pois têm cotações da ordem de 25 bilhões de dólares ao ano, quase 100 vezes maiores que as brasileiras. Combinando as probabilidades, conclui-se que o páreo é duríssimo: 2 000 contra 1.

Números, no entanto, não são decisivos. e o fato é que muitos cientistas, por um motivo ou por outro, conseguem furar o bloqueio. Ao tentar descobrir quem são, como vivem e como trabalham os membros desse clube restrito, SUPERINTERESSANTE entrevistou oito desses autênticos batalhadores. De origem e formação variadas, eles espelham, acima de tudo, a tortuosa história da ciência no pais. O carioca Francisco Dória, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, por exemplo começou a vida profissional no mercado financeiro, saiu da universidade como engenheiro-químico e obteve projeção internacional por meio da Matemática. Aos 46 anos, pai de três filhos, ele se confessa anarquista e, por acaso, faz sucesso justamente por revelar certa anarquia entranhada no disciplinado reino das equações.

Em resumo, não há meio de verificar se um sistema matemático dá resultados definidos, ou se é caótico, com resultados imprevisíveis. Pelo menos foi por encontrar uma prova dessa afirmação que Dória e seu colega Newton da Costa, da USP, vêm recebendo consagradoras citações internacionais. Mais recentemente, o físico André Koch, natural de Juiz de Fora, realizou a proeza de escrever equações originais a respeito de um tema velho de três séculos: as leis da Gravitação Universal, do inglês Isaac Newton. Ele mesmo conta que não sabe explicar como se deu a virada em sua carreira, iniciada quando estudava plasmas — gases eletrificados — no Culham Laboratory do Departamento de Energia Atômica da Inglaterra.”Comecei a lidar com equações gravitacionais quase por acaso. Meus colegas me chamavam de louco e fui proibido de desenvolver pesquisas paralelas ou até de comentá-las no horário de trabalho.” A saída foi usar as noites e os fins de semana para aprofundar suas próprias idéias.

Por sorte, os artigos que preparou caíram nas mãos de um especialista, o americano Peter Graneau, que chamou a atenção para eles no concorrido Congresso Internacional sobre Fundamentos da Física e da Matemática no Século XX, em Perugia, Itália, em setembro de 1989. Foi surpresa para os hábitos simples que Koch mantém desde a época em que era voluntário do CVV — Centro de Valorização da Vida, criado para ajudar as pessoas em momentos difíceis.”Fiquei envergonhado, pois não sabia que Graneau falaria sobre mim. Eu nem o conhecia pessoalmente.” Eles agora trabalham juntos no Center of Electromagnetics Research, Estados Unidos e, no final de 1991, Koch foi incluído no comitê de organização do Congresso Internacional sobre os Conceitos de Espaço e de Tempo na Ciência, realizado na ex-União Soviética. É uma prova inegável de prestígio, especialmente em vista da pouca idade do brasileiro, que em agosto completou 30 anos. Nem sempre é assim, claro. Mais comumente, os prêmios representam o trabalho de toda uma vida, como aconteceu com a engenheira-agrônoma Johanna Döbereiner.

Quando tinha 21 anos, Döbereiner e sua família foram expulsas da terra natal, a Checoslováquia, por culpa do furor antinazista. Logo após a II Guerra, esse sentimento se estendeu indiscriminadamente às pessoas de ascendência alemã que viviam na Checoslováquia. Assim. nos três anos seguintes. a fatura cientista não teve vida fácil nas fazendas alemãs, onde realizava tarefas de simples peona, como a capina e a ordenha. No entanto, ela conseguiu fazer o curso de Engenharia Agronômica na Universidade de Munique, no qual se graduou em 1950. Mudou-se nos meses seguintes para o Brasil e foi contratada pelo Ministério da Agricultura. Os conhecimentos que acumulou em Microbiologia do Solo lhe valeram o Prêmio Ciência da ONU, em 1989, logo depois de ela anunciar a espetacular descoberta de micróbios que se procuravam no mundo inteiro devido ao seu valor para a agricultura. “Essa pesquisa começou com um laboratório e eu sozinha, em 1951. Agora temos a liderança mundial nessa área.” Entre os lucrativos micróbios está a bactéria Saccharum officinarum, que se hospeda na cana-de-açúcar e é capaz de aspirar nitrogênio da atmosfera. Esse gás, no fim das contas, é repassado na forma de alimento gratuito aos vegetais, dispensando gastos de milhões de cruzeiros anuais (o nitrogênio representa 70% do custo total dos fertilizantes).

Döbereiner já havia participado do esforço para empregar micróbios-adubos nas legumninosas, conhecidos há mais tempo. Deve-se a eles, a partir da década de 60, boa parte do êxito da soja brasileira — a única que não usa fertilizantes derivados do petróleo no mercado mundial. Para o futuro, espera-se que também contribuam para racionalizar a produção da cana-de-açúcar e de cereais, como arroz ou trigo. “A cana pode fixar ainda mais nitrogênio que a soja”, garante a cientista. Muito simples, mas segura, Döbereiner impressiona especialmente por sua imensa disposição de trabalho. Sua agenda de viagem começou este ano com um passeio de férias em janeiro à África do Sul, onde vive sua filha. Em fevereiro, organizou um simpósio sobre meio ambiente na Academia Brasileira de Ciências, e em março fez conferências em duas universidades alemãs e em Paris. Em abril e maio, esteve nos Estados Unidos e em outubro irá à China e a Roma. Até o final do ano deverá passar pela Malásia, México e Kuwait, e para 1993 programou duas idas ao Egito.Não é exagero, no entanto. Muitos cientistas realizam périplos semelhantes. É que o mérito raramente cai do céu. Mesmo que passos decisivos possam surgir de um golpe, eles quase sempre são precedidos de muito suor — na definição do poeta pernambucano João Cabral de Mello Neto, o trabalho depende mais da transpiração do que da inspiração.Sem dizer que não é raro ver bons resultados passarem inteiramente despercebidos.

O físico José Leite Lopes cita um caso pessoal, de 1958, quando previu a massa de certas partículas subatômicas, fundamentais para se compreender a natureza profunda da energia nuclear. Batizadas W+, W- e Z0 (dáblio mais, dáblio menos e zê zero), sua existência foi comprovada experimentalmente no início dos anos 80. Mas o cientista conta que seus cálculos não foram bem recebidos, embora se aproximassem bastante dos valores obtidas nos experimentos. E veja-se que Leite Lopes já era pesquisador de gabarito internacional. Em 1939, este recifense havia deixado a casa paterna graças à fábrica de alimentos Peixe, que lhe concedeu uma bolsa para aprofundar os estudos em Engenharia Química.Já no Rio de Janeiro, o jovem pesquisador preferiu desbravar os caminhos da Física, área em que se tornou bem conhecido no pais, até ser exilado durante o governo Costa e Silva, em 1969. Em muitos casos, há um reconhecimento informal, mas na prática relegam-se os méritos ao descaso. Um exemplo notável é o do professor Mário Schenberg, que até a morte, em 1990, foi um dos maiores físicos da sua geração, em qualquer país.

Ele se tornou conhecido especialmente por suas sacadas sobre o funcionamento das estrelas superdensas. Há alguns anos, no entanto, causou desagradável surpresa um artigo do americano Hans Bethe para a revista Scientific American. Embora o texto fizesse o balanço das principais descobertas nesse campo, em nenhum momento se referia ao nome de Schenberg.Por outro lado, também não é raro encontrar exageros evidentes na avaliação das pesquisas nacionais. Obviamente, não é assim que se chama a atenção do público. Apenas quando se acompanha com cautela e critério o desenvolvimento dos fatos se chega a uma avaliação correta dos resultados científicos. Os próprios cientistas agem assim, como testemunha o astrofísico José Pizarro de Sande e Lemos. Português de 34 anos, metade dos quais vividos no Rio de Janeiro, onde ensina Teoria da Relatividade, no Observatório Nacional, ele precisou dar meia volta ao mundo — viajando até o Japão — para se certificar da importância de seu achado. Que estava lidando com algo grande, Lemos não tinha dúvida. Apaixonado por um dos personagens mais estranhos do Universo, os buracos negros, ele utilizou a Teoria da Relatividade para destrinchar sua natureza.

Com sorte, foi capaz de provar que esses corpos podem, sem qualquer restrição, exibir ao mundo externo o seu cerne — onde a densidade da matéria tende ao infinito, algo que os relativistas denominam singularidade. Em outras palavras, ele mostrou que uma singularidade pode estar nua, ou seja, nem sempre está revestida por um buraco negro, como se acredita desde que tais monstros cósmicos foram descobertos, há 30 anos. Apesar disso, Lemos imaginou que tal resultado já deveria ter sido obtido por alguém, e decidiu tirar a dúvida com o cientista canadense Werner Israel, considerado o “papa” desse complicado tema. Encontrou-o num congresso no Japão. “Quando contei o que tinha feito, percebi que seus olhos brilhavam. Depois confessou que há muito tempo procurava a relação entre os dois fenômenos, sem sucesso.”Sem perda de tempo, Lemos publicou um artigo na Physical Review Letters, a mais importante da área de Física, e ganhou notoriedade, no último mês de abril, quando recebeu um comentário favorável da revista inglesa New Scientist. É curioso notar que às vezes se dá grande atenção a um tema sem que se perceba a força de suas conseqüências. Nesses termos, talvez a láurea de mais expressiva contribuição brasileira à ciência nos últimos anos pertença à professora Niéde Guidon. Natural de Jaú, SP, ela escreveu em 1986 um artigo que iria ajudar a mudar os rumos da Arqueologia na América, pois descrevia pistas fortes de que o Piauí teria sido habitado há mais de 30 000 anos.

Em contraposição, a teoria tradicional sobre o assunto sustentava desde os anos 40 que o continente havia sido povoado apenas de 20 000 anos para cá. Como sinal de que os tempos tinham mudado, o artigo de Niéde foi transformado em capa pela mais respeitada revista de ciência, a inglesa Nature. Mais de dez anos se passaram até que algo assim acontecesse. Foi preciso assegurar e reassegurar de todas as maneiras possíveis que as pistas encontradas no Piauí eram reais, e não fruto de um eventual engano na hora de estipular a data dos objetos arqueológicos. Isso demandou paciente esforço nos sítios de São Raimundo Nonato, no coração da caatinga nordestino.Afinal, a desconfiança e a resistência tradicionais tiveram de ceder. Os sítios piauienses estão hoje preservados como patrimônio da humanidade (sob indicação da Unesco) por serem a maior concentração de vestígios arqueológicos do continente. Além disso, admite se que eles incluem os mais antigos sinais da presença do homem na América — as mais recuadas datas alcançam 60 000 anos. Mas, embora tais fatos tenham tido ampla divulgação, tratou se apenas timidamente de seu impacto a longo prazo. O fato é que, a partir de 1986, Niéde se colocou no foco de uma reviravolta cuja tendência é desbancar a teoria vigente, em vigor há pelo menos meio século.

O evento já tem data para acontecer: no próximo ano, o Piauí deverá sediar um congresso de especialistas com a missão de reexaminar os fatos e propor uma nova maneira de interpretá-los. Dificilmente se chegará de imediato a um consenso sobre a teoria capaz de resumir as intrigantes descobertas recentes. Mas é o primeiro passo nessa direção. Há motivo de sobra, portanto, para se pensar que a ciência brasileira não vai tão mal das pernas pelo menos não tão mal quanto se poderia supor em vista das dificuldades econômicas. Mesmo porque, os cientistas bem-sucedidos não se contam nos dedos, mas sim às centenas: seria impossível descrever o trabalho de todos aqueles que contribuem para o progresso da atividade acadêmica no país.

Apesar disso, é preciso ter em mente que o Brasil sempre teve nomes isolados de destaque internacional, e não parece que hoje o seu número seja maior ou menor que em outros tempos. De acordo com o bioquímico Rogério Meneghini, da Universidade de São Paulo, o país ocupa um modesto trigésimo lugar em termos de artigos publicados em revistas especializadas e contribui com algo em torno de 0,5% para o trabalho acadêmico. Não é um critério perfeito, mas dá uma idéia das proporções envolvidas. Meneghini acredita que a ciência brasileira está estacionada. Não mudou para pior nem para melhor, nas últimas décadas.

Outro fato relevante é que, na ciência, mais do que no esporte, não basta formar craques: para dar tudo o que podem, estes últimos têm de estar acompanhados por diversas equipes, capazes de ampliar os trabalhos inovadores e dar-lhes continuidade. Os cientistas costumam dizer que é importante ter massa critica: em Física atômica, é uma quantidade mínima de urânio, abaixo da qual as reações nucleares não chegam a produzir uma detonação nuclear. Da mesma maneira, num pais em que não há massa crítica de pesquisadores, os resultados científicos são esparsos — não se somam e não têm continuidade.Com um número mínimo de pesquisadores, nem todos serão campeões, mas ficará mais fácil ganhar medalhas. A analogia com as Olimpíadas é obviamente inexata, mas ilustra o desempenho acadêmico no Brasil, concentrado em poucos feitos solitários.Os cientistas reclamam que a cultura científica da sociedade é pobre e agrava a situação: falta consciência clara do problema e falta exigir uma ciência melhor.

“Os brasileiros parecem pensar que videocassetes dão em horta”, ironiza o matemático Francisco Dória. “Fico indignado com o descaso do governo com a educação, a ciência e a tecnologia”, emenda o geneticista Warwick Kerr, o mais respeitado especialista em abelhas do mundo. Com 70 anos, graduado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP, em Piracicaba, SP, ele carrega em seu curriculum uma teoria sobre como se formam algumas raças de abelhas e como se determina a rainha em uma colméia.Graças ao conjunto de seu trabalho — que vai das abelhas ao reino das plantas, onde introduziu hortaliças geneticamente alteradas, com maior teor de vitamina A —, Kerr é dono de uma disputada vaga na Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. O único brasileiro. Com tal estatura, seria fácil encontrar bom emprego em qualquer lugar do planeta, e alguns cientistas realmente pensam em sair do país. No final do ano passado, por exemplo, Leite Lopes retomou seu cargo de professor titular na Universidade de Estrasburgo, França. “O cientista não tem chance de desenvolver tecnologia aqui.”O matemático Francisco Dória namora a idéia de tomar o mesmo rumo.

“Pretendo buscar um ambiente onde a ciência seja valorizada. “Autor de uma festejada teoria sobre o espalhamento da luz nos arco-íris, muito útil na análise da estrutura profunda da matéria, no interior do núcleo atômico, o físico Moyses Nussenzveig toca no fulcro da questão. Dizendo-se velho demais para deixar o Brasil, ele argumenta que houve avanços significativos. “Várias áreas conseguiram atingir o nível internacional.” No entanto o que se consegue num período quase sempre se perde numa etapa posterior, seja por falta de recursos financeiros ou de profissionais tão qualificados quanto seus antecessores. Nussenzveig pensa que o atual descaso prenuncia anos de vacas magras no futuro. “A carência de recursos ameaça destruir um edifício que levou mais de meio século para ser construído.” Ele próprio é um exemplo marcante do atual prestigio dos brasileiros, atestado em 1986 por meio do Prêmio Max Born, concedido pela associação americana Optical Society of America.

De maneira explosiva, na última reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em julho, ele declarou que as reduzidas verbas existentes só dariam para preservar os cientistas em formol. A engenheira-agrônoma Johanna Dobereiner concorda — ela diz que a pesquisa está em boa fase, mas acredita que há risco de recaída sem uma reviravolta na recente temporada de cortes.Feitas todas as contas, talvez o maior mérito da ciência brasileira tenha sido sua capacidade de conservar o mesmo ritmo de outros tempos, a despeito de todas as diculdades. Afinal, o rigor da recessão econômica já dura pelo menos uma década. Mesmo assim, não se abateu o animo dos cientistas, que em alguns casos parece inesgotável. Basta ver o depoimento de Döbereiner. “A maior satisfacão da minha vida foi o grupo de oitenta pesquisadores formados no Centro Nacional de Pesquisa em Biologia do Solo. Para mim, isso significa a sensação de ter criado alguma coisa para o país e para o mundo inteiro, já que outros países estão usando nossa tecnologia.”

Para saber mais:

100 motivos para se orgulhar da ciência brasileira

(SUPER número 1, ano 10)

Francisco Dória, matemático, 46 anos

“Eu me considero mais anárquico que maus alunos. Já dei inclusive aula para eles ensinando como anarquizar o sistema· Quando eu morrer, se Deus vier perguntar o que eu fiz com o talento que ele me deu, eu digo: fiz uns teoremas divertidos. O Brasil não tem uma cultura científica. Não tem demanda social pela ciência. Mas na universidade se valoriza o trabalho de cientista. Eu nunca estimularia meus filhos a seguir a carreira científica. Um deles quer isso. Vou sugerir a ele que estude no exterior. Aos 22, 23 anos eu tive uma oferta para ser diretor de corretora, ganhando muito bem. Larguei tudo por uma bolsa de pós-graduação. Foi uma decisão louca, mas era o que eu queria.

Johanna Döbereiner, engenheira-agrônoma, 67 anos

“A pesquisa científica brasileira tem se desenvolvido muito nos últimos 30 anos. Em todos os campos, surgiram vários nomes de projeção internacional” Os jovens que estão pensando em iniciar a carreira de cientista precisam escolher assuntos importantes para a agricultura. Vale a pena fazer ciência no Brasil, se você tem o prazer e a capacidade para ser cientista. Se você gosta mais de fazer ciência do que de dinheiro. Meu neto de 16 anos está me ensinando a mexer no computador. Os técnicos querem ensinar toda a filosofia da Informática, mas isso não me interessa. Nos momentos de lazer, eu vou para o sítio onde tenho uma grande coleção de fruteiras tropicais raras. Antigamente, eu jogava tênis, mas não jogo mais. O grande problema do pais é a enorme diferença entre os salários. Eu acho injusto o salário mínimo.

José Lemos, físico, 34 anos

“A Física brasileira já é uma ciência de peso intemacional. atualmente está caindo porque não tem sido administrada como poderia ser. Vale a pena fazer ciência no Brasil, mas você tem que gostar muito” Corro três vezes por semana na praia e gosto muito de música, de Pink Floyd a Caetano, Gil, jazz e clássica. Praticamente deixei de ir ao cinema. Geralmente acordo às 10 horas, chego ao laboratório às 11 e meia e fico até às 21 horas. Há qualidades mais importantes para o cientista do que a inteligência: trabalho, perseverança, seriedade são muito importantes. O cientista não é muito diferente de qualquer outra pessoa. Talvez um pouco mais eremita. Para compensar, saio mais vezes do que sairia normalmente. Se tivesse oportunidade de me radicar no exterior, minha primeira intenção seria não ir. Eu me sinto melhor no Rio.

Niéde Guidon, arqueóloga, 59 anos

“Não tenho rotina. Quando estou fazendo escavações, passo o tempo todo no campo. Levanto às 5 da manhã e trabalho até as 6 da tarde”

Quem quiser se tornar cientista tem que ter disciplina, gostar de estudar e adquirir boa cultura geral. Tem que ser inquieto e curioso. Eu gosto de ouvir música, ir ao teatro, ao cinema, andar na praia, colher cogumelos na floresta, jogar pôquer. Meu pai foi fiscal de rendas do Estado. E ótimo: foi ele quem me ensinou a amar o trabalho e a disciplina. Ninguém influenciou minha carreira. Eu era professora de Ciências e fui comissionada no Departamento de Arqueologia do Museu Paulista. Daí, virei arqueóloga. Falo francês, inglês, espanhol, italiano. Leio (mal) o alemão técnico. Somente burgueses precisam de horas de trabalho e de lazer. Se estou no teatro, me divirto, mas também tenho prazer em escavar. Não sou casada porque odeio as formalidades burguesas.

Warwick Estevam Kerr, geneticista, 70 anos

“Quando era menino em Pirapora do Bom Jesus, passava as tardes num barco em busca de orquídeas no Rio Tietê O prazer pela observação foi o primeiro indício da vocação de cientista”

O que mais impressiona na carreira científica é o amor à verdade, que às vezes não se vê nem na religião. No segundo ano primário, a professora perguntou quem queria trocar de cabeça com Rui Barbosa. Eu respondi que não. Eu não sabia se eu era mais inteligente que ele. Ela ficou muito irritada. Três grandes honras recentes: uma delas foi me tornar membro titular da Linnaean Society de Londres, a mais antiga associação científica do mundo. A ciência é fantástica e especialíssima. Todas as coisas do mundo podem acabar. A ciência, não. Fico indignado pelo fato de o governo dar tão pouca importância à educação, à ciência e à tecnologia. Meu negócio é trabalhar com bichos e plantas.

Herch Moyses Nussenzveig, físico, 59 anos

“A satisfação pessoal que vem do trabalho compensa todas as dificuldades materiais e frustrações pelas quais um cientista tem que passar. A paixão venceu todos os obstáculos”

Adoro ler novelas policiais, dois ou três livros por semana. Também sou apaixonado pelo cinema e hesitei entre esta carreira e a de Matemática. Pode-se dizer que passei a infância na Biblioteca Municipal de São Paulo onde conheci o escritor Monteiro Lobato quando tinha entre 11 e 15 anos. Sou meio autodidata. Desde muito cedo procurei alimentar meu interesse por Matemática e Física teórica com leituras fora do currículo. O que mais me impressiona como cientista é uma frase de Einstein, de que o mais incompreensível na natureza é que ela pode ser compreendida. Boa parte do trabalho se passa na cabeça. Pode-se acordar ou sair do chuveiro com a solução de um problema .Nem percebe como aconteceu.