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Medo – Pavor sem limites

Ele salvou a humanidade de predadores e de riscos desnecessários. Mas, quando deixa de ser uma ferramenta de sobrevivência, surgem as crises de pânico e as fobias. E a rotina normal fica impossível

Por Tiago Cordeiro
Atualizado em 31 out 2016, 18h50 - Publicado em 19 Maio 2012, 22h00

Experimente sair de casa sem medo. Deixe a carteira e o celular bem à mostra, atravesse a rua sem olhar para os lados, não dê a mínima para aquele buraco na calçada. Em menos de 10 minutos, estará mais pobre – e numa cama de hospital. Melhor ser mais cuidadoso, certo? Pois o medo é uma ferramenta evolutiva fundamental para a sobrevivência como espécie.

“Quando ficamos assustados, o cérebro recebe uma grande descarga de adrenalina, que barra funções menos importantes e prioriza os mecanismos necessários para escapar da ameaça. Hoje é um assaltante, no passado era qualquer animal que quisesse nos devorar”, diz o neurocietista Joseph LeDoux, diretor do Centro da Neurociência do Medo e da Ansiedade, de Nova York.

Se um carro passar perigosamente perto de você na rua, você dificilmente vai reparar em seu modelo ou cor. O corpo se mobilizará totalmente nas ações necessárias para não ser atropelado. Isso porque situações de risco disparam um circuito neural mais curto: o estímulo vai direto do tálamo (o “radar” que colhe informações ao nosso redor) para a amígdala (que reconhece o perigo e alerta o corpo), sem passar pelo córtex, responsável pelo raciocínio. Com isso, a transmissão de informações que normalmente demora 0,3 segundo passa a acontecer em 12 milésimos de segundo, um intervalo imperceptível para o humano.

Agora, quando o susto passa, o organismo precisa se reequilibrar. Esse é um processo desgastante, que não deveria se repetir com frequência, à custa de causar danos ao organismo e à saúde mental. Mais do que isso: quando o medo deixa de aparecer apenas em situações de risco, ele se transforma em uma doença que ameaça a própria rotina.

“É difícil marcar o limite entre saúde e doença em casos de medo exagerado. O critério mais adotado é também o mais simples possível: quando se deixa de ser um bom estudante, trabalhador, cônjuge ou filho porque se está paralisado pelo pânico ou muito debilitado fisicamente”, diz Martin Antony, professor da Universidade Ryerson. O passo seguinte é identificar o problema específico. Os medos exagerados se dividem em vários grupos. Comecemos pela ansiedade.

 

Vários níveis
A ansiedade é uma apreensão normal diante de situações desconfortáveis. É como uma criança se sente quando começa a dormir sozinha no próprio quarto. Com o tempo, ela acaba se acostumando ao novo ambiente e a ficar no escuro só. Quando essa normalização não acontece, estamos diante de um transtorno ansioso, caracterizado pela insônia, dificuldade para se concentrar, irritabilidade e batimentos cardíacos levemente acelerados. “Entre os transtornos ligados ao medo, em geral a ansiedade é o mais comum”, afirma o professor Antony. É também a mais longa – ela pode durar meses. Mas a situação fica muito mais grave no transtorno do pânico – a popular “síndrome de pânico”.

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De repente, a pessoa fica sem ar. O coração dispara e surgem tremores, tonturas, muito suor, náusea e desarranjos gastrointestinais. E tudo isso sem motivo aparente. Ainda que sejam bem mais curtos (em geral duram de 5 a 10 minutos), esses problemas são muito mais intensos que a ansiedade. É comum o paciente ir a um pronto-socorro achando que está sofrendo um ataque cardíaco. Enquanto a suspeita não é descartada e os médicos realizam testes, a ansiedade só aumenta. Mesmo quando o pior já passou, o medo intenso de o problema se repetir se instala com toda força. “A pessoa demora para procurar ajuda, com medo do estigma que ronda as doenças mentais. Isso só agrava o problema”, afirma LeDoux.

Esse transtorno costuma se manifestar entre o fim da adolescência e os 30 anos e é especialmente comum em quem tem traumas na infância. Mulheres sofrem duas vezes mais. Por quê? Cientistas ainda não têm certeza. Avaliam que a taxa de depressão maior em mulheres, as mudanças hormonais e abuso sexual na infância aumentem o risco.

Os ataques de pânico são bem diferentes das crises de ansiedade, mas estão diretamente ligados a outro tipo de transtorno relacionado ao medo: as fobias. Muitas delas surgem do pavor de sofrer novos ataques de pânico. “Quem já foi vítima do problema em lugares públicos, por exemplo, pode desenvolver agorafobia, o medo patológico de sair em locais abertos com muitas pessoas”, afirma LeDoux. Assim surgem fobias graves, como medo de voar, comer ou falar em público e ficar em lugares altos ou fechados.

 

Tratamentos
Medos patológicos não têm cura, mas são controláveis. Alguns medicamentos recentes são comprovadamente eficazes, como a imipramina e a clomipramina, contra a síndrome do pânico. Outros dois produtos químicos, a sertralina e a paroxetina, atuam na recomposição da serotonina, um dos neurotransmissores ligados ao humor. Para os transtornos de ansiedade social, a fenelzina funciona. Já os benzodiazepínicos são usados há 3 décadas, mas causam dependência.

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Os medos exagerados podem ser resultados de dois fatores – desequilíbrios químicos, tratados com remédios, e situações traumáticas do passado, como acidentes graves ou a perda dos pais. E aí a recomendação é a terapia.

A mais comum consiste em encarar de frente a fonte do medo: pessoas que ficam apavoradas na hora de falar em público, por exemplo, são estimuladas a praticar em família ou com amigos próximos. Quem se apavora em lugares públicos sai ao lado do terapeuta e de pessoas confiá-veis para passeios cada vez mais longos e em ambientes mais movimentados. “É importante que o paciente se acostume com as situações que lhe causam medo, seja observando ratos em gaiolas, seja comendo diante de estranhos no shopping. Ao incorporar o motivo que desencadeia ansiedade à rotina, a pessoa consegue controlá-lo melhor”, afirma Antony.

Um tipo inusitado de terapia contra a síndrome do pânico segue o mesmo raciocínio: o paciente é submetido a um ataque em ambiente controlado, dentro de um laboratório. Para isso, é colocado em uma sala fechada, muito quente. Sua cadeira é girada rapidamente. Depois, ele é orientado a segurar a respiração e, na sequência, correr em círculos. O ciclo é repetido de 3 a 5 vezes por dia, até que o paciente não se sinta mais tão angustiado com os sintomas replicados.

Também existem formas de prevenção. As mais simples são evitar substâncias estimulantes – por exemplo, a cafeína, a nicotina e o álcool. Entre as vítimas do problema nos EUA, apenas 30% bebem com regularidade, contra 61% da média da população daquele país.

 

 

Como funciona o susto
Você está limpando sua coleção de CDs, e eis que uma aranha pernuda surge da poeira. Imediatamente você dá um pulo de medo. O coração dispara, e o suor já brota frio. Depois, você vê que a situação não é perigosa assim e pensa em como se livrar do bicho. Primeiro, o reflexo; depois, o raciocínio. Eis a dupla via do medo no cérebro humano.

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1. Assim que seus olhos captam a imagem da aranha, ele envia estímulo visual dado ao tálamo.

2. O tálamo, que centraliza e redistribui os estímulos no cérebro, não tem certeza se a imagem representa perigo. Então, só para garantir, envia-o ao mesmo tempo à amígdala e ao hipocampo.

 

CIRCUITO COMPLETO

3B. O córtex visual interpreta significados do estímulo, mas passa o bastão para o hipocampo para chegar a uma decisão.

4B. O hipocampo compara o estímulo com experiências anteriores e informações do ambiente. Conclui que o bicho está longe e que basta um chinelo para matá-lo.

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5B. O hipocampo diz então à amígdala que não há perigo.

6B. A amígdala manda o hipotálamo acalmar o seu corpo.

 

ATALHO

3A. A amígdala, responsável por reações emocionais, acredita que essa pode ser uma situação de risco e manda o hipotálamo agir.

4A. O hipotálamo, que liga o sistema nervoso ao sistema endócrino, vai desencadear no corpo respostas de “luta ou fuga” para você se safar do perigo:

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• A pressão arterial e os batimentos cardíacos aumentam.

• As pupilas se dilatam.

• As artérias da pele se contraem para mandar sangue aos músculos. Daí a razão para sentirmos calafrio.

• Os músculos ficam duros.

• Os sistemas digestivo e imunológico são desligados para guardar energia.

• O cérebro só se concentra em uma coisa: a ameaça.

 

 

Para saber mais

Transtorno de Pânico
Flavio Kapczinski, Artmed, 2003.

Síndrome do Pânico
Sofia Bauer, Caminhos, 2005.

 

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