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Molécula da semana: morfina, a molécula por trás do ópio

A substância batizada em homenagem a Morfeu causou duas guerras e viciou 12 milhões de pessoas antes de se tornar um analgésico comum nos hospitais.

Por Bruno Vaiano - 17 jul 2020, 19h24

No século 18, a Inglaterra importava seda, chá e porcelana da China aos baldes. Os chineses, porém, não demonstravam interesse por nenhum produto inglês. A balança comercial estava desequilibrada, o dinheiro fluía apenas na direção do Oriente.

Pessoas viciadas em drogas são pródigas compradoras de mais drogas. E os ingleses conheciam uma droga poderosa: o ópio. Ele é extraído do látex da papoula P. Somneferum, uma planta cultivada na Índia – cujo território, na época, era colônia do Império Britânico. Plano perfeito: era hora de viciar os chineses até pegar cada centavo de volta (ética não era bem o forte desse pessoal).

No auge da sacanagem, 2,5 mil toneladas de ópio eram despejadas na China por ano, viciando 12 milhões de cidadãos e desequilibrando a gangorra das exportações para o lado dos ingleses. A dinastia Qing proibiu a droga e, incapaz de lidar com o tráfico ilegal, entrou em duas guerras com a poderosa Marinha Real. Perdeu ambas. Foi assim que Hong Kong foi parar na mão dos ingleses – gerando um impasse geopolítico que reverbera ate hoje. 

Entre 1803 e 1805, o químico alemão Friedrich Sertürner isolou o princípio ativo do látex da papoula. A droga que subjugou uma civilização milenar. A molécula, que perfaz algo entre 8% e 14% do ópio, foi batizada de morfina – em referência a Morfeu, o Deus grego dos sonhos. E ela de fato estava por aqui desde os tempo de Morfeu. 

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No século 2, o médico grego Galeno o recomendava para curar coisas tão distintas quanto asma, epilepsia, tristeza e pedras nos rins. No século 16, o alquimista suíço Paracelso misturou a droga com álcool, almíscar e âmbar para criar um elixir contra tosse, insônia, dor e diarreia – o láudano –, que era vendido nas farmácias sem receita até o início do século 20.

A morfina (bem como a heroína) funcionam como versões vastamente mais poderosas das endorfinas, os analgésicos produzidos pelo próprio corpo. Os dependentes param de produzir endorfinas naturais, e a produção não é retomada automaticamente quando o uso da droga é interrompido – o que gera um longo período de depressão e abstinência dolorosa.

Quando você pratica exercícios, faz sexo ou come chocolate, seu corpo libera endorfinas. É o tal “runner’s high”, um barato relatado por muitos atletas de alto desempenho. No fundo, estamos todos em busca de uma versão light de uma das brisas mais nocivas da história.

Leia mais sobre a morfina e a longa história dos opioides nesta reportagem. Esse foi o Molécula da Semana – nosso post semanal sobre química no Instagram, que agora também vai aparecer no site. Aguarde a próxima molécula. Semana que vem, vamos falar do Zolpidem. 

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