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Natalia Mota analisa sonhos para acelerar diagnóstico de esquizofrenia

Muito antes de terem alucinações, pessoas com o distúrbio começam a relatar seus sonhos de maneira diferente. A #MulherCientista dessa semana coloca esses sonhos em gráficos para identificar – e tratar – os pacientes antes que os sintomas fiquem mais graves.

Por Maria Clara Rossini Atualizado em 6 nov 2020, 20h18 - Publicado em 6 nov 2020, 15h32

Quase nenhum sonho faz sentido. Mas a maneira como damos sentido aos sonhos diz muito sobre quem somos. A maioria das pessoas segue um roteiro pré-determinado ao relatar seus devaneios noturnos. O mais comum é começar descrevendo o cenário e os personagens principais da narrativa – para depois relatar os acontecimentos em si, retomando os elementos que já foram apresentados sempre que necessário.

Os neurocientistas do Instituto do Cérebro da UFRN sabem que esse padrão existe porque transformam relatos de sonhos em gráficos. Nesses gráficos, cada palavra do relato é representada por uma bolinha. Enquanto o raciocínio do sonhador está caminhando em linha reta, a bolinhas vão se encadeando, uma atrás da outra. Quando o sonhador repete uma ideia, a fila de bolinhas a dá volta para encontrar novamente a bolinha correspondente a essa ideia.

Natália Mota et al./Reprodução

Transformar os relatos de sonhos em gráficos permite aos neurocientistas identificar padrões que não seriam tão fáceis de perceber se eles apenas ouvissem e transcrevessem as falas dos sonhadores. Pessoas com esquizofrenia, por exemplo, tendem a fornecer narrativas desconexas e fragmentadas – que geram um mapa de bolinhas com uma distribuição claramente diferente do padrão. Compare abaixo.

Natália Mota et al./Reprodução

Uma compreensão aprofundada dessas diferenças pode se tornar uma ferramenta eficaz para acelerar o diagnóstico desse distúrbio psiquiátrico – que, atualmente, leva em média dois anos. Essa é a descoberta mais importante da carreira de Natalia Mota, que trabalha com gráficos desse tipo na UFRN desde 2006, quando fez sua iniciação científica (nome que se dá a um projeto de pesquisa realizado durante a graduação).

Embora existam muitos clichês sobre esquizofrênicos no imaginário popular, os episódios de psicose, com alucinações e delírios, não se manifestam logo de cara. O distúrbio costuma começar na adolescência e progride de maneira discreta: o jovem perde contato com os amigos ou termina um namoro muito antes de sofrer com os sintomas mais óbvios. Como as diferenças nos relatos dos sonhos se manifestam já nesse estágio inicial, é possível utilizá-las para identificar o distúrbio mais cedo e adotar medidas preventivas.

O programa de computador SpeechGraph, desenvolvido pela própria Natalia, consegue identificar o sonho de um esquizofrênico em menos de um minuto de relato. Ele não substitui a sensibilidade do médico que realiza o diagnóstico, mas fornece uma pista importante, que pode acelerar em até seis meses a identificação dos pacientes. 

“Algo que me angustiava muito em ser psiquiatra é essa noção de que o sofrimento mental é pertencente a uma outra classe de pessoas. Existe esse estigma de achar que uma pessoa com esquizofrenia é muito diferente de uma pessoa ‘normal’”, diz a pesquisadora.

Natalia Mota foi indicada ao Nature Research Award de 2019 na categoria Ciência Inovadora pelo estudo. Foi a única sul-americana a participar do prêmio. Atualmente, a neurocientista faz pesquisa do Instituto do Cérebro e é professora na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

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