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Nova teoria diz que humanos já falavam há 1,9 milhão de anos

O mais aceito são meros 50 mil. Entenda a disputa entre teorias – e porque, mais que uma questão linguística, ela tem a ver com a própria natureza humana

Você fala. E isso é incrível. A Terra tem 4,54 bilhões de anos e nesse tempo todo a nossa espécie foi a única que deu um jeito de comunicar ideias complexas usando sequências de sons – ou, na ausência deles, sinais feitos com as mãos.

Tudo bem, macacos e golfinhos também usam vocalizações para transmitir mensagens. São formas simples e eficientes de comunicação, adequadas às necessidades desses animais. Um determinado grito ou ruído pode indicar que há uma ameaça no ar – uma versão um pouco diferente pode indicar que o predador está no solo. Por muito tempo, recados assim, telegráficos, foram os únicos com que nossos antepassados puderam contar.

Há mais ou menos 50 mil anos, porém, algo fora de série aconteceu: surgiu uma mutação genética que conferiu ao cérebro humano a capacidade de unir palavras como se fossem fractais – desenhos geométricos em que cada forma é feita de versões menores de si própria. Calma, explico melhor. Isso aqui é um fractal:

E isso aqui é uma frase “fractal”:

João pediu a Maria que avisasse a Jorge que Ana disse a Júlio que eles iriam se casar.

Entendeu o paralelo? A estrutura se repete dentro de si própria.

Parece banal, mas não é. Com esse gene, nós nos tornamos capazes de dar ordens, organizar caçadas, conversar sobre o fato de que vegetais dão sementes, que essas sementes geram novos vegetais, e que isso acontece em intervalos de tempo previsíveis – já pensou no tamanho da sacada que foi entender e explicar o mundo ao redor? A capacidade de somar palavras é um dos pilares da civilização.

É uma história bonita, mas calma. É impossível saber se foi exatamente isso que aconteceu. O ato de falar não deixa fósseis, então tudo o que sabemos sobre o surgimento da linguagem envolve algum grau de especulação. Quem propôs a teoria que você acabou de ler foi o linguista Noam Chomsky, do MIT – e ela é considerada bem aceitável por boa parte dos especialistas, embora não haja consenso.

Não é à toa: ser linguista e contestar Chomsky é como ser físico e contestar Einstein. Quase ninguém com um parafuso no lugar faz isso – além de inteligência, é preciso coragem para peitar um cara com tanta experiência e argumentos tão sólidos.

Foi por isso que o livro recém-lançado de Daniel Everett, da Universidade de Boston, causou rebuliço entre os céticos. Em How Language Began (“Como a linguagem começou”, sem tradução em português), ele defende que o Homo erectus, a espécie que está logo atrás da nossa na linha da evolução, já falava há 1,9 milhões de anos.

Não é a primeira vez que Everett, com o perdão do trocadilho, dá o que falar. Se você lê a SUPER há muito tempo, provavelmente se lembra de uma matéria sobre suas pesquisas publicada em 2007. Logo de cara, a reportagem diz: “Eles não sabem contar, não diferenciam cores, não conhecem arte ou mitos, não entendem ficção. Os pirarrãs são apenas 350 índios escondidos no meio da selva amazônica. E, mesmo assim, colocam em risco a linguística moderna.”

No cerne da matéria está a recursividade, já explicada ali em cima: após passar uma longa temporada na Amazônia estudando o povo pirarrã, Everett concluiu que os pirarrãs não são recursivos. Ou seja, eles não seriam capazes de expressar a ideia de que “a amiga da tia da prima etc. da sua mãe” fez alguma coisa.

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O problema disso é que, quando Chomsky afirmou que a capacidade de usar estruturas recursivas vem de fábrica, instalada no nosso DNA, ele fez mais do que encontrar algo que nos diferencia de todos os animais: ele colocou todos os seres humanos em pé de igualdade. Na sua visão, todo mundo sai da barriga da mãe com as mesmas capacidades linguísticas – só mudam as línguas em que essa capacidade vai se manifestar.

Everett, por outro lado, afirma que cultura é mais importante que DNA: nós não viemos com quase nada instalado no cérebro. As estruturas gramaticais que usamos são adquiridas pela nossa imersão na cultura e nos costumes de nosso povo, e não por predisposição genética.

Seu livro novo é basicamente uma expansão dessa ideia. Se não é a recursividade que nos separa dos animais – ou seja, se a recursividade é um fenômeno cultural, e não genético –, então não dá para usá-la como o marco inicial da linguagem humana.

Nesse caso, é preciso encontrar outros critérios. Para falar, o primeiro passo do Homo erectus precisa ter sido a capacidade de associar um objeto ou som a algo que não está presente. É esse poder de evocação e representação abstrata que torna as palavras tão eficientes: elefante faz o bicho orelhudo aparecer na sua cabeça, mesmo que não haja um elefante perto de você.

Depois, é preciso unir esses sons que evocam imagens de coisas do mundo – as tais palavras – em conjuntos coerentes. E nesse ponto, crava Everett, já é possível dizer que estamos usando a linguagem. Evidências arqueológicas dão bons motivos para acreditar que isso aconteceu há 1,9 milhão de anos: a nova data. 

Na superfície, parece que o norte-americano apenas mudou o critério para definir um marco inicial. Mas ele faz mais do que isso: ele considera a linguagem uma ferramenta que nós criamos conforme desenvolvíamos um cérebro grande suficiente para processá-la – e não como uma ferramenta que emerge da própria estrutura do nosso cérebro. Uma forma criativa e social de usar um computador, e não algo que já veio instalado de antemão no computador.

A discussão Chomsky vs. Everett é mais do que uma disputa científica. É uma disputa filosófica. Em última instância, eles são representantes de duas longas tradições das ciências sociais e humanas: uma que defende que a cultura é mais importante que a biologia, e outra que defende que a biologia é mais importante que a cultura. Talvez nossos netos saibam a resposta. A maior parte dos cientistas, porém, ainda está com Chomsky – pelo menos no que diz respeito à linguagem.