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A língua que existe por trás das línguas

Todo mundo sabe que o japonês não tem nada a ver com o português, mas processos muito parecidos governam todos os idiomas

Texto Alberto Holtz

Repare na seguinte frase: “Idéias verdes sem cor dormem furiosamente”. Agora nesta aqui: “Na fui roça encontrei passear Madalena”. Qua l é a mais estranha? Você provavelmente responderá que é a 2a, embora reconheça que a 1a, mesmo sendo gramaticalmente correta, no fundo não faz o menor sentido.

Isso porque a língua portuguesa, embora infinitamente rica e capaz de expressar todas as idéias que já foram ou que serão tidas, não é infinitamente livre; ela precisa obedecer a um conjunto de regras, do tipo “o sujeito vem antes do predicado”. O que você talvez não imagine é que todas as milhares de línguas humanas são sujeitas a um conjunto muito pequeno de restrições. E que, apesar de toda a imensa variedade cultural existente entre os idiomas, determinadas construções e certos sons jamais aparecerão em qualquer um deles. Esse “denominador comum” entre todas as línguas decorre da maneira como o Homo sapiens desenvolveu a linguagem no cérebro ao longo da evolução. Ele foi batizado de gramática universal, e tornou-se o padrão-ouro de todas as pesquisas em lingüística hoje.

A existência da gramática universal foi proposta em 1957 por um jovem comunista americano cujo nome hoje é sinônimo de intelectual: Noam Chomsky. Mais conhecido por seu ativismo político contra o imperialismo ianque – dizem que ele é o único sujeito de esquerda nos EUA –, nos anos 50 Chomsky aplicou sua célebre genialidade subversiva à ciência.

Módulo falador

Suas pesquisas o levaram a concluir que os seres humanos possuem um “órgão da linguagem” no cérebro. Esse módulo comporta regras inatas, que permitem a um bebê humano aprender qualquer idioma imerso no qual ele venha a crescer. O órgão ou módulo da linguagem, para Chom­sky, é exclusividade dos seres humanos. Aliás, ele nem teria evoluído originalmente para a linguagem, mas para realizar outros tipos de operação na mente – em especial, cálculos combinatórios. Daí decorre o que Chomsky e seus colegas Marc Hauser e Tecumseh Fitch consideraram ser o principal componente da faculdade da linguagem humana: a recursividade.

O nome é complicado, mas entender a recursividade é fácil: ela é o mecanismo que permite emendar uma frase na outra, criando sentenças teoricamente infinitas, como “João amava Maria, que amava José, que amava Joaquina”. Essa característica é um traço universal da linguagem humana. No entanto, há indícios de que versões primitivas do mecanismo podem estar presentes em outros animais. O sonar dos morcegos, por exemplo, poderia ser considerado recursivo – embora eles não voem por aí recitando Drummond.

1, 2, fora Chomsky?

Poderia uma tribo da Amazônia desafiar o castelo teórico da gramática universal? O lingüista americano Daniel Everett jura que sim. Há mais de 20 anos ele estuda os pirarrãs, um grupo de Rondônia que parece ter um dos idiomas mais pobres do mundo. A língua pirarrã não tem tempos verbais, nem pronomes, nem palavras para designar cores. Seu sistema numérico se limita a contar até dois (depois só vem “muitos”). E, o mais grave, segundo Everett, o pirarrã não possui recursividade. Para ele, a vida dura que os pirarrãs levam, como caçadores e plantadores de mandioca, isolados do contato com outras sociedades, moldou a forma como pensam. Em vez de um mecanismo inato e universal, a pobreza do ambiente acaba determinando uma língua com pobreza de expressão. Embora fascinante, a hipótese de Everett ainda carece de confirmação e tem sido questionada por vários outros lingüistas – todos eles chomskianos, é claro.