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O doutor não estava aqui

Como é comum na medicina, os avanços tecnológicos já estão despertando dilemas éticos, afirma Anuar

Fábio Peixoto

Naquele domingo, o médico americano Louis Kavoussi, do Johns Hopkins Hospital, em Baltimore, Estados Unidos, acordou mais cedo. Pouco antes das 7 horas, ele se dirigiu à biblioteca de sua casa. Vestia camisa xadrez e levava um copo com chá. Lá, se reuniu com uma equipe de colegas brasileiros, prestes a realizar uma cirurgia em um paciente de 17 anos, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. O jovem Rodrigo (nome fictício) tinha varicocele – varizes nos vasos sangüíneos ligados aos testículos. Poderia ficar infértil se não fosse tratado a tempo.

Louis estava encarregado de comandar o grupo. De início, indicou aos colegas onde, no abdome do paciente, deveriam ser inseridos os instrumentos cirúrgicos. Para coordenar a operação, usou um laparoscópio: uma pequena objetiva com câmera acoplada, para ver detalhes do interior do corpo. O equipamento, controlado pelo braço de Louis desde Baltimore, foi introduzido no umbigo de Rodrigo, que estava sobre uma mesa cirúrgica a milhares de quilômetros de distância.

Anuar Mitre, professor de Urologia da Universidade de São Paulo, foi quem executou os procedimentos cirúrgicos. Sob a orientação de Louis, Anuar localizou, cortou e cauterizou as veias obstruídas do paciente. Para garantir a precisão da operação, a intensidade do bisturi elétrico – que serve tanto para cortar quanto para cauterizar – era regulada por Louis. Em 20 minutos estava tudo acabado. Tranqüilo, o médico americano sorveu mais um gole do seu chá, antes de tomar o desjejum com sua família. O paciente recebeu alta no dia seguinte.

Estava terminada a terceira telecirurgia da história, feita no dia 17 de setembro de 2000. A operação, muito simples, poderia ter acontecido sem a orientação de Louis. Mas ela serviu para demonstrar o impacto impressionante da tecnologia na medicina. “A idéia foi apenas mostrar como as coisas funcionam”, afirma Raul Cutait, médico do Sírio Libanês e professor de cirurgia da USP. “Mas a orientação de Louis poderia ter sido fundamental se por acaso os profissionais brasileiros não soubessem usar os aparelhos.”

No caso, o exercício constituiu o que se chama de uma telemonitoração, que se situa entre a teleconferência, na qual os médicos apenas discutem procedimentos, e a telemanipulação, em que um robô executa a cirurgia guiado por um profissional à distância. Em São Paulo, empregou-se um braço mecânico para operar o laparoscópio – ele era controlado por Louis via telefone (e não pela internet, como se noticiou à época). O americano usou linhas de alta velocidade, normalmente utilizadas nas teleconferências. E que ainda não são tão rápidas assim quanto deviam: em cirurgias mais complicadas do que a de Rodrigo, a velocidade teria que ser maior para garantir que o tempo decorrido entre o comando do médico, lá longe, e o movimento do bisturi empunhado pelo robô não supere 200 milésimos de segundo. Além desse limite, o corte pode ser feito no lugar errado. Até hoje, essa presteza só pode ser atingida em distâncias menores que 300 quilômetros, e, ainda assim, se a transmissão for feita por cabo; via satélite os dados viajam duas vezes mais lentamente que o necessário. “Apesar disso, um paciente brasileiro já poderia pedir a um médico em Nova York para acompanhar a sua cirurgia, feita aqui”, diz Raul. “Seria uma espécie de segunda opinião em tempo real.”

Como é comum na medicina, os avanços tecnológicos já estão despertando dilemas éticos, afirma Anuar. “Se ocorrer algum acidente, de quem é a responsabilidade? Do médico que está na sala, do médico que está à distância, ou do fabricante do robô? O Conselho Regional de Medicina permitiria que um médico do exterior operasse um doente aqui?” Assim como os robôs-cirurgiões, as respostas a essas perguntas ainda pertencem ao futuro.

Controle remoto

A primeira telecirurgia do Hemisfério Sul, realizada em São Paulo, foi controlada por um norte-americano. Lá dos Estados Unidos

Em Pessoa

A cirurgia foi feita por Anuar Mitre, no Hospital Sírio Libanês. Com a sua mão esquerda ele segurava uma pinça, e com a direita um bisturi elétrico, regulado remotamente por Louis

Good Morning, Brazil

De Baltimore, Estados Unidos, o médico Louis Kavoussi se comunicava com os colegas brasileiros por meio do monitor do computador – ele nunca os havia visto pessoalmente

Clique-clique

Com um mouse comum, Louis controlava os movimentos de um braço-robô , equipado com uma microcâmera e uma fonte de luz para filmar o paciente por dentro

Na telinha

Na própria tela do computador, Louis fez um esboço do abdome do paciente, indicando aos colegas onde deveriam ser inseridos os instrumentos cirúrgicos

Uma mãozinha

O braço-robô precisou ser introduzido manualmente no corpo do paciente. Mas depois disso movimentou-se apenas sob o comando do americano

Corta e queima

Louis controlava a intensidade do bisturi elétrico, manipulado aqui pelo cirurgião Anuar Mitre. O aparelho podia ser ajustado para cortar ou cauterizar

Final feliz

Em 20 minutos, o problema foi resolvido. As veias cortadas e cauterizadas foram seladas com clipes de metal para evitar vazamento de sangue