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O Estudo Monstro e as crianças sequeladas para sempre

Um psicólogo produziu gagueira em crianças órfãs — e as deixou com problemas duradouros na fala.

Por Salvador Nogueira Atualizado em 12 jun 2020, 11h31 - Publicado em 5 jun 2020, 11h30
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Outro cientista que foi pego no debate nature vs. nurture (natureza versus criação) e na influência do ambiente em problemas cognitivos foi o psicólogo americano Wendell Johnson, da Universidade de Iowa. Em 1939, ele quis investigar o impacto de reforço positivo ou negativo na gagueira, e as vítimas, mais uma vez, foram crianças. Pior: órfãs. Johnson selecionou 22 crianças em um orfanato de veteranos de guerra em Iowa, dez das quais previamente marcadas como gagas antes do estudo começar.

Para executar o experimento, o psicólogo selecionou sua aluna de doutorado, Mary Tudor. As crianças foram separadas em quatro grupos. Dois grupos reuniam as crianças que tinham gagueira, e outros dois grupos agrupavam as que não tinham. Todas seriam periodicamente “avaliadas” por Tudor e outros cinco estudantes de doutorado que concordaram em servir como juízes, dando notas de 1 (ruim) a 5 (fluente) à fala de cada criança. Só que essas notas eram de mentira. Metade dos gagos seria bem avaliada, e a outra metade mal avaliada, independentemente do seu real desempenho. Entre os que falavam direito, a mesma coisa – metade deles seria avaliada positivamente, e a outra metade teria falsos problemas de gagueira apontados pelos estudiosos.

A ideia era verificar se, com essa falsa avaliação, era possível reduzir ou induzir problemas na fala. Na primeira visita às crianças, todas passaram por testes de QI e foram identificadas como canhotas ou destras (havia na época uma ideia maluca de que canhotos obrigados a usar a mão direita, e destros forçados a usar a mão esquerda, podiam sofrer de gagueira como consequência, embora o próprio Johnson não acreditasse nisso). Então, o experimento propriamente dito começou.

Wendell Johnson, cujos experimentos causaram traumas em crianças órfãs. Divulgação/Reprodução

Entre janeiro e maio de 1939, deu-se o processo de “avaliações”. Para o grupo de gagos que deveria receber avaliações positivas, Tudor dizia que aquilo era só uma fase, que seria superada, e recomendava que não prestassem atenção a críticas alheias. Para o grupo de não gagos que deveria receber avaliações negativas, ela dizia algo como: “A equipe concluiu que você tem muitos problemas com a fala. Você tem sintomas de uma criança que está começando a gaguejar. Você precisa parar imediatamente com isso. Use sua força de vontade. Faça qualquer coisa para evitar gaguejar. Nem mesmo fale, a não ser que possa fazer direito”.

Isso foi feito com crianças órfãs com idades entre 5 e 15 anos. Depois da segunda sessão, uma menina de 5 anos, que antes era falante e não tinha problemas de gagueira, já não queria mais falar. Outra de 9 fez o mesmo. As notas de todos na escola começaram a despencar. Johnson queria provar que o gaguejar era produzido por reações reprovatórias à fala, e não por problemas intrínsecos a quem fala. Ironicamente, para isso, ele arriscou induzir gagueira em crianças inocentes.

Após o fim do experimento, Mary Tudor retornou três vezes ao orfanato como voluntária para cuidar das vítimas. Tentou desfazer parte dos danos dizendo às crianças não gagas que receberam avaliações negativas que elas na verdade não gaguejavam. Mas não ajudou. Em 1940, em carta a Johnson, ela disse: “Acredito que com o tempo elas vão se recuperar, mas certamente causamos uma impressão definitiva a elas”.

Os resultados do estudo ficaram disponíveis na biblioteca da Universidade de Iowa como parte da tese de Tudor, mas Johnson jamais os publicou na literatura científica. Alguns de seus colegas ficaram chocados com seu uso de crianças órfãs em um experimento tão devastador do ponto de vista psicológico e o apelidaram de “Estudo Monstro”. Em 2001, após a revelação da história por um jornalista, a Universidade de Iowa pediu desculpas publicamente às vítimas, que em alguns casos tiveram sequelas duradouras – tudo em nome de uma hipótese científica.

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