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O falso dilema da obrigatoriedade das vacinas

A vacinação não é um tratamento individual. Só funciona aplicada de forma maciça. Logo, não há problema algum em torná-la compulsória caso seja necessário.

Por Salvador Nogueira - Atualizado em 21 set 2020, 14h18 - Publicado em 16 set 2020, 13h40

Preciso prefaciar dizendo que a necessidade de este artigo existir, por si só, é uma derrota. Não minha. Não sua. Mas de todos nós. Da ciência. Da humanidade. O fato de que hoje, passadas duas décadas do século 21, estamos sob risco de perder as maiores conquistas civilizatórias da história por comportamentos irresponsáveis e obscurantistas nos faz repensar a ideia confortável – mas falsa – de que estamos destinados ao progresso contínuo.

É possível andar para trás. Já aconteceu antes. Pode ocorrer de novo. Estou falando dos perigos representados pelo abandono – tanto no plano individual como no das políticas públicas – da medicina baseada em evidências. Em particular, falo da falsa polêmica sobre vacinas.

Populares sobretudo nos EUA, os antivaxxers, como são chamados por lá, vêm ganhando terreno paulatinamente nos últimos anos, apoiados em notícias falsas e em artigos científicos fraudados ou de péssima qualidade. E é um movimento que ameaça ganhar mais força no Brasil. Ainda mais neste momento, em que o presidente diz que “ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”, e autoriza a Secretaria de Comunicação do governo a produzir uma postagem de propaganda oficial com a frase.

Ou seja: Bolsonaro passou meses promovendo o uso de um remédio ineficaz (a cloroquina). Agora, por cortesia da ciência, dezenas de vacinas estão em desenvolvimento, e um punhado delas já se encontram em fase final de teste, com resultados promissores. E o que temos é uma fala que pode colocar muitos brasileiros não só contra uma campanha de vacinação obrigatória, mas contra a própria vacina.

Esse equívoco começou a ganhar força em 1998, quando um médico chamado Andrew Wakefield publicou no prestigioso periódico The Lancet um artigo científico indicando um possível elo entre a vacina tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba) e o autismo. Em 2004, foi revelado que Wakefield havia recebido dinheiro grosso de um grupo de advogados para buscar evidências que pudessem ser usadas contra fabricantes de vacinas. Mais que isso, revelou-se que ele tinha solicitado patente para uma vacina tríplice alternativa. O estudo fraudulento foi recolhido parcialmente pela Lancet em 2004, e totalmente em 2010. Mas o estrago já estava feito.

É possível andar para trás. Já aconteceu antes. Pode ocorrer de novo.

No começo dos anos 2000, por conta da confusão armada, os índices de vacinação despencaram no Reino Unido. Chegaram a mergulhar para 60% em algumas regiões do país, e o resultado foi, naturalmente, um grande aumento no número de casos de sarampo. É um acontecimento exemplar para o drama que estamos vivendo agora.

A vacinação não é um tratamento somente individual. OK, ela protege o indivíduo que tomou a vacina. Mas, mais que isso, ela interrompe o ciclo de transmissão para proteger quem, por algum motivo, não pode tomar (pessoas com problemas imunológicos, por exemplo), ou para quem a vacina não fez o efeito desejado (nem todo organismo reage igual, e cada vacina tem uma dose de eficácia).

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Ou seja: a vacina é sempre uma solução coletiva. Ela protege você, mas também quem está ao seu redor, e só pode erradicar uma doença – qualquer que seja – se o número de imunizados atinge um patamar tal que o vírus não consegue mais se propagar de forma eficiente na população. É a tal imunidade coletiva – ou imunidade de rebanho.

Cada patógeno tem uma capacidade diferente de propagação, que corresponde uma taxa diferente de imunizados para que se obtenha o efeito coletivo. Para o sarampo, só se atinge a proteção de rebanho com 95% da população imunizada. Por isso, qualquer redução nas taxas de vacinação acaba gerando novos surtos da doença. O Brasil havia conseguido erradicar o vírus em seu território, mas perdeu esse status em 2016.

Adivinhe por quê? Algumas pessoas decidiram não vacinar seus filhos – ou se esqueceram de fazer isso, já que toda uma geração cresceu sem ter referência sobre os perigos do sarampo. Agora a luta é tentar voltar aos níveis de 2015, quando o Brasil chegava aos 95% de adesão à vacinação necessários para conter o vírus.

O Sars-CoV-2, felizmente, não é tão contagioso quanto o sarampo. Ainda não sabemos que percentual da população precisa ser vacinada para conter o vírus. Estimativas mais conservadoras falam em algo como 60% (lembrando que a esses se somam os que adquiriram imunidade natural, após contrair o vírus), mas a porcentagem exata ainda é desconhecida. Pode ser maior que 60%, pode ser menor. O ponto é: se não tivermos cobertura vacinal suficiente, estamos condenados a manter o vírus em forte circulação, matando todo mundo que ele conseguir – inclusive as pessoas que não têm a opção de tomar a vacina ou não, por conta de problemas médicos.

Se muita gente decide não tomar a vacina, elas estão coletivamente agindo para matar outras. O Estado não pode permitir isso.

Os antivaxxers gostam de evocar argumentos baseados em liberdades individuais para justificar a não adesão a protocolos de vacinação. Faz sentido isso?

Nossa sociedade valoriza as liberdades individuais e sem dúvida com bons motivos. Mas essas liberdades não podem ser absolutas. As pessoas não podem, por exemplo, exercer a liberdade de roubar ou matar, e os governos se organizam para coibir isso – pelo uso da força, se preciso for. Pois bem: se um número de pessoas suficientemente grande deixa de tomar a vacina, elas estão coletivamente agindo para matar outras. E o Estado não pode permitir isso.

São falsos debates e falsos dilemas. Mas, se essas polêmicas crescerem demasiadamente, podem colocar em risco o futuro da civilização. E estou enxergando além da pandemia. Em 1900, a taxa de mortalidade infantil global era superior a 40%. Praticamente metade das pessoas que nasciam morria antes de completar 15 anos. No século 20, vimos um declínio brutal desse número. Hoje, ele é de 4,6% – o que ainda é alto, convenhamos. Que quatro em cada cem crianças no mundo não completem 15 anos é bem triste. Mas tente imaginar 40%. Era assim no século 19.

Três coisas no último século mudaram esse quadro de maneira miraculosa: saneamento básico, antibióticos e vacinas. E, claro, ainda há muito a fazer. A violência em lugares como o Brasil tira muitas vidas jovens. A falta de sistemas de esgoto e água tratada, tantas outras. Rechaçar a medicina baseada em evidências também pode trazer de volta os velhos inimigos da humanidade. Então, quando discutimos a adesão a vacinas, o que estamos na verdade debatendo é se queremos prosseguir no século 21 ou voltar ao 19. Dica: lá atrás morria muito mais gente.

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