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O herói da Dinamarca

O cientista que desvendou o átomo adorava esportes. Bohr, junto com Einstein, reinventou a Física.

Cássio Leite Vieira

Para os dinamarqueses, Niels Bohr faz parte do patrimônio nacional. É um herói do povo. O “Grande Dinamarquês” foi, depois de Einstein, o físico mais célebre do século. Ele desbravou os mistérios do universo liliputiano dos átomos e das moléculas.

Sua família era feliz, culta e muito rica. Seu pai era professor de Fisiologia e cientista de renome. Seu irmão, Harald, foi um grande matemático, jogador de futebol e seu melhor amigo, durante toda a vida. Niels sempre foi um aluno exemplar. Antes de terminar o doutorado, em 1911, já tinha uma medalha de ouro da Academia Dinamarquesa de Ciências e Letras.

Era muito popular em Copenhague. Além de jogador de futebol, era motociclista e adorava velejar. Uma noite, retornando de um jantar, resolveu, por diversão, escalar as paredes de um importante banco. Estava no segundo andar quando dois policiais chegaram, ameaçando sacar de suas armas. Ao olhar para cima, um deles falou: “Oh, é apenas o professor Bohr”. E foram embora.

Em 1912, Bohr foi se aprimorar na Inglaterra. Em Cambridge, conversou com Joseph John Thomson (1856-1940), mas o descobridor do elétron achou suas idéias avançadas demais. Rumou, então, para Manchester, onde o descobridor do núcleo atômico, Ernest Rutherford (1871-1937), chefiava a equipe de físicos. Logo apresentou um novo modelo de átomo que resolvia questões que o próprio Rutherford não conseguia explicar.

Em 1920, já era tão célebre que o governo da Dinamarca montou para ele o Instituto de Física Teórica de Copenhague (mais tarde Instituto Niels Bohr), escala obrigatória para os físicos da época. Casado com a bela Margrethe Normund, teve cinco filhos, entre eles Christian, que morreu, em 1934, quando uma tempestade arrancou-o do veleiro da família, pilotado pelo pai. Bohr precisou ser agarrado para não se atirar às ondas. Outro de seus filhos, Aage, ganhou o Nobel de Física em 1975.

Suas contribuições para a nova teoria quântica lhe renderam o Nobel em 1922. Em 1927, também demonstrou o Princípio da Complementaridade, que explica por que as partículas atômicas se comportam ora como corpúsculos, ora como ondas.

Pacifista preocupado com a militarização da Ciência, resistiu o quanto pôde à invasão nazista da Dinamarca em 1940. Só concordou em exilar-se nos Estados Unidos com a família quando corria o risco de ser preso, em 1943.

Suas idéias deram uma guinada na Física e na Filosofia. Durante décadas, Bohr polemizou com Einstein sobre a “essência” da natureza, discordando da objetividade da ciência para medir fenômenos. Apesar da rixa, Einstein não poupava elogios ao trabalho de Bohr. Considerava-o “a forma mais nobre de musicalidade na esfera do pensamento humano”.

Ficha técnica

Nome

Niels Henrik David Bohr

Nascimento

7 de outubro de 1885, em Copenhague (Dinamarca)

Morte

18 de novembro de 1962, em Copenhague

Formação

Física pela Universidade de Copenhague

Ocupação

Físico teórico

Destaque

Propôs em 1913 um novo modelo para o átomo, explicando por que os elétrons (partículas negativas) não eram atraídos pelo núcleo (positivo)

Eureka! Eureka! Eureka!

A órbita dos elétrons e as pistas de corrida

Até 1913, os teóricos da Física clássica quebravam a cabeça para explicar uma questão: por que os elétrons, com carga negativa, não eram atraídos pelo núcleo positivo do átomo? O modelo proposto por Rutherford concebia o átomo com uma espécie de Sol eletricamente positivo, em torno do qual giravam os elétrons, negativos. Só que a Física dizia que átomos em movimento perdem energia, o que implicaria em órbitas cada vez menores até que eles caíssem no núcleo. Portanto, o átomo seria instável. Bohr matou a charada na Universidade de Manchester. Descobriu que os elétrons não giram em torno do núcleo de forma aleatória. Seus cálculos mostravam que eles estavam “presos” a certos percursos – os orbitais –, assim como carros de corrida são obrigados a andar dentro das pistas. Para que pudessem “pular” de um orbital para o outro, teriam que ganhar ou perder energia. Enquanto ficassem dentro das pistas permitidas, estariam numa espécie de “inércia”, sem ganho nem perda. Com isso, o cientista dinamarquês inventou um novo modelo atômico, que é o ensinado hoje nas escolas.

“Nossa tarefa não é penetrar na essência das coisas, cujo significado de qualquer forma desconhecemos, mas sim desenvolver conceitos que nos permitam falar de modo produtivo sobre os fenômenos da natureza.”