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O Homo erectus pode ter sido um ótimo marinheiro – capaz, inclusive, de falar

Ou pelo menos é o que propõe Daniel Everett – pesquisador americano famoso por ter opiniões polêmicas sobre a origem da linguagem no ser humano.

O inventor do barco não chega a ser um Santos Dumont, mas foi um cara inteligente. É provável que, em um dia de chuva forte, ele tenha visto um tronco de árvore passar flutuando no rio mais próximo. E sacou que, se abrisse um buraco na madeira, poderia transformá-la na primeira canoa da história.

Ninguém sabe muito bem quando isso aconteceu. Há 40 mil anos o Homo sapiens chegou à Austrália – e ele certamente não nadou até lá (haja braço). Há cerca de 130 mil anos, a ilha de Creta, no Mediterrâneo, já era ocupada pela nossa espécie. Indício de que, quando nós estávamos dando nossos primeiros passos para fora da África, já sabíamos usar barcos.

Volta e meia, porém, algum cientista chuta o balde nessas previsões. É o caso de Daniel Everett, professor da Universidade Bentley. Nessa semana, em um congresso da Associação Americana para o Avanço da Ciência, ele afirmou que o barco, na verdade, tem pelo menos 900 mil anos – três vezes mais que o ser humano moderno – e foi invenção de um de nossos ancestrais: o Homo erectus.

É uma afirmação ousada. O argumento de Everett, grosso modo, é o seguinte: na ilha de Flores, parte do arquipélago da Indonésia, arqueólogos encontraram fósseis de um hominídeo que não dá as caras (ou melhor, crânios) em nenhum outro canto do mundo. Ele foi batizado de Homo floresiensis, e aparentemente evoluiu a partir do Homo erectus.

Para o Homo erectus chegar a uma ilha ele precisaria, obviamente, ter transposto um belo naco de mar. Isso poderia ter acontecido por acidente, é claro. Vem uma tempestade, alguns espécimes são tragados pelo mar. Eles sobrevivem se agarrando a algo que flutua, e quando amanhece o dia, bingo: foram levados pela correnteza para uma ilha até então desconhecida. A chance disso acontecer é pequena, é claro, mas o Homo erectus existiu por quase 2 milhões de anos. Quando há tempo suficiente, todas as possibilidades se realizam.

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Everett, porém, defende que nosso ancestral chegou à ilha de caso pensado, em embarcações construídas para esse fim. E vai além: para ser capaz de navegar em grupo, os marinheiros Erectus certamente tinham capacidades linguísticas primitivas, que lhes permitiram tomar decisões coletivas.

“O Erectus precisaria de linguagem para chegar à ilha de Flores. Não dá para simplesmente pegar carona em um tronco flutuante, porque as correntes marítimas tirariam ele do rumo”, afirmou o pesquisador. “Ele precisaria remar. E para remar, precisaria dar instruções como ‘remem agora’ ou ‘parem de remar’. Comunicação, e não só ruídos.”

Mudar a data da invenção dos barcos é controverso – principalmente considerando que não há nenhuma evidência arqueológica que favoreça a teoria. Mas mudar a data da invenção da linguagem é ainda mais ousado.

O consenso científico, hoje, é que o ser humano moderno (e só ele) vem com a linguagem instalada de fábrica – a famosa teoria da gramática universal, de Noam Chomsky. Há áreas específicas do cérebro dedicadas a receber e transmitir informações com a boca, e já foi descoberto até um gene que está diretamente associado ao desenvolvimento dessas áreas (o FOXP2, que existe em nós e existiu nos Neandertais, mas não aparece no DNA do Erectus).

A teoria de Chomsky não é consenso à toa: ela é apoiada por toneladas de esquemas teóricos elaborados e evidências experimentais – a mais óbvia delas é o fato de que todos os bebês, de todas as culturas do mundo, aprendem a falar línguas com o mesmo grau de sofisticação na mesma época da vida, independente do grau de desenvolvimento tecnológico de suas comunidades e da educação que recebam.

Everett partilha de outra visão: a de que não seria preciso ter um cérebro altamente especializado para desenvolver estágios intermediários de gramática. A língua seria mais uma criação cultural que biológica, que vem se desenvolvendo aos poucos desde a época dos primatas que eventualmente nos dariam origem. “A linguagem não é tão difícil quanto muitos linguistas nos levam a crer. Se você colocar símbolos em ordem linear, terá uma gramática. O Erectus inventou o Ford T da linguagem. Nós falamos um Tesla Roadster. Mas o Ford T não era uma proto-linguagem, era uma linguagem real.”

É claro que propor algo, qualquer um pode propor. Daí até convencer os outros cientistas de que esse algo está certo, é outra história. Everett tem fama de iconoclasta, e suas propostas foram recebidas com ceticismo no meio. Chegou a hora de encontrar um barquinho pré-histórico em Flores. Quanto à linguagem, bem… essa, infelizmente, não deixa evidências físicas.