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O som mais alto da história

Sim, existe um "som mais alto da história". E deu para ouvir a cinco mil quilômetros de distância da fonte.

No dia 27 de agosto de 1883, pastores de ovelhas da região de Alice Springs, na Austrália, ouviram dois tiros de rifle vindos do noroeste. Mas não havia sinal do atirador. É que o som vinha de além do horizonte: 3,5 mil quilômetros além. Era a erupção mais devastadora do Krakatoa, o vulcão na Indonésia.

O som viajou por quase três horas na atmosfera até chegar aos ouvidos dos pastores australianos, e foi parido numa explosão de 200 megatons (13 mil bombas de Hiroshima). A maior bomba atômica de todos os tempos, a Tsar, que a URSS testou em 1961, tinha 58 megatons.

Litogravura do século 19 mostrando a erupção do Krakatoa, em 1883 – uma bomba atômica natural.

Litogravura do século 19 mostrando a erupção do Krakatoa, em 1883 – uma bomba atômica natural. (Litografia: Parker & Coward/Wikimedia Commons)

Vieram mais relatos de outros lugares. Nas ilhas Andamão (Índia), a 2 mil quilômetros do Krakatoa, registraram a ocorrência de “sons extraordinários”, que “soavam como armas de fogo”. Nas Ilhas Maurício, a 5 mil quilômetros de distância, relataram “sons vindos dos leste, que pareciam o rugido distante de alguma arma pesada”.

É como se um estrondo no Recife pudesse ser ouvido em Lisboa, a 5,8 mil quilômetros de distância, e em Buenos Aires, 3,7 mil quilômetros a sudoeste.

Para quem estava mais próximo, a experiência foi bem mais intensa, claro. “As explosões foram de tal violência que estourou os tímpanos de metade da minha tripulação. Só conseguia pensar na minha esposa: achei que fosse o dia do Fuízo Final”, escreveu o capitão do navio britânico Norham Castle, que navegava a 70 quilômetros do Krakatoa na hora da erupção.

E quem estava muito mais próximo que isso não sobreviveu para contar sua história: a erupção deixou 36 mil mortos.

Para ter uma ideia de como foi a onda sonora, vale ver este vídeo aqui embaixo, com o estrondo eruptivo de um vulcão em Papua Nova Guiné, na Oceania. Preste atenção na atmosfera sobre o vulcão. Dá para ver claramente a onda de choque se formando.

http://www.youtube.com/watch?v=BUREX8aFbMs&feature=youtu.be

Os registros barométricos da época indicam que o som tinha 172 decibéis a 150 quilômetros do vulcão. Parece pouco. Uma britadeira na orelha, por exemplo, emite 100 decibéis, e não chega a parecer do dia do Juízo Final. Mas não: a escala dos decibéis é exponencial. Você percebe um aumento de 10 decibéis como se fosse o dobro do volume. Se você pudesse ficar ao lado de uma turbina de avião (sem o isolamento da cabine do avião para proteger os seus ouvidos), ouviria um som de 150 decibéis. 172 é mais do que o dobro do dobro disso. Como escreveu a revista Nautilus sobre o assunto:

“172 decibéis é algo tão absurdamente alto que roça nos limites daquilo que podemos chamar de ‘som'”.

Durma-se com um barulho desses.