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O verão europeu está ficando insuportável por conta das mudanças climáticas

Lufadas de calor em série vindas do Saara transformam a Europa em um forno. As geleiras da Groenlândia estão derretendo feito picolé no sol do meio-dia — e nosso repórter, que vive na Itália, também.

Costumava pensar que meu sangue brasileiro me tornaria mais resistente ao calor. Não que eu goste dele, longe disso. Sou do time dos que preferem o frio. Mas é aquela história, duas décadas e meia vivendo nos trópicos faz você acostumar com o clima quente. Por isso pensei que tiraria de letra os verões europeus depois de me mudar para o outro lado do Atlântico no meio do ano passado. Ledo engano.

Agora que a estação mais quente do ano no hemisfério norte já chegou na metade, posso afirmar que sim: o verão na Europa pode ser bem mais quente (e, para mim, insuportável) que no Brasil. Temperaturas beirando os 30 graus à meia-noite? Acordar pingando de suor no meio da madrugada? Está acontecendo. Mas não sou só eu que estou sofrendo com o calor — o meio ambiente também está. Muito mais, diga-se de passagem.

Incêndios florestais com proporções sem precedentes se alastraram pelo Ártico, devastando florestas de coníferas até então intocadas. Se antes elas costumavam absorver o dióxido de carbono da atmosfera, passaram a fazer o oposto, consumidas por labaredas que lançam no ar grandes quantidades de gases do efeito estufa. De acordo com o ECMWF, um centro europeu de monitoramento atmosférico, essas queimadas emitiram 75,5 megatons de CO2.

Quer saber o que isso significa? É equivalente às emissões de todo o combustível fóssil que a Colômbia queimou em 2017. Mas “floresta pega fogo toda hora, é normal”, negacionistas irão dizer. Não é verdade. O mês de junho já havia batido o recorde histórico de CO2 lançado por incêndio florestal no Ártico. Veio o mês seguinte e dobrou a meta: os níveis de julho foram mais de duas vezes maiores que os do mesmo mês em 2018.

O Alaska queimou, a Groenlândia queimou, a Sibéria também. Por lá, o governo russo registrou, até o final de julho, 745 focos de incêndio ativos, que devastaram 33,2 mil quilômetros quadrados de florestas. Dava para ver tranquilamente a fumaça do espaço. Na Groenlândia, a situação está calamitosa. As geleiras da ilha dinamarquesa estão derretendo como nunca. Mais parecem picolés esquecidos no sol do meio-dia.

Pouco antes de julho acabar, a Europa enfrentou sua segunda onda de calor no mesmo verão — a primeira foi em junho. Esta última se deslocou bem para cima da pobre Groenlândia. Em um único dia, foram perdidas para o mar 11 bilhões de toneladas de gelo. É certo que veremos um impacto direto no aumento do nível do mar.

Se toda essa água (não mais) congelada fosse dividida entre os seres humanos do planeta, cada pessoa ganharia um iceberg de mais de uma tonelada e meia. Em um único dia. Quer se assustar mais um pouquinho? Então segura essa: a quantidade de água que se liquefez na Groenlândia nos dois dias do evento extremo de derretimento do final de julho alagaria toda a superfície da Alemanha com quase sete centímetros de água.

“Isso não é ficção científica. É a realidade das mudanças climáticas. Está acontecendo agora e vai piorar no futuro sem uma ação climática urgente”, alertou em comunicado Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial (WMO). “Julho reescreveu a história do clima, com dúzias de novos recordes de temperatura a nível local, nacional e global”, disse Taalas. Foi o mês de junho mais quente já registrado na história.

Uma onda de calor anormal e precoce transformou a Europa em um forno entre os dias 25 e 29 de junho. As temperaturas ficaram 2°C acima da média para este mês. Mas julho foi pior. Muito pior: segundo a WMO, ele se igualou e possivelmente até ultrapassou o mês mais quente da história — julho de 2016. Nos tempos pré-industriais, antes de 1850, os termômetros costumavam ficar 1,2°C abaixo dos níveis atuais para o mês de julho.

Julho atualizou a definição de calor do cão aqui na Europa. Bélgica, Alemanha, Luxemburgo, Holanda e Reino Unido ganharam novos recordes nacionais de temperatura. Destes, só o Reino Unido não passou dos 40°C no dia 25. Escalas climáticas tiveram de ser refeitas, pois não iam tão longe. Na mesma data, Paris registrou seu dia mais quente da história: fez 42,6°C às 16:32. É a temperatura média de Bagdá nesta época do ano.

Até os países nórdicos estão experimentando um verão de verdade. A Noruega teve uma “noite tropical” acima de 20°C em 27 de julho. No dia seguinte, fez 33,2°C em Helsinki, capital da Finlândia. E há muitos exemplos mais para mostrar como os últimos dois meses têm sido atípicos na Europa. E, como não poderia deixar de ser, há bem mais do que um dedo das mudanças climáticas nesta situação. É a mão inteira.

As ondas de calor que de tempos em tempos invadem o continente europeu durante o verão costumam vir principalmente do norte da África, quando os ventos quentes do Saara sopram Europa adentro. Com o clima em mutação, eventos extremos como secas, enchentes e ondas de calor tendem a ser mais frequentes. Um estudo da organização World Weather Attribution quantificou a parcela de culpa das mudanças climáticas no verão 2019.

Após estudarem as ondas de calor europeias que ocorreram desde 2010 (incluindo a de junho), os cientistas concluíram que cada uma delas se tornou significativamente mais provável e mais intensa por conta do aquecimento induzido pela humanidade. Em alguns lugares, há até 100 vezes mais chances de um evento desses ocorrer do que havia um século atrás. Em outros, o número cai para 10 — que ainda assim é assustadoramente alto.

Os resultados vieram de uma análise que combinou dados de modelos e observações. Outra conclusão do grupo foi que, em todos os países analisados, as mudanças climáticas deixaram as temperaturas entre 1,5 e 3°C mais altas do que estariam se não houvesse nenhuma influência da atividade humana no clima.

Fato é que, neste verão europeu, eu dei sorte: “fugi” para o Brasil entre a metade de junho e o final de julho. Escapei das duas ondas de calor que abriram os portões do inferno na Europa. Agora é torcer para que não haja uma terceira. E, principalmente, para que os líderes mundiais abram os olhos e trabalhem duro para resolver a crise climática. Não há mais tempo: é agir agora, ou viver em uma Terra inabitável.

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